Crítica | Próxima Parada: Apocalipse... da criatividade

Por Sihan Felix | 20 de Julho de 2018 às 11h01
Netflix

Algumas produções da Netflix denunciam (como se precisasse) o intuito simplesmente financeiro da empresa. Não. Não há nada errado em se ter um negócio e pensar no bolso. O problema é quando, além de exterminar o cinema clássico com sua grade tomada por centenas e mais centenas de produções do século XXI – tendo uma porcentagem quase insignificante do audiovisual realizado há mais de 20... 30 anos – produz por quantidade em detrimento da qualidade.

É claro que existem acertos. Mas algumas dúvidas medrosas começam a ser semeadas: Para onde esse serviço de streaming poderá ir após Próxima Parada: Apocalipse? Há espaço para o pior? Como fazer Forest Whitaker soar extremamente banal mesmo que ele tente se entregar à sua personagem? Mas algumas questões podem causar reflexões menos rasas: é melhor dar mais opções e deixar o público escolher? Ou é melhor investir na qualidade e deixar o público sem a chance de assistir a uma obra bizarra como Diário de um Exorcista – Zero (fica a indicação – ou o desafio)?

Antes de seguir adiante, tome cuidado! Esta crítica pode conter spoilers.

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Engraçada-se-não-fosse-trágica

Dirigido por um David M. Rosenthal sem inspiração alguma (algo que ele mesmo infelizmente provou ser comum ao dirigir filmes anteriores como O Cara Perfeito e A Single Shot) e escrito pelo roteirista debutante Brooks McLaren de uma forma preguiçosa, Próxima Parada: Apocalipse dá a impressão de que as escolhas da Netflix às vezes se baseiam somente em premissas. Nesse caso, talvez não tenha como contestar que a ideia do filme é realmente intrigante: Um desastre misterioso transforma os EUA em uma zona de guerra. Nessa condição, um jovem advogado precisará viajar alguns milhares de quilômetros com seu sogro para encontrar a noiva grávida.

(Captura de tela: Sihan Felix)

O que parece não ter sido lido antes do sinal verde para o início dos trabalhos foi o roteiro. Escrito aparentemente de uma maneira completamente desleixada, o roteiro de McLaren cria uma história repleta de clichês e situações constrangedoras. A dificuldade de Will (Theo James) para contar ao sogro (Tom, interpretado por Whitaker) sobre a gravidez da filha deste só não é mais caricata do que o sogro ser um cara durão, militar da reserva e ter desavenças com o genro. A hostilidade, que segue uma espécie de road movie com inclinações a saco de batata chips (cheio de nada), ainda percorre casos vergonhosos, como a apologia às armas gratuita promovida por Tom ao salvar o genro e o carro de dois criminosos desarmados.

(Captura de tela: Sihan Felix)

“Mas até aí está tudo bem”, diriam os mais flexíveis. E é verdade. Mas o background é pior para o público um pouquinho mais atento, é de esquecer de respirar por não acreditar na situação engraçada-se-não-fosse-trágica criada por McLaren e Rosenthal. Após a catástrofe misteriosa que acomete o outro lado do país, onde está Samantha (Kat Graham, a noiva/filha), não demora para que a dupla de viajantes encontre as piores pessoas do mundo. São seis dias cruzando o país (repetindo: seis dias), mas, para McLaren, já é tempo suficiente para que Will e Tom tropecem em criminosos de várias espécies, loucos perseguidores e grupos organizados prontos para roubar carro, gasolina e, claro – do contrário não haveria tensão –, para matar. Pior: esse vandalismo generalizado começa a acontecer no primeiro dia de viagem, do lado do país (de área continental) onde o tal apocalipse não deu o ar da graça.

“Mas a suspensão da realidade é necessária”, pode-se dizer. E não há dúvidas. A realidade deve, sim, ser muitas vezes suspendida. Por outro lado, há limites quanto ao gênero e quanto à própria história. Quando se assiste a um terror, não há porque reclamar da aparição, que poderia ser mentirosa e descabida em um drama biográfico, de zumbis que se alimentam de cérebro; se é uma ficção científica, não há motivo para se dizer mentirosa a existência de um alienígena que arrebenta o externo de uma hospedeira humana de dentro para fora; se é uma ação com apelo oitentista que se propõe ao exagero, pode ser ingenuidade protestar contra a história de um homem (enorme) que salva a sua família, um prédio incendiado com mais de 200 andares e o criador de tal edifício sem ter uma das pernas.

Vaidade à luz do crepúsculo

Mesmo assim, tudo em Próxima Parada: Apocalipse poderia ser menos grotesco se a produção não apelasse para uma vaidade vazia. A beleza dos planos (alguns são realmente de encher os olhos) é inversamente proporcional à utilidade deles, como se a decisão de posicionar a câmera e fazer quaisquer escolhas e ajustes adicionais dependessem apenas de uma boniteza crepuscular.

A linguagem, portanto, é esquecida e o que se vê em diversos pontos do filme são papéis de parede e/ou proteções de tela em meio a uma anarquia organizada e repentina. Esteticamente, essa escolha pelas horas mágicas (nascer e pôr do sol – quando a suavidade da luz solar promove uma iluminação avermelhada ou dourada) pode ser de muita valia, mas o uso dessa ferramenta natural meramente como reboco de uma construção que desde o princípio estava desmoronada é irresponsável. Isso porque fica a sensação de que o artifício foi utilizado para enganar o espectador, que pode acabar concluindo que o que faz uma boa fotografia é a beleza do que se vê e não a utilidade.

(Captura de tela: Sihan Felix)

McLaren tenta também inserir diálogos com ares de crítica social, reunindo sua defesa quanto ao armamento da população com um toque de preservação do povo indígena. Como se isso não fosse contraditório, visto que boa parte dos índios americanos foi exterminada covardemente à bala, a entrada e a saída de Ricki (a aplicada Grace Dove) são de uma profunda falta de interesse pelo que ela (Ricki) representa. Por mais que seja, de fato, um filme de estrada (onde parte dos personagens entram e saem da trama sem cerimônia), sua personagem passa a impressão de que entrou para cumprir uma espécie de cota dupla (feminina e indígena), chegando a comentar sobre as terminologias militares dos helicópteros, roubadas de tribos praticamente exterminadas. Enquanto o comentário tenta prometer um debate mais profundo, não há qualquer tentativa posterior de embarcar em um estudo de personagem secundário, sendo a questão tão cosmética quanto o aproveitamento da já dita luz do sol.

E o pior fica para o não-fim

Mas... o pior fica para o fim. Para um filme que originalmente poderia ser transposto para o português por “Como Termina”, a verdade é que ele loucamente não termina. E não é que não possa ter um final aberto, algo que faça a mente do espectador fervilhar e ficar pensando em possibilidades. O sentimento que fica é o de que McLaren desistiu de escrever. Para ajudar o amigo e seu roteiro inacabado, Rosenthal bradou: “Netflix, eu quero um ator consagrado!”. Então, Forest Whitaker tornou-se uma prova incontestável de que nem mesmo um grande ator pode salvar um roteiro catastrófico e uma direção que não tem a mínima ideia do caminho a seguir.

E catástrofe e caminho (em muitos sentidos – físicos e metafóricos) é o que mais existe em um road movie que, em seu título original, pretende revelar como tudo termina e, em seu título nacional, promete o apocalipse.

(Captura de tela: Sihan Felix)

Fica a indicação. Ou o desafio?

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