Crítica | Tropeços de Sequestrando Stella tornam história pouco interessante

Por Laísa Trojaike | 19 de Julho de 2019 às 10h43
Netflix

O cinema nasceu pouco antes dos anos 1900 e, de lá para cá, contou muitas histórias inúmeras vezes, criando códigos de gêneros e revisitando velhos clichês. Nem sempre original significa melhor, da mesma forma como nem sempre o clichê é sinônimo de ruim. Muitas vezes o divertido é justamente procurar pelas pistas que sabemos que estão lá e, por vezes, sermos pegos de surpresa por uma quebra de expectativa. Caso contrário, qual seria o prazer de uma história de detetive? Não é a toa que Scooby Doo tem quase 600 episódios.

É tudo bastante familiar: a dupla de sequestradores com personalidades que se revelam incompatíveis e a vítima que não irá se entregar facilmente. Somado a isso, a existência de um segredo capaz de alterar o rumo da trama. Isso descreve muitos filmes, mas o espectador mais atento deve saber que não basta ter uma história: é preciso que saibam contá-la. Mesmo o tema sequestro é familiar por si mesmo, remetendo aos mitos e, aqui, faz lembrar especificamente o mito de Psiquê, uma mulher que ama seu sequestrador e que serve como metáfora das provações que a vida nos impõe enquanto indivíduos antes que possamos aproveitá-la — o que, contado dessa forma, fornece uma descrição do arco de Stella (Jella Haase) em Sequestrando Stella, filme alemão disponível na Netflix.

Atenção! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers!

A sequência de abertura nos dá o tom do que provavelmente será a trama: sangue frio. Montar a cena de um crime como se estivesse fazendo um trabalho como qualquer outro demonstra o nível de profissionalismo e conforto dos personagens em suas ações. Eles não conversam, apenas trabalham, enquanto planos abertos conferem uma desconfortável naturalidade ao processo. Destoa, portanto, o amadorismo de comprarem todos os objetos em uma mesma loja, maus aprendizes dos ensinamentos de Walter White. Não demora a surgir a vítima e é possível notar em cada detalhe que o planejamento foi feito meticulosamente. Todas as possibilidades de exploração do corpo feminino são evitadas pela direção e a sequência na qual eles prendem a vítima à cama demonstra que o filme não se propõe a conceder prazer ao espectador através de cenas de tortura. Não se trata de um filme fetichista.

(Imagem: Netflix)

Descartada a possibilidade de uma trama violenta, o filme poderia se dedicar a um roteiro mais complexo e inteligente, mas acaba apostando no puro drama. Não demora para que o elo fraco dos sequestradores, Vic (Clemens Schick) e Tom (Max von der Groeben) comece a titubear diante das consequências de raptar uma pessoa. Não é absurdo que um deles e a vítima tenham tido um passado (com desdobramentos mais que significativos), mas as situações às quais os personagens são submetidos não conseguem ser críveis. O exemplo máximo disso é o momento no qual Vic se encosta na parede com espumas acústicas e milagrosamente encontra o projétil desparado anteriormente alojado em meio à espuma: um milagre tanto pela sorte, quanto pela resistência da espuma. É quase como se pudéssemos sentir o processo de escrita do roteiro, vendo uma má ideia ser escrita, prevendo-a, mas sem liberdade o suficiente para interromper o processo.

Clemens Schick, porém, é quem sustenta a produção do princípio ao fim, não só porque possui o personagem com mais nuances de emoções, mas porque a qualidade da sua atuação se sobressai diante dos outros dois personagens, sobretudo em oposição à performance de Stella (Jella Haase), que não deixa escapar nenhuma pista da vida ou do passado de sua personagem, à exceção das linhas fornecidas pelo roteiro, tornando sua atuação genérica e, por vezes, exagerada. De modo geral, são poucas as possibilidades de desenvolver apego pelos personagens e mesmo a vítima pode passar pelo espectador sem gerar empatia, o que é um problema quando a tensão do filme gira em torno de possibilidades de morte dos seus três únicos personagens.

(Imagem: Netflix)

Ao contrário de muitos filmes de sequestro, a tensão de Sequestrando Stella não está na relação entre o universo interno do crime e o universo externo, ou seja, não ficamos aflitos pelas imagens da família desesperada ou da polícia que está a um passo de descobrir tudo. No filme em questão, não conhecemos a família e a ação da polícia é uma noção distante, de modo que todo o conflito é desenvolvido em torno dos três personagens e nos ambientes que ocupam. A tensão, portanto, é gerada pelas informações que são fornecidas a uns personagens e não a outros, criando instabilidades entre eles: o plano do crime perfeito não demora a chafurdar em imperfeições.

O tripé formado por direção (Thomas Sieben), fotografia (Sten Mende) e arte (Matthias Müsse) tem o louvável trabalho de dar ao roteiro (escrito pelo próprio Sieben ao lado de J. Blakeson) uma roupagem não só agradável, mas significativa. As três equipes não só criaram uma estética apreciável, mas conseguem estabelecer o clima de cada situação, seja pela distribuição e enquadramento dos personagens em cena, seja pelas escolhas de cores, que, mais do que reforçarem a frieza da situação, pontuam as mudanças de humores e adequam ou não os personagens ao ambiente, revelando facetas que algumas atuações não chegam a alcançar.

(Imagem: Netflix)

Não acredito na ideia de que uma área está absolutamente acima das outras no cinema, mas alguns filmes propõem-se mais a algumas coisas do que outros: alguns são muito mais a direção, ou a arte, outros a montagem... Sequestrando Stella é um filme que poderia ser de direção, mas, embora seja muito competente, não é memorável. Poderia ser de atuação, mas mesmo Clemens Schick não se destaca a esse ponto. Poderia, ainda, ser um filme apoiado no roteiro, mas este é tão repleto de conveniências que se enfraquece e enfraquece até mesmo o trabalho daqueles que estão sendo excelentes em suas áreas.

É sempre bom lembrar que cinema é, antes de mais nada, uma arte coletiva.

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