Publicidade

Seu próximo personal shopper pode ser uma IA e o varejo já está se preparando

Por  | 

Celular com o app do Magalu aberto
Bruno De Blasi/Canaltech

*Por Letícia Souza

Continua após a publicidade

Durante mais de duas décadas, a jornada de compra no e-commerce seguiu um roteiro previsível: o consumidor digitava uma palavra-chave no buscador, navegava por dezenas de guias abertas no navegador, comparava preços manualmente e filtrava opções até tomar uma decisão. Essa dinâmica, baseada na busca ativa e na paciência para garimpar ofertas, está passando por uma transformação profunda. Estamos presenciando a transição de um e-commerce estático de vitrines digitais para uma era dominada por ecossistemas de decisão algorítmica e comércio agêntico.

A inteligência artificial deixou de ser apenas aquele algoritmo silencioso no rodapé do site que sugere mercadorias complementares. Hoje, a tecnologia começa a atuar como um verdadeiro personal shopper digital — um assistente inteligente capaz de compreender intenções complexas, filtrar dados em tempo real e guiar o cliente do primeiro desejo ao fechamento da compra.

Um estudo global da Softtek, multinacional de tecnologia, revela a velocidade dessa mudança: o tráfego direcionado por assistentes de IA para sites de varejo cresceu impressionantes 4.700% em apenas um ano. Mais do que a quantidade de acessos, o comportamento desse usuário impressiona. Quem chega via recomendação de IA passa 32% mais tempo nas páginas, consome 10% mais conteúdo e apresenta uma taxa de rejeição 27% menor comparada ao tráfego tradicional.

Canaltech
O Canaltech está no WhatsApp!Entre no canal e acompanhe notícias e dicas de tecnologia
Continua após a publicidade

O impacto financeiro dessa mudança será colossal. A consultoria McKinsey projeta que o comércio mediado por agentes de IA movimentará entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões até 2030. E o consumidor brasileiro já está imerso nessa realidade. Segundo o levantamento "O Mapa da Busca no Brasil 2026", da Optimiza Marketing, 46,5% dos compradores no país já utilizam ferramentas de inteligência artificial em alguma etapa de suas compras. O consumidor não chega mais para pesquisar do zero; ele desembarca na loja virtual com a intenção refinada por um filtro cognitivo prévio feito pelas máquinas.

Da palavra-chave à intenção: a transição do SEO para o GEO

Essa metamorfose altera as regras do jogo da visibilidade digital. Por anos, as marcas investiram fortunas em estratégias de SEO (Search Engine Optimization) para aparecer nas primeiras posições dos mecanismos de busca. No entanto, agentes de IA não leem apenas palavras-chave repetidas em um texto; eles interpretam contexto, intenção e utilidade.

Entramos na era do GEO (Generative Engine Optimization) e do ACO (Agentic Commerce Optimization). A pergunta central para líderes de e-commerce deixa de ser apenas sobre ranqueamento e passa a focar na elegibilidade algorítmica. O produto tem informações suficientemente estruturadas para que um agente consiga entender o que ele oferece e recomendar ao usuário final?

Para que uma IA sugira a sua marca quando um cliente pede um tênis ideal para correr uma maratona sob chuva com bom amortecimento, não basta ter uma boa campanha publicitária. O produto precisa ter dados de catálogo muito bem alinhados. Preço, estoque em tempo real, especificações técnicas detalhadas, políticas de devolução e reputação comercial precisam estar integrados para que a máquina consiga ler, comparar e validar aquela opção em frações de segundo.

O varejo conversacional na prática

Essa nova dinâmica encontra seu terreno mais fértil no varejo conversacional. Em mercados onde o uso de aplicativos de mensageria é massivo, a transição para jornadas baseadas em diálogo é um caminho natural. O consumidor busca resolver sua necessidade conversando da mesma forma que interagiria com um vendedor experiente em uma loja física.

Aplicações práticas no ecossistema brasileiro já demonstram o alto poder de conversão dessa abordagem. Um exemplo de destaque é a Lu do Magalu operando dentro do WhatsApp. Segundo dados institucionais divulgados pelo CEO da companhia, Fred Trajano, a inteligência artificial do Magalu no aplicativo de mensagens gerou mais de 9 milhões de conversas e superou a marca de R$ 100 milhões em vendas em questão de meses.

Continua após a publicidade

Nesses canais, o cliente não navega por categorias complexas. Ele faz uma pergunta em linguagem natural, recebe recomendações sob medida no próprio chat e consegue realizar o checkout de ponta a ponta sem trocar de plataforma. Os resultados desse modelo falam por si: a taxa de conversão nesse formato conversacional chega a ser três vezes superior à do aplicativo tradicional da varejista, impulsionada pela praticidade e eliminação de atritos.

A fronteira da autonomia e o fator confiança

Apesar do entusiasmo com a agilidade do comércio agêntico, a adoção esbarra em um fator humano essencial: a confiança. Dados apontam que mais de 70% dos consumidores já se mostram dispostos a delegar a pesquisa e a descoberta de produtos para os robôs. Contudo, a adesão cai drasticamente quando a tecnologia se aproxima da transação financeira final.

Preocupações com privacidade, segurança de dados e a precisão do pagamento fazem com que o usuário ainda faça questão de dar a palavra final. Por isso, a autonomia total da IA — em que ela pesquisa, escolhe e passa o cartão de crédito sozinha — será um processo desenhado em etapas.

Continua após a publicidade

O avanço dos agentes virtuais estabelece uma camada intermediária crucial entre o cliente e o varejo. Quem controlar os melhores assistentes e fornecer os dados mais estruturados para esses sistemas dominará a vitrine do futuro. A disputa pelo consumidor já não começa no clique dentro do site, mas muito antes: no momento em que os algoritmos decidem quais marcas merecem chegar às telas dos usuários.