Crítica | Playmobil: O Filme é uma aula de como usar referências no cinema

Por Wagner Wakka | 18 de Dezembro de 2019 às 18h30
Captura/YouTube

Qualquer criança que teve acesso a brinquedos nos anos 1980 provavelmente conviveu ou com Lego, ou com Playmobil. Talvez seja por isso que, em plena década de 2010 tenham surgido filmes de ambas pecinhas.

Se LEGO fez sucesso ao brincar com vários parceiros com Warner (vide Batman), Playmobil vai no caminho da sugestão. O longa é criado por Lino DiSalvo, animador que estreia como diretor nesta produção.

Ele é conhecido na indústria por participar de filmes consagrados como Bolt, 102 Dalmatas e Frozen. Aliás, é das mãos dele que Olaf, o boneco de neve que gosta de calor, ganhou vida. Mesmo assim, ele, o diretor, não está em Frozen 2.

“Chega uma hora na vida de um artista que ele começa a querer expressar suas ideias”, disse em entrevista ao Canaltech. É assim que Playmobil chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 19 de dezembro.

Com boas propostas e uma trama gostosamente amarrada, o filme marca muito bem uma primeira obra do animador-diretor.

Trama

Playmobil: O Filme é a história de dois irmãos que vivem uma vida confortável e pouco agitada. Até que um acidente de carro lhes leva os pais embora. Tudo isso acontece nos primeiros cinco minutos de longa em versão live-action, recheados de música e alegria; contrapondo com o pesado anúncio do falecimento.

Tudo isso dentro de uma fórmula que DiSalvo aprendeu muito bem na Disney. A lembrança de Frozen não é uma mera coincidência.

Todo ambiente em que personagens são levados para outro mundo funciona como base para animação (Foto: Captura/YouTube)

Diante do abandono, é a irmã mais velha, Marla, que assume o posto da maternidade para cuidar do pirralho e revoltado Charlie. Ele foge de casa e vai parar em uma exposição gigante de Playmobil. Por uma decisão do destino, ambos irmãos acabam sendo transportados para um mundo mágico e se transformam em bonecos da marca.

Todo esse prelúdio para apresentar os personagens e criar esse passado é, de longe, o pior momento do longa. As atuações de Anya Taylor‑Joy como Marla e Gabriel Bateman como Charlie não são das melhores, o que é bastante curioso já que ela aparece muito bem em Fragmentado.

No mundo de Playmobil, o filme começa a ganhar corpo e as referências aparecem. O longa foi feito para crianças, claro, mas foi projetado para ativar aquele ponto de nostalgia dos pais. Há vários elementos na tela para dar este gatilho de saudade de uma época vivida.

“Esse filme é quase uma homenagem aos anos 1980”, explica DiSalvo. Por conta disso, ele foge do monotema, como acontece em Lego e Toy Story, passando por vários ambientes.

Com isso, também brinca com uma mistura de gêneros do cinema. Ele inicia em uma batalha de piratas e bárbaros, com um dos personagens com forte inspiração em Conan. “A gente quase conseguiu fechar com [Arnold] Schwarzenegger para fazer a atuação dele”, confessou o diretor.

Filme mistura várias temáticas (Foto: Captura/YouTube)

Ele ainda brinca com gêneros sci-fi, espionagem, gladiadores romanos e até faroeste. Aqui vale uma boa mão do diretor: tudo isso conversa de uma forma tão fluída e gostosa como só a animação permite. DiSalve confessou na entrevista que gosta disso. “Você viu Aranhaverso? Eles subiram a barra ali”, comentou.

Claro que Playmobil não permite toda mistura que há na animação de Homem-Aranha, mas ele usa muito bem o fato de que há brinquedo sobre tudo. Logo, as coisas se encaixam muito bem (com o perdão do trocadilho de peças).

Referências

Outro bom ponto do longa é que ele abusa de indicações. Contudo, diferente de filmes como da Marvel, em que há easter eggs para os fãs, aqui há uma sugestão escancarada.

O oximoro vem de, sem ter direito sobre os personagens, o diretor não dá o devido nome a eles. Ou seja, é apenas uma sugestão do que representam. Por exemplo, um dos melhores personagens (interpretado por Daniel Radcliff) é Rex Dasher, com trejeitos, paletó e equipamentos no melhor estilo 007. Tanto que, em um dos momentos ele chega a pedir um Martini mexido, mas não batido, como o espião clássico.

Há vários personagens com esta de técnica que referenciam Piratas do Caribe, Star Wars e outros tantos filmes da cultura pop. O ponto positivo aqui é que eles colaboram muito para o roteiro, não só aparecem como um ativador de nostalgia. Todos têm um excelente motivo para entrar ali, uma boa explicação de narrativa que se encaixa na história proposta.

Rex Dasher é uma brincadeira com James Bond (Foto: Captura/YouTube)

Aliás, são os ambientes que ditam o tom do momento. Em espionagem, ganha um clima mais de ação. Quando chega no faroeste, entra a tensão e diminui o ritmo. Tudo para dar um bom corpo e respiro para o longa.

Vale o ingresso? 

Playmobil é um filme no nível de Shrek. Traz boas referências de forma muito similar com um bom toque de humor. Ele perde um pouco na construção de mundo e começa muito, mas muito mal. Antes que você amaldiçoe gerações de minha família ao entrar no cinema, peço que dê uma chance até começar a animação de fato. Não dura mais que 5 minutos de tela, prometo.

A trama ainda quebra alguns outros clichês do cinema, inclusive inverte o tema batido da donzela em perigo.

Aliás, vindo do líder de animação com anos de casa na Disney não é nem necessário dizer que a modelagem e movimentação dos personagens estão excelentes. DiSalvo brinca com a ideia que um ser humano precisa se acostumar com corpo de boneco. Claro que também brinca com a clássica mão em formato de copo dos personagens de brinquedo.

Filme brinca com mão em copo dos personagens (Foto: Captura/YouTube)

Assim, se você viveu os anos 1980 e tem alguma criança por perto, pode se divertir muito com Playmobil nos cinemas.

O filme estreia em 19 de dezembro nos cinemas brasileiros.

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