Crítica | Não Mexa com Ela por um mundo melhor

Por Sihan Felix | 07 de Agosto de 2019 às 10h11
Pagu Pictures

Estando na crítica há 11 anos, essa foi a primeira vez que pensei em não escrever sobre um filme depois de assisti-lo. Parecia um terreno movediço, inseguro. Passei algum tempo pensando em meu lugar de fala e o quanto é desconcertante e intimidador (para mim) raciocinar sobre aquilo que não sinto em primeira pessoa. Pensei em minha mãe, em minha irmã, parceira, amigas, colegas... Apesar da empatia – que merece um exercício diário –, não tenho como saber o que é, de fato, ser uma mulher como elas o são.

E tudo fica ainda mais distante na tentativa de se situar como uma mulher israelense, como Orna (Liron Ben-Shlush), a protagonista do filme em questão. Assim, para mim, a uma primeira impressão, foi impossível escrever sobre Não Mexa com Ela sem entender a minha vigilância diária para me esquivar de um machismo implícito e enraizado em nossa própria sociedade. E tudo foi se tornando mais escuro ao pensar nesse mesmo mal social em um país como Israel, que divide a Terra Santa (para o cristianismo, o judaísmo e o islamismo) com a Cisjordânia e a Jordânia.

Cuidado! Daqui em diante a crítica pode conter spoilers!

A imersão e o terror

Escrito por Michal Aviad (a própria diretora, também de Invisível – 2011), Sharon Azulay Eyal e Michal Vinik, Não Mexa com Ela tem tanta força em seu discurso que deve ser impossível discordar da existência do que mostra. Não é difícil imaginar a história sendo contada como um documentário e, excetuando os trechos mais íntimos de assédio, é assustador perceber que cada situação embaraçosa (um eufemismo) passada por Orna talvez pudesse ser presenciada sem qualquer pudor. É como se o espectador estivesse ali, junto à personagem, percebendo a aproximação do indesejado, emudecido, sem poder ajudá-la.

"É assustador perceber que cada situação embaraçosa talvez pudesse ser presenciada sem qualquer pudor." (Imagem: Pagu Pictures)

Aviad, nesse sentido, faz questão de mostrar que os olhos do público estão, de fato, acompanhando sua protagonista. Seja ao segui-la utilizando uma câmera na mão para dar a impressão de que existe alguém caminhando junto a Orna (o público no caso), seja seguindo aleatoriamente até a lixeira uma garrafa d’água que ela (Orna) bebe intensamente após ter sido assediada, tudo infere a presença de outros – que, no caso, seriam eu, você e quem mais estiver assistindo. Essa forma de imersão, que tem sido uma assinatura na carreira de Aviad, é conquistada também por meio de uma estética aparentemente comum. É a partir desse universo pensado para ser visivelmente real que a diretora transmite tanta urgência.

Por outro lado (da mesma moeda), é através dessa construção que a israelense flerta com o terror de uma maneira discreta que se revela assustadora se o já dito exercício empático for realizado: a um dado momento, Benny (Menashe Noy, o chefe assediador) acende e apaga as luzes do escritório de Orna com o claro intuito de se aproximar. A sensação é quase a de que ele (Benny) realmente está chegando perto. É possível que alguém mais sensível consiga escutar, inclusive, a respiração do sujeito odioso.

A virada de mesa e um osso quebrado

Enquanto Aviad não mede esforços na crescente demonstração de baixeza de Benny, o esposo de Orna (Ofer, personagem de Oshri Cohen) merece uma reflexão em outro nível. Seu machismo reside, justamente, na incompetência em se colocar no lugar da esposa, em imaginar o que é ser mulher (algo que eu, pessoalmente, só posso tentar imaginar). Ao sufocar Orna com sua indignação, sem ao menos lhe ceder qualquer espécie de compreensão, de afeto, de entendimento, ele (Ofer) cede um gás final à história que só poderia vir, realmente, dele. É a partir de sua intolerância com a situação, por sua inabilidade em perceber o nível de trauma que corrói a sua própria esposa, que ela, enfim, vira a mesa.

Se, em 1973, a Guerra do Yom Kippur conseguiu deixar marcas profundas em Israel, que viu uma parcela considerável do seu povo colocar a culpa do mau desempenho de seus militares na premiê Golda Meir (a única mulher a comandar o país na história), Orna, ao final de Não Mexa com Ela, reflete exatamente o espírito da primeira-ministra. Enquanto David Ben-Gurion (que foi premiê anos antes de Meir) disse, certa vez, que ela (Meir) era o único homem do seu gabinete, Orna – pelas mãos do trio feminino de roteiristas – vai além: ela não precisa ser o homem de qualquer coisa. Ela é uma mulher que, sim, pode levantar a cabeça e seguir em frente. Não com a força de um homem, mas com a força de uma mulher que, ao se perceber como tal, passa a entender muito bem que um osso dificilmente quebra no mesmo lugar. Pelo contrário: após recuperado, ele fica muito mais forte.

"Ela não precisa ser o homem de qualquer coisa." (Imagem: Pagu Pictures)

No caso, por igualdade

Pensando em minha mãe, em minha irmã, parceira, amigas e colegas... não tenho, realmente, como saber o que é estar na pele delas. Mas fico imaginando se poderia existir motivo para eu me achar superior apenas porque nasci com um pênis. A tentativa de largar na frente não seria um sintoma de fraqueza? Subjugar não seria sintomático de alguém medíocre?

Não Mexa com Ela é tão forte quanto necessário e, de todo modo, utiliza da linguagem do cinema – com a assinatura tão íntima de Aviad – de um jeito desconcertante: faz com que possamos olhar para frente sem que ocultemos o nosso passado e sem que esqueçamos da necessidade de lutar por um mundo melhor. No caso, por igualdade.

*Crítica dedicada à Graça Felix, Rosa Felix, Laísa Trojaike, minhas amigas da vida, minhas colegas de Canaltech...

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