Chegada dos e-VTOLs exige preparo das cidades e do mercado imobiliário
Por Especialistas Convidados | •
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*Por Marcus Cunha
Durante muito tempo, falar em carros voadores parecia um exercício de imaginação. Hoje, essa discussão deixou de ser apenas ficção científica para se tornar uma pauta concreta do planejamento urbano. A questão já não é quando os e-VTOLs (electric Vertical Take-Off and Landing), aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical, chegarão às cidades, mas se elas estarão preparadas para recebê-los. E essa preparação precisa começar muito antes do primeiro carro voador da Embraer decolar, previsto para 2027. Ela deve iniciar imediatamente, no planejamento urbano e, consequentemente, no mercado imobiliário.
A história mostra que a mobilidade sempre redesenhou as cidades. Ferrovias, rodovias, metrôs e corredores de ônibus transformaram a forma como os bairros cresceram, influenciaram onde as pessoas escolheram morar e mudaram a maneira como os empreendimentos imobiliários passaram a ser concebidos. Com a mobilidade aérea urbana, esse processo tende a se repetir. Ignorar essa transformação seria repetir um erro que as cidades já cometeram em outros momentos da história.
Pesquisas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) indicam que os e-VTOLs despontam como uma alternativa capaz de reduzir em até 40% o tempo de deslocamento e diminuir em 30% as emissões de carbono em comparação com helicópteros convencionais, além de ampliar a conectividade entre diferentes regiões.
Mas o sucesso dessa tecnologia dependerá menos das aeronaves e muito mais da capacidade de adaptação das cidades. Isso significa investir em infraestrutura, estabelecer regras para a operação desse novo modal e integrá-lo aos sistemas de transporte já existentes. O Framework de Mobilidade Aérea Urbana em São Paulo (ScienceDirect, 2026) propõe um modelo baseado em dados que integra fatores socioeconômicos e operacionais, demonstrando que cidades que se antecipam conquistam vantagem competitiva, ampliam a acessibilidade e se tornam mais preparadas para o futuro.
O mercado imobiliário também entra na rota dos e-VTOLs
Essa discussão, entretanto, não diz respeito apenas ao poder público. Ela também envolve diretamente o mercado imobiliário. Afinal, os empreendimentos planejados hoje continuarão fazendo parte da paisagem urbana nas próximas décadas. Pensar em infraestrutura preparada para novas formas de mobilidade significa desenvolver bairros mais resilientes, conectados e capazes de acompanhar a evolução das cidades. Na minha visão, essa já deveria ser uma preocupação presente em qualquer projeto urbanístico de longo prazo.
Neste contexto, os vertiportos assumem papel fundamental. Diferentemente dos helipontos convencionais, essas estruturas precisam atender a requisitos específicos de operação, segurança, abastecimento energético e fluxo de passageiros. O Estudo de Viabilidade de Vertiportos em São Paulo (PIPE/FAPESP-2025) demonstra que a infraestrutura atualmente existente não será suficiente para suportar uma futura operação em larga escala, exigindo planejamento de longo prazo.
Não por acaso, alguns loteamentos residenciais e bairros planejados já incluem helipontos e vertipontos em seus projetos urbanísticos, como é o caso do Gran Reserva Treviso, em Paulínia, interior de São Paulo. Mais do que um diferencial de infraestrutura, essa iniciativa representa uma forma de incorporar flexibilidade aos empreendimentos diante de um cenário em constante transformação. Trata-se de uma decisão que revela visão de futuro sobre a evolução da mobilidade. Posteriormente, esses locais podem ser adaptados para operações com e-VTOLs, desde que atendam às exigências técnicas e regulatórias.
Essa visão também influencia a valorização imobiliária. Cada vez mais, compradores procuram empreendimentos que ofereçam não apenas qualidade construtiva e áreas de lazer, mas também integração com infraestrutura moderna, facilidade de acesso e capacidade de adaptação às novas demandas urbanas. Acredito que, nos próximos anos, essa característica deixará de ser um diferencial para se tornar um atributo esperado pelo mercado.
Enquanto isso, a indústria acelera seus investimentos. Empresas nacionais, como a Eve Air Mobility, da Embraer, e fabricantes internacionais avançam no desenvolvimento de aeronaves elétricas e trabalham para viabilizar operações comerciais ainda nesta década. A tecnologia evolui rapidamente e reforça uma certeza: a mobilidade aérea urbana deixará de ser exceção para integrar, gradualmente, o cotidiano das grandes cidades.
Por isso, discutir os e-VTOLs vai muito além de falar sobre aeronaves. Trata-se de refletir sobre o futuro das cidades e sobre como queremos ocupar o espaço urbano nos próximos anos. O mercado imobiliário, que historicamente acompanha e muitas vezes, antecipa as transformações da sociedade, não pode assumir uma postura passiva diante deste cenário. Projetar empreendimentos preparados para uma nova realidade de mobilidade significa contribuir para cidades mais eficientes, sustentáveis e conectadas.
O futuro da mobilidade não será construído apenas nos céus. Ele começa no chão, nas decisões de planejamento urbano e nos projetos imobiliários desenvolvidos hoje. Quem compreender essa transformação desde agora ajudará a construir cidades mais preparadas para atender às necessidades de amanhã.