Publicidade

Pensar parece ser um ato subversivo

Por  | 

Compartilhe:
pessoas usando rede social e vendo vídeos tiktok
Reprodução/Freepik

Não se pode falar de censura sem compreender quais são as estruturas de poder. O objetivo da censura é impedir declarações hostis, contrárias ou simplesmente desfavoráveis às entidades ou pessoas que possuem poder suficiente para detê-las. Em outras palavras, a censura é o exercício de um poder assimétrico no qual a entidade dominante subjuga seus detratores.

Continua após a publicidade

No entanto, a censura não é estática; alimenta-se de um elemento essencial à sua propagação: o medo. Por isso, alcança seu principal objetivo: impedir, de diferentes maneiras, a difusão de qualquer narrativa indesejada. Entre essas formas está a autocensura, que se manifesta tanto de forma consciente quanto inconsciente, quando se evita falar sobre determinado tema para escapar de consequências negativas. Esses medos vão desde o rompimento de relações até consequências mais evidentes, como a perda do emprego, a perseguição e, em casos extremos, a morte. A autocensura é um pacto que a pessoa faz consigo mesma para preservar-se, evitando repercussões que possam violar os parâmetros tradicionais dos direitos humanos.

Mariano José de Larra definia a censura, de forma sucinta, como uma ordem de comportamento na qual as críticas não são permitidas. Supostamente, vivemos em uma realidade em que poucos governos atuais poderiam ser definidos nesses termos tão ditatoriais. Até mesmo os governos mais autocráticos permitem algum meio de comunicação que critique o regime, mas essa crítica precisa ser cuidadosamente dosada, pois se trata de uma abertura simulada destinada a legitimar o próprio regime ao oferecer elementos que pareçam comprovar a existência de oposição. Não importa se essa oposição é fraca, amedrontada ou frequentemente intimidada pelas forças da ordem. A censura não precisa ser explícita para produzir efeito.

Tampouco é um legado exclusivo do setor público; o mundo empresarial identificou e aproveitou as vantagens potenciais de silenciar as pessoas. Esse processo tornou-se ainda mais simples graças às plataformas digitais: hoje obtém-se o mesmo resultado sem necessidade de silêncio. Como disse Goebbels, basta impor um discurso avassalador repetido constantemente, e a censura surge como num passe de mágica. Distrair, distorcer e, sobretudo, inundar as redes com informações falsas ou manipuladas, tanto para esconder pedófilos quanto para apagar genocídios.

Canaltech
O Canaltech está no WhatsApp!Entre no canal e acompanhe notícias e dicas de tecnologia
Continua após a publicidade

Quando o excesso de informação também silencia

Essa realidade torna desnecessários grandes esforços para calar vozes discordantes em relação ao discurso desejado pelo poder. A hipérbole do boato basta. Assim como Dumas fez com que seu Conde de Monte Cristo manipulasse as redes telegráficas para concretizar sua vingança, os grandes conglomerados de mídia seguem o mesmo roteiro em todas as suas filiais, editorializando um acontecimento com exatamente os mesmos adjetivos, os mesmos heróis e os mesmos vilões. Qualquer crítica é desconstruída sob o argumento de que o objetivo nunca foi informar, mas entreter.

Da mesma forma, os grandes empreendimentos digitais, em sua evolução, buscam continuar a comercializar produtos e serviços em larga escala para gerar altos lucros e benefícios aos seus acionistas. Nesse processo, as lealdades tornam-se cada vez mais difusas, sobretudo nas plataformas que procuram impor, de maneira sutil, uma nova relação entre indivíduo, governo e sociedade. Lobistas recorrem a tecnicismos para que elementos ainda não contemplados pela legislação permaneçam fora das futuras normas. Mas toda ação gera uma reação. O que antes era um território bem definido da censura e do controle da informação transforma-se em um campo de batalha, onde acusações de colonialismo digital surgem contra aqueles que não desejam revisar o marco legal vigente para integrá-lo ao restante da economia. O mesmo princípio permanece: não é necessário educar, mas confundir e rotular como extremistas as reflexões sobre soberania digital.

A situação torna-se ainda mais complexa se aceitarmos o pressuposto de que caminhamos para um número crescente de narrativas globais que tendem a esquecer os mais pobres, aqueles que necessitam de soluções locais, sob a crença de que o livre mercado, pela obra e graça do espírito de Adam Smith, resolverá a assimetria de riqueza existente na maioria dos países do Sul.

Embaixo, a análise; em cima, a estupidez. Pensar parece ser um ato subversivo. A consequência imediata é a adoção, sem protesto, da autocensura, agravada por uma ageografia que permite controlar o comportamento da vítima em qualquer lugar e a qualquer momento. Assim, fica registrado para a posteridade qualquer comentário considerado desfavorável ao poder vigente em todos os incontáveis futuros em que esse texto venha a ser analisado. O perdão e a memória já não coincidem neste novo mundo digital.

Como disse Larra: 'O que é permitido é elogiar' e, como caricatura de Voltaire, afirmar que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Discordar significa mergulhar no silêncio; a verdade torna-se contraproducente e perigosa. A liberdade de expressão vem se transformando em um conceito filosófico, pois um ato de rebeldia de poucos caracteres pode resultar em ostracismo profissional e até mesmo na negação de vistos de turismo. 

O mundo resume-se a vídeos curtos do Instagram e do TikTok centrados no entretenimento.