Crítica | Surdo condena a ditadura, mas é um filme frágil

Por Sihan Felix | 18 de Fevereiro de 2020 às 19h40
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Os maquis – título obtido da vegetação utilizada por habitantes da Córsega como refúgio durante invasões estrangeiras – eram membros da resistência espanhola contra o governo do ditador Francisco Franco. Esses guerrilheiros iniciaram suas operações nas montanhas e, em uma cruzada sabidamente vã, apoiavam-se na resignação. Esta, por sua vez, estava ligada à morte quase que invariavelmente.

Em Surdo (disponível na Netflix), o roteirista e diretor Alfonso Cortés-Cavanillas (de Los días no vividos, 2012) adapta a graphic novel Sordo (no original espanhol), de David Muñoz e Rayco Pulido com o claro intuito de dar peso à voz justamente dos maquis. Se Torrepartida (de Pedro Lagaza, 1956) faz com que os guerrilheiros sejam vistos como meros bandidos sem escrúpulos, Cortés Cavanillas parece apostar no oposto. Apesar de ser uma visão mais válida e, talvez, mais próxima do real, há problemas pontuais que enfraquecem o filme.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Sem compromisso e sem profundidade

Apesar de ser interessante a transformação da HQ em preto e branco de Muñoz e Pulido em um faroeste colorido e de forte contraste, o que se vê é um exercício estético dos mais interessantes, mas fútil ou, pelo menos, sem dimensões emocionais. Existe um esvaziamento da matéria-prima – ou seja: a escolha dos fins sem os meios – na construção dos personagens. Assim, Surdo pode se mostrar com um descompromisso político perigoso e, de algum mono, maniqueísta. Há, por essa perspectiva, o vilão – o Capitão Bosch (Aitor Luna) – que é fomentado como poderoso por sua aparente mansidão, mas que é substituído por alguém que desconhece qualquer piedade.

Capitão Bosch em sua primeira aparição. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Essa personagem, Darya (Olimpia Melinte), é apresentada como uma atiradora que acerta até mesmo um homem dos maquis em movimento dentro de uma mata fechada e, na sequência, assassina homens franquistas por a desrespeitarem. Mercenária, Darya assume a posição de super vilã de Surdo, fazendo com que o Capitão Bosch pouco apareça no segundo ato do filme (em uma espécie de rendição estética).

O problema é que o roteiro de Cortés-Cavanillas e Juan Carlos Díaz Martín (estreando em um longa-metragem) dá a impressão de querer o fácil e, dessa forma, vem o choque: Darya, que talvez tivesse personalidade para não ser somente um fim, é fomentada como uma mulher brutal e, em uma cena que parece estar no filme somente para atestar a suas perversidade e perversão, faz sangrar sua arma em uma mulher (Rosa – interpretada por Marian Álvarez). Ratificando que não tem lado algum (dos maquis ou dos franquistas e – socialmente – dos homens ou das mulheres) e muito menos moral, aquela figura nada dramática é suprimida de qualquer profundidade, restando-lhe somente uma explicação rasteira sobre como perdeu o olho esquerdo.

Darya é fomentada como uma mulher brutal. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Surdo e cego

Aliás, como diretor, Cortés-Cavanillas pouco consegue dar uma unidade ao seu filme, valendo-se da fotografia de Adolpho Cañadas (seu parceiro em Los días no vividos) para que a beleza visual ceda algum tipo de fundamento e da música de Carlos M. Jara (em seu primeiro longa-metragem ficcional), que tenta evocar uma consonância quase romântica. Nesse sentido, Surdo parece dividido em dois: um western misto de Sergio Leone, Sam Peckinpah e George Lucas e um drama misto de Anthony Minghella e Quentin Tarantino.

Nessa salada toda, não há um sabor que se sobressai. A dimensão de Leone fica perdida com a tentativa de poesia violenta típica de Peckinpah se resumindo a passagens que claramente buscam primeiro o choque; o drama mais sério de Minghella e as situações tensas de Tarantino perdem todo o vigor por incompatibilidade; e nem mesmo o mais unidimensional personagem de Lucas (seja de Star Wars – que é um faroeste espacial – ou não) poderia sobreviver à falta de personalidade do filme.

No final das contas, Surdo pode até ter boas intenções (e tem mesmo), mas demonstra uma fragilidade gritante por não conseguir transmitir com clareza necessária nem mesmo a sua maior metáfora: a de se estar diante de um país surdo (Anselmo – interpretado por Asier Etxeandia) e cego (Vicente – Hugo Silva) e que tinha somente voz: a voz dos maquis, que jamais cansaram de lutar até a chegada quase invariável da morte.

Parte da Espanha franquista, cega e surda, em uma cena. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
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