Crítica | Animação hiper-realista de O Rei Leão é linda, mas muito sem graça

Por Wagner Wakka | 17 de Julho de 2019 às 13h35
Captura/YouTube

O Rei Leão é uma das obras da Disney que talvez se possa chamar de universal. Entre gerações ou diversas localidades, pode ser difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar da história de Simba e sua alcateia.

Talvez por isso seja tão complicado desviar o pensamento da obra original de 1994 para ver esta recriação do filme em 2019. Veja bem, 25 anos separam as duas produções, com o desenvolvimento de técnicas de direção, produção e artes visuais muito além do que mais de duas décadas passadas.

A proposta deste novo O Rei Leão era pegar a obra original, quase que cena por cena, e transformá-la em uma animação fotorrealista, na qual os animais se comportam como animais, em seus trejeitos e movimentações.

Neste contexto, O Rei Leão de 2019 está longe, bem longe, de ser considerada uma obra magistral como foi a animação de 1994. Pode ser ainda, aquém de obras menos robustas da animação, resumindo-se a uma recriação sem muito tempero daquela excelente comida de que se lembra da infância.

Atenção! A partir daqui esta crítica pode conter spoilers!

Animação

Antes de mais nada, é preciso posicionar o gênero ao qual este filme pertence. Ele se trata de uma animação em computação gráfica, procurando ser o mais plausível com a realidade possível.

Chega a ser impressionante como a movimentação e pequenas nuances das criaturas animadas em tela, o que cria momentos nos quais até parece que se está assistindo a um episódio de um programa qualquer do Animal Planet. Os animadores conseguiram criar realmente uma estética perfeita.

O problema começa por conta do uncanny valley. Essa é uma teoria da estética e computação relativa a quando um personagem criado em animação 3D se comporta de forma muito parecida com um ser humano na vida real. Mesmo que essa representação seja muito fiel à realidade, acontece o uncanny valley, ou seja, a sensação de estranheza que não cria uma conexão com o personagem.

Embora essa teoria seja muito referente ao comportamento humano, pode-se extrapolar isso para a animação das criaturas de O Rei Leão. Aqui, há leões, hienas, pássaros, girafas... Todos muito reais. Quando estão fazendo suas coisas de animais, como aninhando ou caçando, a sensação é boa. Entretanto, estamos falando de uma animação: eles falam, andam e interagem de forma que nem sempre é natural.

É este o primeiro erro dessa animação: ela não é nem totalmente realista, tirando de lado a parte humana dos personagens, nem se permite pisar fora da linha do real o suficiente para que fique bom.

Nisso, o filme se transforma em um pedante vídeo análogo ao que fazem canais como Animal Planet, sem que isso seja realmente interessante como na animação original.

A Disney queria que os personagens tivessem também trejeitos realistas e isso acaba com o carisma deles, principalmente quando nosso querido Simba transpõem para a adolescência. Ele se transforma em um leão genérico, com pouco de expressão. O mesmo acontece com os parceiros Timão e Pumba que ficam totalmente apagados em detrimento do realismo de suas próprias ações.

Adaptações

Para deixar o longa mais realista, o diretor Jon Favreau precisou fazer modificações em algumas cenas e adicionar outras na trama. Por exemplo, nesta versão Nala tem mais espaço de tela que no original, mostrando a leoa em mais momentos importantes.

Outras cenas também tiveram que ser cortadas, como metade do discurso de Scar na música em que ele apresenta a sua chegada ao trono.

Como um filme de 1994, O Rei Leão é um produto de sua época e, como tal, um longa com ritmo mais lento que os da atualidade. A versão de 2019 é ainda mais arrastada, garantindo uma lentidão típica, mais uma vez, da passividade de produções do Animal Planet.

A mudança mais drástica, contudo, acontece nos momentos musicais. Também focando mais em realismo, o longa deixa de lado toda a magia, surrealismo ou até mesmo o caráter estético típico de cenas musicais do cinema.

Assim, diante da música O que eu quero mais é ser rei, não espere as cores vibrantes do original, nem mesmo as pirâmides de animais ao melhor estilo cheerleaders. Até mesmo em Hakuna Matata o caráter lúdico de Timão e Pumba com Simba fica de fora, apresentando somente um passeio dos personagens pelo novo ambiente que o leão não conhecia.

Tudo isso vai minando aos poucos o que O Rei Leão tem de mágico no seu original e transforma este longa em um monótono andar de animais com algumas cenas de ação.

Sem carisma

A junção de todos estes fatores para deixar o longa mais realista acaba por criar também uma produção muito, mas muito sem carisma. Os personagens perdem completamente os trejeitos de personalidade que continham na versão original.

A começar pelo vilão Scar, que não é mais irônico e sarcástico, típico de vilões da Disney, dando espaço a um leão somente triste e ressentido por ser jogado a escanteio no reinado da selva.

As hienas também não têm o destaque merecido. Aqui, o trio é rebaixado à liderança de Shenzi, sendo que as outras duas nem mesmo ganham nome no longa. Ed, a hiena com certos traços de loucura e sua risada característica, também não aparece com as mesmas características aqui.

O ponto mais crítico, contudo, é a cena derradeira de Mufasa. O que deveria ser um dos pontos mais emocionantes do longa, nem de longe convence nesta versão, sendo uma curta cena incapaz de verter lágrimas dos espectadores como fazia O Rei Leão de 1994.

Mesmo após a morte do personagem, a trama segue de forma tão rápida que o pesar não é sentido. A falta de cor, expressão e até trilha para esse momento faz dele tão simples como o restante do filme. Falta peso.

O que há de bom? 

Apesar de tudo, ainda é impressionante visualmente o que os Favreau conseguiu fazer neste novo O Rei Leão em termos estéticos. A mimetização da selva, junto com a representação dos animais, impressiona pela beleza e realismo. Contudo, parece uma pintura muito bem feita que carrega pouco, ou quase nada, do artista.

Timão e Pumba também são representados re forma realista na trama (Foto: Captura/YouTube)

As canções também seguem excelentes. Vale lembrar que o Canaltech teve acesso ao filme antecipadamente em inglês, sendo que não há opiniões aqui sobre as versões para o Brasil.

A dupla principal é dublada e cantada por Donald Glover e Beyoncé, o que, por si só, já garante uma excelente qualidade vocal. Contudo, o ponto alto vai para a voz potente de James Earl Jones, que já fazia Mufasa na versão original e voltou ao personagem agora em 2019.

Outro ponto interessante é como O Rei Leão atual toca mais no ciclo da vida, tema eternizado na música de Elton John e Tim Rice para o longa. Aqui, a representação da natureza como um balanço de si mesmo, uma homeostase orgânica, é muito bonita, tocante e até singela na cena em que um pedaço do pelo de Simba voa pela floresta. Afinal, O Rei Leão é sobre a vida em harmonia.

E aí? 

No fim, O Rei Leão é um trabalho excelente de animação em cima da história original de 1994. É uma representação bastante fiel de como animais reais se comportariam no universo da trama.

Contudo, isso significou abrir mão de uma série de fatores que são muito preciosos para o original, como as brincadeiras durante as músicas e a personalidade de cada um dos animais.

Isso faz de O Rei Leão de 2019 um filme lindo, mas sem sal e bastante chato de assistir. Ele pode até pegar o espectador pelo carisma, mas não deve bater fundo no coração.

Em suma, é uma bela fotografia, quando o prometido havia sido uma pintura como todos os traços do artista. Infelizmente, este filme novo de O Rei Leão não funciona.

*O Canaltech assistiu a O Rei Leão antes de sua estreia à convite da Disney. Nos cinemas brasileiros, o filme estreia na quinta-feira, dia 18 de julho de 2019.

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