Crítica | Rede de Abuso é ativismo no corpo de um documentário

Por Laísa Trojaike | 16 de Agosto de 2019 às 18h30
Netflix

Se recorrermos aos dicionários de língua portuguesa, não teremos uma boa noção do que é “cultura”. O termo, no entanto, é amplamente discutido nas humanidades e está em muitos dos nossos argumentos como modo de fazer compreender que, se algo nos é estranho, mas entendemos como cultural, esse algo é mais fácil de ser assimilado. Uma das definições que podem ser encontradas nas mais de três páginas do verbete no dicionário Abbagnano diz que cultura indica o produto da formação humana, “ou seja, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, polidos, [...].”

Isso significa que existem atitudes, ideias, posturas e outras partes integrantes de quem somos que se repetem e se instauram socialmente como algo perfeitamente normal. É também da cultura que surgem os estereótipos e, ao longo do tempo, as noções de certo e errado que envolvem esses estereótipos. O “cultural” abarca os mais diversos tipos de atitudes e, às vezes, é difícil entender que em alguns lugares, por exemplo, pedofilia é tão cultural quanto tomar uma xícara de café pela manhã. O que devemos atentar, no entanto, é que o café pela manhã, ao contrário da pedofilia, é inofensivo.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Pode-se dizer que o que é cultural é o que se pode chamar de normal dentro de uma determinada cultura. O documentário Rede de Abuso (disponível na Netflix) opta por não inserir um narrador e a história é aos poucos revelada pelas pessoas que participaram direta ou indiretamente dela, o que inclui moradores locais capazes de revelar naturalmente qual era a cultura da pequena Steubenville.

Localizada em Ohio, nos Estados Unidos, Steubenville ficou internacionalmente conhecida não apenas por um crime, mas por revelar a existência de uma cultura desse crime. A diretora Nancy Schwartzman utiliza a estratégia de criar uma linha do tempo que não é focada no estupro em si, mas na cultura da cidade onde o caso aconteceu, no sentido não de rotular o local, mas de utilizá-lo como paradigma. Embora a obra contenha as informações sobre o crime, que vão dos questionamentos de Alexandria Goddard ao julgamento dos adolescentes Trent Mays e Ma'lik Richmond, o grande ponto é expor a existência de uma cultura do estupro.

"Ela foi estuprada pra caramba"

Essa é uma das primeiras frases do primeiro longa-metragem da ativista Nancy Schwartzman e é absolutamente desconcertante, não pela frase em si, mas porque o áudio revela que isso é dito em meio a muitas risadas: o estupro é uma tremenda piada para a pessoa em questão.

Mesmo sem vivermos nos EUA, conhecemos a cultura de festas no Ensino Médio e, posteriormente, nas universidades e fraternidades. São inúmeros os filmes que abordam a temática e naturalizam o assédio ou até mesmo o estupro. Tomemos, por exemplo, o clássico Gatinhas e Gatões, de 1984, escrito e dirigido por John Hughes, que criou alguns dos maiores títulos que marcaram as gerações dos anos 1980 e 1990. No filme, que é uma comédia romântica, temos Geek (Anthony Michael Hall) forçando constantemente uma relação com Samantha (Molly Ringwald), que deixa muito claro que não tem interesse. Geek, no entanto, não é um vilão, mas um dos personagens que compõem a parte "comédia" do filme. Ainda pior, no entanto, é o príncipe encantado da história, Jake (Michael Schoeffling), ter o seguinte diálogo com Geek:

Jake: Posso transar a hora que eu quiser. A Caroline está no quarto agora mesmo, desmaiada. Eu poderia violá-la de dez maneiras diferentes se quisesse.
Geek: O que é que você está esperando?

Essa brutalidade tenta ser amenizada pelo roteiro com um discurso sobre amor:

Jake: Eu não sei. Ela é bonita e tem um corpo perfeito e tudo mais. Não estou mais interessado nela.
Geek: lsto realmente importa, cara?
Jake: Sim, importa. Ela é muito insensível. Veja o que ela fez com a minha casa. Ela não liga para o amor. Ela só quer saber de festinhas. Eu quero uma namorada séria. Alguém que eu posso amar, que vai me amar também. Isso é loucura?
Geek: Isso é lindo, Jake.

Não bastasse isso, Jake “dá” Caroline para Geek pois ela está tão bêbada que não notará a diferença. Esse tipo de atitude se repete em inúmeros filmes, sejam eles clássicos, blockbusters ou produções menores. De uma forma ou de outra, os mesmos tipos de atitudes se repetem ao longo de décadas na ficção e isso aconte justamente porque são reflexo da realidade.

Quando o filme deixa de ser fofo (Imagem: Universal Pictures)

Não há, em Rede de Abuso, discursos que abertamente questionem as atitudes dos adolescentes envolvidos, porque é denunciado o entendimento de que é normal esperar uma mulher ficar bêbada, estuprá-la e, posteriormente, humilhá-la publicamente. No documentário, a prova mais contundente de que há uma cultura do estupro, ou seja, de que o estupro é normal para algumas pessoas, é a exposição pública do ato, que foi ampla e abertamente comentado nas redes sociais, publicações estas que foram a base do artigo de Alexandria Goddard, blogueira que trouxe a história à tona.

Alexandria Goddard teve a coragem de não se calar diante do que viu (Imagem: Netflix)

“Os garotos definitivamente agiram errado, mas...”

Ainda na apresentação do caso, Nancy Schwartzman nos mostra discursos nos quais a vítima é claramente culpabilizada: “... a mulher participou”, “... deveriam ver as fotos que ela postou no Instagram”, “Deveriam ver a roupa que ela usava”. Há, inclusive, uma gradação na montagem desses discursos, que primeiramente são generalizados, depois são proferidos pela rádio local (“Essas garotas acabam bebendo muito nessas festas, às vezes. Às vezes, ficam promíscuas.”) e, por fim, por mulheres (“Ela tem que assumir a responsabilidade da decisão que tomou de ir àquela festa.”), demonstrando que a cultura está enraizada em todos os lugares: formais e informais, entre jovens e idosos, tanto para os homens quanto para as mulheres.

Por não se ater ao caso central, o documentário explode na segunda parte como um chamado para um levante contra o silêncio. Se Steubenville vive uma cultura do estupro, obviamente a chamada “Jane Doe” não seria a única vítima. Nancy Schwartzman, que inclusive é uma das desenvolvedoras do aplicativo contra violência sexual Circle of 6, dá grande ênfase ao poder da internet, que, mesmo que possua uma potência negativa, é também espaço de luta coletiva. Para quem não ficou a par do caso na época, ver o processo de viralização culminar na participação dos Anonymous é um dos pontos altos do desenvolvimento da história.

O poder do coletivo (Imagem: Netflix)

Ter atingido proporções internacionais, por sua vez, deu força para que as pessoas fossem às ruas e para que as mulheres tivessem coragem de contar suas histórias, revelando o quão terrivelmente corriqueiro era o estupro, o que indica que definitivamente se tratava de uma cultura, portanto. Uma vez que “Jane Doe” não aparece no filme (à exceção de uma foto em que está quase completamente pixelizada), não há espaço para que a vítima seja julgada senão através das declarações coletadas. A narrativa de Rede de Abuso não se posiciona em termos de certo e errado, mas deixa claro que muitas mulheres passaram por situações semelhantes e que essas situações, além de não terem sido consentidas, foram ruins e traumáticas. A conclusão é do espectador.

"Futebol, esportes e tudo mais. É uma eterna irmandade"

Em Rede de Abuso, Nancy Schwartzman não denuncia apenas o machismo, mas a rede de proteção que envolvia Trent Mays e Ma'lik Richmond por serem atletas do time de futebol americano da cidade. O caso se estendeu após o julgamento dos adolescentes porque a própria escola acabou sendo investigada, assim como os treinadores do time. Atualmente, o caso é referenciado pelo nome da escola, Steubenville High School.

Imagem: Netflix

Estrategicamente, o título original, "Roll Red Roll", e as imagens de divulgação do documentário são focadas no esporte, de modo que, apenas vendo o cartaz, um espectador desavisado pode concluir de que se trata de um filme sobre futebol americano. Embora soe como uma propaganda enganosa, o documentário se propõe a um papel ativo de denúncia e essa é uma estratégia perfeita para atingir especificamente o meio abordado pelo filme: jogadores, fãs, treinadores, escolas e todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente nesse meio.

Rede de Abuso, tomado unicamente enquanto cinema, não é um grande documentário e muitas escolhas criativas parecem arbitrárias, mas nada disso interfere no seu propósito, que é tocar na ferida não com o intuito de abri-la, mas de não deixar que se feche: enquanto houver cultura do estupro, seja onde for, é preciso falar sobre, denunciar e lutar. Não importa se a pessoa tem ou não um futuro brilhante, ninguém deve sair ileso de um crime. E, acima de tudo, a culpa nunca é da vítima.

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