Crítica | Os Incríveis 2: ou "Aceita que dói menos, querida!"

Por Sihan Felix | 29 de Junho de 2018 às 19h25

Há 14 anos, estreava Os Incríveis nos cinemas, animação que se tornou um marco em diversos aspectos: além de trazer o subgênero dos super-heróis mais à tona para o mundo infantil e elevar o nível gráfico de personagens criados em computador, provocava discussões mais do que pertinentes sobre os limites do que é ser um herói e sobre família. Essas questões abraçavam de tal forma a natureza adulta que aquele filme, à época, era o ápice da união mais sincera e efetiva entre os universos de pais e filhos. Em 2004, o filme de Brad Bird evidenciava, novamente e em definitivo dentro do cinema americano, que uma boa animação não é feita somente para crianças; que as melhores animações jamais serão restritas ao público infantil.

ALERTA DE SPOILER: se você pretende assistir ao filme e não quer saber nada sobre a trama até então, melhor encerrar a leitura por aqui. Os parágrafos seguintes contam um pouco do que acontece no longa.

Upgrade no conteúdo

Retornando para uma continuação após conduzir a obra-prima Ratatouille e passando por boas experiências em live-action, Bird demonstra que a sua compreensão de tempo e público está bem ajustada. À frente também do roteiro, ele entende que o público que criou memórias afetivas com o primeiro filme era justamente formado por crianças e que, para os hoje jovens e adultos, precisaria fazer um upgrade no conteúdo.

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Assim, o roteirista e diretor inicia o filme justamente onde o seu antecessor foi finalizado e, permanecendo dentro dos conflitos familiares, não demora para inserir atualizações temáticas mais do que pertinentes: enquanto a Mulher Elástica (Elastigirl) recebe poderes sociais — na luta pela legalização dos heróis no filme e referentes ao processo da luta por igualdade entre os gêneros no mundo real —, o Sr. Incrível passa a perceber que são necessários mais do que super poderes para cuidar da tríade casa-filhos-vida própria.

Sem se tornar abarrotado de críticas ao conservadorismo e ao machismo, Os Incríveis 2 consegue ser de uma leveza fantástica. Muito se deve, sem dúvida alguma, ao membro mais novo da família Pêra (família Parr no original), o Zezé (Jack-Jack). Construído como o alívio cômico, o bebê não somente diverte muito como é o motor de outro questionamento, um que ultrapassa as telas do cinema como a melhor das metalinguagens: de onde vem a educação?

Ao mesmo tempo, a resposta está passando ali na frente, com personagens desenhados e falas escritas por um dos grandes nomes do cinema animado atual. Se as crianças mais novas ainda não conseguem compreender as lições transmitidas pelo filme, a certeza é de que elas (as lições) vão sendo internalizadas. O amadurecimento depende da totalidade que está ao redor. Seja família, amigos, atitudes de terceiros, filmes e tudo o que for a mais, sempre estará havendo uma construção interna quando se é criança.

E nem tudo está perdido para os adultos. O arco dramático do Sr. Incrível é a prova de que se pode conhecer e reconhecer as ações de quem está ao lado, geralmente em um silencioso e cansativo trabalho, fazendo tudo o que lhe é socialmente e erroneamente imposto com pouco ou nenhum auxílio.

"Aceita que dói menos, querida!"

Os Incríveis 2 é, no final das contas, uma animação que sabe muito bem onde está pisando, por onde está passando e de onde veio. É nostálgica na medida certa; é escrita e dirigida com cuidado, dinamismo e carinho; é pertinente como o melhor do cinema contemporâneo tem oferecido; é um entretenimento saudável, que cultiva o que o ser humano pode ter de melhor; e funciona com extrema competência para um público de todas as idades.

Brad Bird conseguiu, novamente, elevar uma animação às alturas. Já o havia feito com O Gigante de Ferro (1999), o primeiro Os Incríveis (2004) e o citado Ratatouille. Ele, que originalmente dubla Edna Moda, já pode citar a sua personagem e dizer: “Aceita que dói menos, querida!”, porque a Disney/Pixar já pode ter certeza de que não sentirá falta da mente do seu ex-chefe criativo, John Lasseter, acusado de assédio.

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