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A "fricção do bem": por que a IA não deve substituir o esforço criativo

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Rawpixel/Freepik
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Por Matheus Coneglian*

Caminhar pelo SXSW 2026 é incrível para sentir-se imerso com tecnologia, filmes e inovação!

Leu aí? Esse é um dos principais motivos para eu acreditar que a Inteligência Artificial ainda tem as suas limitações e a mente humana está alguns anos de sentimentos à frente. A frase aí de cima foi gerada a partir de um prompt que eu pedi para uma IA, solicitando uma frase de abertura criativa e que impactasse o leitor que fosse ler o meu artigo.

E, me desculpa IA, mas essa frase não poderia soar mais clichê e desinteressante. Como eu posso impactar alguém, de verdade, e com sentimento, se eu não coloco tudo o que eu vi e senti durante um evento tão relevante como o SXSW?

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Minha experiência em Austin vai de encontro com algo que eu acredito profundamente: IA é, claramente, um diferencial absurdo para os tempos que estamos vivendo, tanto é que é assunto de 10 a cada 10 palestras aqui ou em qualquer outro evento de inovação do mundo.

Confesso que, humildemente, não consigo listar toda a capacidade de uma IA, que deve mover mundos. Mas sei também que os humanos possuem algo que ela não tem, e que traz todo valor a uma era que, no quesito criatividade, tem sido deixada de lado: o sentimento e o poder do criar.

A mensagem mais forte que ouvi nesses dias de evento não foi sobre modelos de IA tecnológicos e disruptivos, e sim sobre mentes. Sobre fricção. Sobre o valor daquilo que só o humano ainda é capaz de fazer: sentir, errar, lembrar, pertencer, aprender. E que a fricção humana faz parte da vida, e é uma fricção do bem.

Mais do que um texto “sobre IA” ou sobre valores humanos, o que eu quero passar nesse artigo é sobre o que a IA não consegue – e talvez nunca devesse – substituir.

Disney e a pergunta que a IA não sabe responder

Em um dos conteúdos mais esperados do SXSW (pelo menos para mim, fã da Disney), Tasia Filippato, juntamente com o time de Consumer Products, explicou algo que eu achei incrível: a Disney é pessoal. Se você colocar dez pessoas na sala e perguntar o que a marca significa, vai ouvir dez memórias diferentes, seja um encontro com o Buzz Lightyear, a primeira vez no Magic Kingdom, o cheiro de protetor solar misturado com fila de atração e por aí vai. Essas histórias não só entretém e trazem algo afetuoso, elas trazem sensações, criam tradições de família, viram parte da nossa memória afetiva.

O ponto central da Tassia pode parecer simples, mas eu duvido que na sua empresa exista essa questão: na Disney, a pergunta nunca é “isso vai vender bem?”, e sim “o que queremos que as pessoas sintam quando encontrarem isso?”. Antes de qualquer campanha, antes de qualquer produto, antes de qualquer collab, alguém se senta à mesa e pergunta: é alegria? É nostalgia? É pertencimento?​

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É o oposto da lógica de muitos fluxos de IA generativa, em que a primeira pergunta vira “como eu otimizo isso?” ou “como eu automatizo esse processo?”. A Disney começa por “qual memória eu quero deixar?”. IA pode ajudar a testar variações, a distribuir, a personalizar, mas quem escolhe o sentimento-alvo ainda é um humano.​ E isso tem um valor imensurável para conexões. É a tentativa de criar algo que a pessoa vai guardar, contar, revisitar. Isso é qualidade de atenção, algo que nenhum modelo, por melhor que seja, sente na pele.​

A bicicleta da IA e a perda da fricção

Em outra sessão, “Thrive or Survive: Why Creativity is the Key to an AI-Future”, a provocação que me gerou, por mais que tenha o mesmo conceito, veio por outro ângulo, mas me fez sentir no mesmo lugar. A moderadora trouxe uma metáfora que resume bem o que estamos vivenciando: nós aprendemos a andar de bicicleta com uma ajuda aqui, outra acolá, uma rodinha às vezes. Mas, éramos nós que tínhamos que dar o primeiro impulso, perder o equilíbrio, cair, ralar o joelho, insistir. Era difícil, mas, ao final, ganhávamos algo quase que intangível, mas essencial para a vida: autoconfiança, tolerância à frustração, senso de autoria.

As crianças que estão crescendo agora parecem subir em uma bicicleta de IA: motor embutido, rodinhas que nunca saem, GPS que define o trajeto. Elas não precisam sentir o caos do começo, o medo de cair, o tédio de errar sozinho. Por que sofrer se a máquina já sabe o caminho?​ Mas, para mim, é aí que está o sentido da vida. E, como pai, eu sei que ver o meu filho “não sofrer” com algo parece muito mais atrativo. Mas, isso pode não refletir agora, mas no futuro, daqui 10, 20 anos… Como será uma pessoa que não se frustra? Que não tem experiência, que é tudo feito por comandos? Me parece tão robótico e cinza.

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O painel trouxe dados para corroborar: estudos clássicos da NASA mostram que quase todas as crianças de 4–5 anos são altamente criativas, sendo esse o período mais criativo de toda a vida, com algo próximo a 90%, mas essa criatividade despenca para algo como 2% na vida adulta. E o alerta é que esses 90% de criatividade tendem a cair drasticamente nos próximos anos. Não porque as crianças estão nascendo menos criativas, mas porque o sistema escolar, o medo de errar, a pressa por produtividade vão matando a disposição de experimentar. Tá tudo fácil, sem frustrações, sem erros, sem aprendizados.

Outras pesquisas do MIT mostram algo adicional aos dados da NASA: quando adultos usam modelos de linguagem para tarefas criativas, certas redes do cérebro ligadas a esforço cognitivo e exploração ficam menos ativas do que quando fazemos o mesmo trabalho “na raça”. Ou seja: se a gente terceiriza sempre o começo, vamos desaprendendo a começar.

A sensação de “fricção”, aquele incômodo diante da página em branco, a tentativa e erro, o rascunho ruim, não é bug, não é erro, é treino. É musculação para o cérebro, para as funções executivas que sustentam criatividade, resiliência e capacidade de tomar decisão em ambientes ambíguos. Se a bicicleta vem pronta com motor, o músculo não é exigido. E o que não é exigido, não se desenvolve.

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Pertencimento, motivação e a ilusão da conexão fácil

Motivação e pertencimento também podem ser afetadas pela IA, sabiam? Especialmente em crianças e adolescentes. A síntese de um dos pesquisadores foi de que a motivação saudável depende de três necessidades psicológicas básicas:

  • competência (sentir que consigo fazer coisas difíceis);
  • autonomia (sentir que a escolha é minha);
  • relação (sentir que pertenço a alguém ou algum grupo).

E a IA pode ameaçar as três se for usada como atalho constante.

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Quando um estudante descobre que pode entregar qualquer texto apertando um botão, por que ele se esforçaria para escrever mal cinco vezes até achar sua própria voz? Quando um adolescente desabafa mais com um chatbot do que com um amigo ou com os pais, ele tem a sensação de vínculo, mas não passa pelo trabalho social, que por vezes é ingrato, por que necessita negociar, discordar, reparar uma relação real. Quando um feed hiperpersonalizado entrega exatamente o que você já gosta, você sente conforto, mas perde o atrito de se expor ao diferente, de descobrir um grupo novo, de errar o tom em uma conversa.​

Essa ilusão de pertencimento low‑friction é perigosa justamente porque ela parece resolver o problema. Você sente que não está sozinho, já que há sempre um algoritmo que responde, que mostra sua tribo, mas o custo é que você não treina as micro-habilidades relacionais que fazem a vida funcionar fora da tela.​

E a desregulação da motivação (aquela vontade que vem de dentro, não da recompensa) tem relação direta com quadros de ansiedade, depressão e outros transtornos. Tirar das pessoas — especialmente das crianças — o esforço criativo e social é roubar um pedaço importante da saúde mental futura.

Mantenha a mão no lápis. Poder à mente

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Quero deixar bem claro que isso aqui não é um manifesto anti‑IA. Os próprios palestrantes são heavy users: engenheiros que usam modelos diariamente, professores que experimentam copilots, autores que reconhecem a força das ferramentas. O ponto não é “não use”; é como e quando usar.

Então, o que fica de lição?

  • Comece por você, não pelo prompt. Em vez de abrir direto o chat para “me dá 10 ideias de X”, faça o esforço inicial: rascunhe, desenhe, escreva três versões tortas. Depois, use a IA como editor, ampliador, comparador.
  • Use a IA como apoio, não como protagonista. Lembre que a IA deve ser alguém que ajuda você a chegar onde quer, não alguém que decide o destino.​
  • Preserve espaços sem automação. Tempo para tédio, para devaneio, para conversa sem tela. São nesses hiatos que o cérebro faz conexões novas, consolida identidade, exercita empatia. Isso é a essência da humanidade desde que o mundo é mundo.
  • Deixe crianças ralarem um pouco. Em vez de automatizar toda dificuldade, vale criar ambientes seguros onde errar e tentar de novo é esperado, tanto na escola quanto em casa.

Em termos de cultura digital, talvez o desafio seja justamente desenhar fricções do bem: pequenos atritos intencionais que obrigam a pessoa a se envolver um pouco mais, pensar um pouco mais, sentir um pouco mais, em vez de consumir tudo em modo piloto automático.

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E o que fazer na segunda-feira?

O SXSW 2026 mostrou que não existe mais um mundo “pré‑IA” para onde voltar. As ferramentas vão ficar mais presentes, mais silenciosas e mais poderosas. O que não está decidido ainda é se, nesse processo, vamos aceitar abrir mão daquilo que nos torna interessantes como humanos: a capacidade de criar significado a partir de sentimento. Se eu pudesse falar por mim, espero que não deixe isso de lado.

A Disney nos lembrou que produtos memoráveis começam com uma pergunta emocional, não com uma planilha. As falas de “Thrive or Survive” nos lembrou que cérebros criativos precisam de atrito, de tempo ocioso, de tentativa e erro, de vínculos reais.

Entre um agente autônomo e outro, o SXSW me apresentou que o questionamento que devemos fazer não é “se a IA vai nos substituir na criatividade”, mas até que ponto a gente está disposto a abrir mão de treinar a própria mente em nome de conveniência.

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Em mundo em que tudo tende ao friccionless, quem escolhe preservar algumas fricções, as do bem, tem mais chance de continuar relevante. Porque, no fim, ainda são as mentes que sabem o que significa fazer alguém chorar, rir ou se sentir parte de uma história.

Matheus Coneglian é gerente de Marketing da Wake.