Crítica | O Escândalo é o pontapé inicial de uma luta que não acabou

Por Laísa Trojaike | 10 de Fevereiro de 2020 às 10h10
Lionsgate

Cada vez mais longe das comédias, Jay Roach traz duas temáticas (política e feminismo) ao falar sobre o escândalo que trouxe à tona uma série de casos de assédio sexual envolvendo cargos de comando e as mulheres subordinadas a eles. É importante que o espectador faça tal como o filme: não julgar ou culpabilizar as mulheres. Todas elas são vítimas.

É surpreendente que, hoje, um filme como esse não tenha sido dirigido por uma mulher, mas nada em O Escândalo evoca uma falta de sensibilidade feminina pela direção, pelo contrário: tipos distintos de mulheres são mostradas com grande liberdade para as atuações, o que rendeu a indicação ao Oscar 2020 nas categorias Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, além do merecidíssimo reconhecimento do trabalho de maquiagem, sobretudo na personagem de Charlize Theron.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers.

Linguagem

O trabalho do roteirista Charles Randolph (A Grande Aposta, 2015) é primoroso: embora Megyn Kelly seja claramente a personagem principal (com Charlize Theron concorrendo a Melhor Atriz nessa categoria), o roteiro consegue tornar cada mulher protagonista da sua história, ao seu jeito. Se Megyn Kelly nos introduzia na estrutura da Fox News, austera e magicamente pedagógica, Gretchen Carlson (Nicole Kidman) quebra a quarta parede e envia um convite para que todas se juntem à causa, enquanto Kayla Pospisil (Margot Robbie) coloca a empatia de cada espectador à prova — e mesmo as personagens de menor peso para a trama pareciam ostentar um silencioso protesto coletivo.

Imagem: Lionsgate

Ao colocar a crítica política a Donald Trump em paralelo com a disputa feminista, o roteiro não conta apenas a história do processo contra Roger Ailes (John Lithgow, que também está com um incrível trabalho de maquiagem), mas convoca todos, sobretudo as mulheres, a pensarem sobre a onda conservadora na qual nos encontramos. Mulheres como as que defenderam Roger são convidadas a repensarem seus preceitos e os machismos estruturais, muitas vezes difíceis de serem notados sem alguma espécie de impacto capaz de iniciar uma reflexão mais profunda.

É uma mídia visual

Tal como Roger definia a televisão, o cinema também é uma arte visual. Mas como quase qualquer característica, diversos podem ser os usos de suas vantagens. Se Roger explorava o visual sensual de suas âncoras para atrair os olhares dos espectadores, O Escândalo apela para um visual perfeito para cada arco de personagem.

Imagem: Lionsgate

O figurino e o cabelo de Megyn Kelly ajudam a demonstrar sua personalidade cautelosa, curiosa e de moral por vezes questionável. O universo que gira em torno de Gretchen Carlson é muito mais composto por tons pastéis, mais sensíveis, demonstrando o quanto a personagem estava decidida a lutar pela causa, mostrando-se tranquila ao invés de alimentar algum sentimento negativo, denunciando, assim, que ela estava no controle de tudo desde o princípio. As mudanças de figurino e maquiagem de Kayla Pospisil revelam quanto da sua inocência foi corrompida ao longo dos assédios.

As sequências em que vemos mulheres se arrumando demonstram como algumas formas de poder manipulam conceitos para que a dominação do corpo do outro possa ser naturalizada. As mulheres são obrigadas a usarem maquiagem o tempo todo (e de acordo com um padrão), não podem usar calças, precisam usar modeladores corporais e salto alto (mesmo que os calos estejam abertos e doendo). O machismo na emissora, portanto, ia muito além dos assédios e permeava toda a estrutura que tornou a Fox News referência.

Imagem: Lionsgate

Tendo isso em mente, o filme evoca uma discussão sobre o formato dos jornais que ainda temos hoje e nos é possível questionar inclusive a nossa própria televisão: qual é a estética adotada pelo seu telejornal favorito? Você vê diversidade? Você sente que o profissional diante das câmeras está sendo respeitado?

O Escândalo nos conta uma história de luta que não deve morrer ou ser esquecida, mas seu propósito não é somente fazer um relato: nós, mulheres, precisamos nos defender e apoiar umas às outras, mesmo que não sejamos amigas. Esse é o grande apelo no olhar trocado por Megyn e Gretchen ao final.

Ajuda as manas.

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