Crítica | O Passageiro quer uma ideologia pra viver

Por Sihan Felix | 09 de Março de 2018 às 17h44

Antes de seguir adiante, cuidado! Esta crítica contém spoilers!

Há algum tempo, o Brasil vive o embate ideológico sobre a Previdência Social. Ao mesmo tempo em que se recomenda que o brasileiro trabalhe por mais tempo para se aposentar, abstrai-se mais de 420 bilhões que não foram repassados ao Instituto Nacional do Seguro Social (o INSS) por empresas que são consideradas as maiores do país. Esse valor é aproximadamente três vezes o do tal rombo da previdência.

Se, por um lado, algumas dessas empresas estão falidas há anos e, dessa forma, não conseguirão mais sanar suas dívidas, o valor que pode ser recuperado é de até 40% do total – ou seja, ainda superior ao déficit. Números vão, números vêm... e a verdade é que o sistema é falho, a justiça é lenta, a legislação tributária é indevidamente complexa e o governo promove parcelamentos bem flexíveis para os grandes empresários. Não há partidarismo aqui. O fato é que se a Reforma da Previdência é necessária, a culpa não é do trabalhador assalariado, mas, no fim, a proposta é para que ele pague o pato.

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O início de O Passageiro é promissor: enquanto a família do protagonista é apresentada, o tempo passa sem piedade. Para causar essa impressão, são utilizadas elipses temporais (omissões intencionais das passagens de tempo) que enfatizam a rotina familiar da personagem de Liam Neeson. Apesar de ser uma escolha enfática, tudo é realizado com muito cuidado, inclusive ressaltando que aquelas passagens de tempo e aquela rotina são permeadas por saltos de ciclos enormes – o que se revela através das passagens de estações (do ano, não de trem – até então). É assim que, logo nos primeiros minutos, mostra-se como muito mais do que um filme de ação banal.

D'O Senhor das Moscas a'O Conde de Monte Cristo

A começar pela abordagem expositiva de clássicos da literatura, o filme é cercado de referências que têm o poder de construir um clima mais denso. Se os livros podem parecer arremessados gratuitamente durante a história, tudo ganha dimensões bem maiores quando se descobre o teor de cada leitura. O Senhor das Moscas (clássico literário do pós-guerra), por exemplo, é inserido no primeiro ato do filme e, nessa análise mais profunda, acaba por ceder a complexidade das relações sociais escritas por William Golding aos personagens que se despontam pouco a pouco.

A natureza do mal, tão bem explorada pelo escritor através de crianças presas em uma ilha deserta sem a supervisão de adultos, recebe contornos corajosos. Ao mesmo tempo em que, mais à frente, impõe ao Michael MacCauley (Neeson) a solidão dos pensamentos em meio ao caos dentro do trem – ficando o sujeito quase que literalmente ilhado –, surgem personagens representativos o bastante para poderem ser associados a Ralph, Porquinho, Jack, Sam e Eric (todos d’O Senhor das Moscas).

Sobra espaço, igualmente, para a concha, que, aqui, é a leitura: se no livro Jack se desfaz da concha e se desprende do mundo moderno por isso, aqui MacCauley resolve largar um exemplar de O Morro dos Ventos Uivantes para escutar a misteriosa Joanna (Vera Farmiga). É, justamente, quando ele rompe suas amarras com a própria rotina. Desprendendo-se. E é quando tudo muda...

Dessa maneira, pode se perceber mais e mais camadas no filme ao utilizar a literatura sugerida por ele mesmo. Enquanto As Vinhas da Ira trata dos efeitos da Grande Depressão de 1929 (que assolou pequenas famílias de fazendeiros do Oeste americano) através de uma família pobre demitida dos trabalhos com a chegada do progresso, O Passageiro constrói um personagem demitido pelos altos custos da sua experiência. A chegada de profissionais mais novos, ávidos por trabalho e que aceitam ganhar menos acaba por retirar aquele homem do mercado e entregá-lo ao léu. Com 60 anos de idade, demitido e tendo uma família a sustentar, com o filho entrando em uma faculdade, aquele homem cede ao desespero e transforma a sua viagem. Do mesmo modo, Tom Joad (d’As Vinhas da Ira) embarca em uma viagem que, em resumo, acabaria por se comprovar frustrante – mesmo que inicialmente ele possa ter pensando que o fator financeiro recompensaria.

Freud explica...

Ainda, utilizando O Morro dos Ventos Uivantes e a sua relação freudiana, é possível relacionar seus personagens com os expostos no filme. Portanto, pode se perceber Heathcliff como sendo MacCauley, o id, aquele que exterioriza impulsos primitivos, que faz o tempo parecer inexistente; Catherine como sendo Joanna, o ego, que se relaciona com outras pessoas e testa o id contra a realidade; E Edgar como sendo o Alex Murphy (Patrick Wilson), o superego, que representa as regras do bom comportamento e da moral.

É possível que essa exposição da personagem de Liam Neeson como id também seja uma bem pensada metalinguagem: um ator de 65 anos que faz, de fato, o tempo parecer inexistente. Suas cenas de ação são verossímeis e não é difícil sentir o esforço do ator em executar as coreografias das lutas, que sempre são de igual para igual – mesmo que os adversários tenham visivelmente mais arrojo muscular e obviamente metade da sua idade (inclusive um agente do FBI, interpretado por Killian Scott).

Competência técnica ou covardia?

Tecnicamente competente, a começar pela ideia já comentada da montagem com elipses temporais na introdução, o diretor espanhol Jaume Collet-Serra, que já dirigiu Neeson em outros três thrillers de ação (Desconhecido, Sem Escalas, e Noite sem Fim), investe, a certo ponto, em um plano-sequência que impressiona. Seja pela vitalidade do seu ator principal, seja pela coreografia deste junto a Kobna Holdbrook-Smith (intérprete do músico Oliver), a ausência de cortes (falsa, mas eficiente) fica ainda mais incrível por envolver um trem em pleno movimento – inclusive parte de sua área externa (através de uma janela).

Porém há falhas pontuais que podem ser percebidas. A inserção de ADR (automated dialogue replacement – que são, em resumo, as vozes do próprio elenco dublando eles mesmos) soa artificial às vezes. O que é muito mais perceptível nas cenas de luta, quando há muito mais gemidos do que palavras. O resultado pode incomodar aos mais atentos.

Idem o tempo de quatro minutos entre uma estação e outra – ou que o trem permanece na estação. O que se vê, a sério, é um tempo dilatado do trem em movimento e de apenas segundos quando ele para. Fica-se à mercê do id e seu tempo inexistente talvez. Logo não existem regras. Por mais que algo seja dito por algum personagem, fica complicado separar as pistas falsas que são para enganar outros personagens daquelas que estão ali para desviar a atenção do público apenas. Claro, esses desvios impostos ao espectador são artifícios para o filme seguir adiante sem maiores problemas, visto que a intensidade dos acontecimentos acaba camuflando o que há de frágil. Parece covarde e de pouco brilhantismo do bipé roteiro/direção. E é. Por outro lado, essas artimanhas conseguem fazer as quase duas horas e meia serem tão rápidas quanto o trem que ganha ares de Velocidade Máxima ao meio do terceiro e último ato.

Ele não é o alvo. Ele é uma flecha

Enquanto a discreta Sofia (Ella-Rae Smith) acaba por ser a Prynne – que, por sua vez, é uma referência direta à Hester Prynne, personagem capital e solidária (como a própria Sofia) do livro A Letra Escarlate (outro que guia o roteiro) –, o próprio MacCauley surpreende Joanna, que, àquele ponto, é o seu alvo. Aquele que passara de vítima a vingador, tal qual O Conde de Monte Cristo (livro que a personagem de Vera Farmiga surge lendo), recuperara a sua vida através de algo que havia sido seu ofício no passado.

A verdade é que, no final das contas, todos são diferentes espectros d’O Senhor das Moscas: humanos, corruptíveis e susceptíveis ao meio. Em um filme no qual um plot twist (reviravolta do roteiro) envolve a descoberta de que o superego (Murphy) não é lá o melhor exemplo que Freud usaria (sendo, este, o Capitão Hawthorne – vivido por Sam Neil), vale lembrar que mexer com qualquer família de uma personagem de Liam Neeson é o pior que se pode fazer. No caso, esquece-se a premissa e, com ela, tudo o que o primeiro ato abre: o debate previdenciário – que envolve a falência do American Dream (sonho americano) e não a situação brasileira (obviamente) – vira cinzas e até o desemprego se amedronta.

Não é para menos. Desde 2008 com Busca Implacável, sejam terroristas, traficantes de mulheres ou qualquer tipo de organização criminosa, o jovem senhor vai atrás. Ele vai resolver a situação inteira. Custe o que custar.

E ainda vai sair como herói.

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