Crítica | Testemunha Fantasma: não só de susto deve viver o terror

Por Laísa Trojaike | 31 de Julho de 2019 às 19h40
Netflix

Atenção! A crítica abaixo pode conter spoilers.

Para dizer se um filme é bom ou ruim, há muitas teorias que podem nos ajudar a decidir os pesos e medidas e, a partir disso, o desenvolvimento do argumento se torna muito mais objetivo. No entanto, quando se trata de gosto, podemos falar com grande segurança sobre a nossa subjetividade e, sendo sinceros, podemos estar seguros da nossa opinião. Em termos de gosto, um dos gêneros que provavelmente mais divide espectadores é o terror: assim como muitos são fãs do gênero, outros sequer são capazes de se sentirem confortáveis para assistir a um filme de terror.

Cientificamente, muitas hipóteses são levantadas. Como indicou o episódio “Terror” do canal Nerdologia, a produção de dopamina, desigual entre os seres humanos, é responsável pela resposta prazerosa ou não do espectador diante de imagens que causam medo, horror, susto ou aflição. Um bom terror, para além de ser um bom filme, sabe utilizar gatilhos emocionais, o que não significa que atingirá igualmente todas as pessoas. O importante é que todos temos medo: de fantasmas ou de tubarões, de insetos ou da morte, de palhaços ou de alienígenas, de ficar sozinho ou do aquecimento global. Talvez você ria de possessões demoníacas, mas fique sem dormir ao pensar que a água potável está com os dias contados caso nada seja feito. Mesmo que não seja necessariamente um terror, sempre há um filme capaz ameaçar o seu sono.

Susto não é medo e medo não é susto

Testemunha Fantasma (de Mikhail Red, 2018) traz a herança filipina (e oriental, de modo geral) de histórias sobre almas atormentadas, presas ao plano terreno por algum motivo (que geralmente é vingança ao algo semelhante a isso). O tema “espírito maligno” é recorrente, explorado incontáveis vezes no ocidente e no oriente, mas nem por isso exaurido: os maiores sucessos de bilheteria continuam envolvendo essa possibilidade de que, após a morte, algo ainda resta e esse algo pode ser mal ou, pior, pode nos fazer toda espécie de mal.

É preciso lembrar também que o medo é uma construção. Há, muito provavelmente, algo de primordial nessa reação emocional: os medos são aprendidos ou adquiridos ao longo da nossa vida, mas é provável que nasçamos com alguns deles, memórias de humanos ancestrais, o que explica o medo que temos sobretudo do desconhecido e do escuro. O medo, no entanto, não é adquirido apenas passivamente, como alguma válvula automática de proteção (como demonstrou o filme Divertida Mente – de Pete Docter, 2015 – nas figuras do Medo e da Nojinho), mas pode ser construído: não é incomum adicionarmos ao nosso imaginário maiores e mais detalhadas informações acerca dos nossos medos. Temer uma lenda urbana e procurar saber mais sobre ela são atitudes que geralmente andam de mãos dadas: não queremos o contato, mas temos a curiosidade.

O susto, por outro lado, é espontâneo e, principalmente, repentino, não sendo necessariamente ligado a algo que tememos: podemos levar um susto tanto de um zumbi quanto de um ente querido. O susto é uma reação involuntária a algo que contraria a ideia que estabelecemos sobre o que está ao nosso redor e o inesperado, quase na totalidade das vezes, é o elemento-chave. É dessa noção que nasce o jumpscare, que consiste na mudança brusca de clima da cena com o intuito de assustar o espectador ao pegá-lo desprevenido.

Nem todos os terrores são iguais e por isso a existência de tantos subgêneros: pode-se criar medo, dar sustos, angustiar e até mesmo entreter. Cada universo tem o seu próprio propósito. Arrisco dizer que, pelo menos no ocidente, o jumpscare é tão antigo quanto o próprio cinema de terror: mesmo sem trilha sonora e sem a montagem como a conhecemos hoje, Georges Méliès fazia elementos e seres surgirem na tela de forma “mágica”, o que provavelmente impactava enormemente os seus espectadores. O cinema asiático, por outro lado, tem alguns dos maiores exemplos de como fazer um bom jumpscare, vide o sucesso estrondoso de Ringu (de Hideo Nakata, 1998) e Ju On (de Takashi Shimizu, 2002). Infelizmente, Testemunha Fantasma entra facilmente para o hall dos filmes que se apoiam quase que completamente no jumpscare sonoro para atingir seus espectadores, o que significa rechear a trama de momentos de silêncio para, logo em seguida, tentar assustar com um som repentino e forte, o que muitas vezes funciona, já que é uma reação natural do nosso corpo, mas é cansativo e previsível, sobretudo para os mais acostumados com o gênero.

Déjà vu de O Grito. Sim ou com certeza?

Assustar com um jumpscare não só dá ares de genérico a um um filme como causa a sensação de que é muito mais um trabalho de produção (com foco comercial) do que um trabalho de direção (com foco em produzir um material artístico original). Mikhail Red, no entanto, não é exatamente o que se pode chamar de um diretor desconhecido que ainda não tem moral para sobrepor suas vontades à da produtora: o premiado Birdshot (2016) lhe rendeu reconhecimento e prêmios. Seu filme seguinte, Neomanila (2017), também é notável, sobretudo pela fotografia que, além da estética neon, lida muito bem com sombras e desfoques. Até mesmo seu longa de estreia, Rekorder (2013) é significativamente autoral se posto ao lado das demais obras. Testemunha Fantasma, por outro lado, não só é similar a muitos outros filmes asiáticos de terror, tem uma execução quase escolar.

Mais do que assistir, às vezes é preciso examinar

A verdade é que no processo de feitura de um filme, muitas podem ser as vozes no comando e não é incomum que o dinheiro fale mais alto que as decisões criativas. Por si mesmo, o roteiro de Testemunha Fantasma tem uma boa premissa: há algo de assustador em uma escola (católica, rigorosa e retrógrada) que é assombrada pelo espírito de uma aluna. A inserção de uma personagem empática, Pat Consolacion (Bea Alonzo), que, ao invés de lutar contra a assombração, tenta compreendê-la, reduz as possibilidades de histerismo: menos gritos, mais tensão (nos moldes do casal Warren na direção de James Wan). Apesar dos inúmeros jumpscares, é a existência de Pat Consolacion que abre a possibilidade de entrevermos o talento de Mikhail Red: o filme não é extraordinário e, na verdade, tem o gosto enlatado de uma má conserva, sobretudo quando vemos a fantasma tempo o suficiente para achar cômica sua expressão e sua maquiagem. Aproveitando a metáfora culinária, Testemunha Fantasma oferece, sobretudo para o espectador atento, momentos que são similares a um prato gourmet sendo servido em um restaurante fast food.

Nem sempre uma maquiagem de pele apodrecida e um sorriso são o suficiente para amedrontar.

Os jumpscares só não são executados à exaustão, porque somos submetidos a belíssimas quebras de expectativa. Com Cidadão Kane (1941), Orson Welles mudou para sempre a atenção que é dada ao segundo plano no cinema. No terror, no entanto, foram os orientais que nos ensinaram a praticamente ignorar as ações que ocorrem em primeiro plano: repare no que está acontecendo lá no fundo, às vezes na sombra, às vezes desfocado, às vezes praticamente imperceptível, a ação nem sempre é óbvia. Utilize a profundidade de campo, abrace todo o quadro e o que está fora dele e você não vai precisar de jumpscares como muleta. De alguma forma Mikhail Red compreende isso e cria uma das melhores sequências do filme:

Em casa, Pat Consolacion está no banheiro e fecha o armário revelando um espelho. Esse é o momento no qual quem já viu filmes de terror o suficiente começa a se preparar: algo vai acontecer nesse espelho e as duas possibilidades mais prováveis são ou o próprio reflexo dela ser substituído por outra coisa ou ela notar que não está sozinha ao reparar que tem algo atrás dela. Ambas as possibilidades geralmente são acompanhadas de um jumpscare sonoro. Pat está mexendo em alguma coisa e, então, ela abre o armário-espelho e guarda suas lentes de contato, revelando o que era sua ação anterior. Fecha o armário-espelho, mas nada aconteceu: quebra de expectativa e aumento da tensão. Ela se abaixa para lavar o rosto, saindo completamente do quadro: tudo o que vemos é o segundo plano, o quarto da personagem no reflexo do espelho e esse é o momento propício para vermos alguma “presença”. Ela levanta o rosto e, novamente, nada aconteceu, apenas uma nova quebra de expectativa. Abaixa-se novamente para jogar mais água no rosto e eis que finalmente algo acontece e é nada óbvio: o rosto dela está todo manchado de sangue e, embora haja acompanhamento sonoro, não é um jumpscare.

Não só de susto vive o terror: a construção de uma atmosfera de medo é muito mais duradoura e é o que de fato sobrevive quando o filme acaba.

Ainda que o filme, de modo geral, pareça amador, são momentos como esse que se destacam. O terror não está no fantasma, mas sim na tensão que cerca Pat, uma pessoa altruísta que parece estar lutando sozinha por algo muito maior do que ela. Ao mesmo tempo que isso é bom, porque fortalece a personagem, também é ruim, porque o fantasma em si acaba sendo pouco desenvolvido. Erika (Gillian Vicencio), a assombração, ganha força ao se revelar má: quando um espírito tem uma pendência, é mais fácil de resolver, mas quando é apenas o mal, como evitar que mais pessoas morram? A confissão de Erika acontece no terceiro ato do filme e, ao mesmo tempo que aumenta a tensão, também deixa pouco tempo para que um bom desfecho seja construído, haja vista que ainda existem alguns momentos de ação até o final. A solução da trama é tão simplória quanto é insuficiente: não é possível matar um espírito, mas Erika simplesmente desaparece depois que a alma de outra aluna cai com ela do alto do edifício da escola. Há morte por queda após a morte?

Esse é literalmente o fim do assombro nessa história: as duas fantasmas caem do prédio e a paz volta a reinar na escola.

Atenção! O próximo parágrafo contém grandes spoilers, não somente sobre Testemunha Fantasma, mas também sobre O Sexto Sentido.

Apesar de tudo, há um bom e suave sentimento de nostalgia ao vermos o filme: o espírito no banheiro do colégio lembra automaticamente todas as versões da lenda urbana da loira do banheiro e, se você é fã de Harry Potter, pode adicionar o bullying e rememorar a Murta Que Geme; temos a história contada por uma pessoa que está morta e que grava suas sessões em fitas cassete, assim como Malcolm Crowe (Bruce Willis) em O Sexto Sentido (de M. Night Shyamalan, 1999); e Anna (Judy Ann Dela Cruz) tem a expressão muito similar à de Toshio (Yuya Ozeki) em Ju On quando é encontrada no banheiro. As referências são todas muito bem colocadas e não chegam a se tornar plágio em momento algum.

Déjà vu de O Grito novamente? Não é mera coincidência.

Nem sempre é com os grandes filmes que aprendemos: filmes ruins nos ensinam o que não deve ser feito e filmes medianos nos mostram quais fórmulas foram ou estão sendo sedimentadas, o que significa que um filme precisa se esforçar muito para ser realmente descartável. Além disso, é sempre muito importante lembrar que o cinema não é o trabalho de uma pessoa, mas de muitas, o que indica que podemos ter diversos olhares sobre uma mesma obra e é esse tipo de exercício que pode nos ajudar a encontrar elementos valiosos onde aparentemente há nada.

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