Crítica | Maria e João - O Conto das Bruxas é exemplo de como fazer adaptações

Por Laísa Trojaike | 22 de Fevereiro de 2020 às 13h53
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Os contos de fadas são contos folclóricos, histórias fantásticas de tradição oral que sobreviveram ao tempo e, originalmente, eram grandes metáforas para problemas da época. Era muito importante que crianças não se perdessem nas florestas em um tempo no qual não havia tecnologias de comunicação eficientes como as que temos hoje. Replicar essas histórias tal qual eram contadas na época de sua origem certamente tem seu valor histórico e cultural, mas há uma perda de aplicabilidade.

Assim, como não faz mais sentido algum contar histórias de princesas que devem entender seu lugar de fragilidade e dependência diante de uma figura masculina, também não há mais sentido contar histórias de crianças que se perdem na floresta para pessoas que vivem em ambientes urbanizados e que tem à sua disposição smartphones com internet, capacidade de enviar mensagens que chegam instantaneamente aos destinatários e de quebra ainda tem um GPS. Embora essas tecnologias muitas vezes nos deixem na mão (afinal, a cobertura de sinal não é homogênea), já não é comum que crianças se percam em florestas.

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O tempo passa, as organizações sociais sofrem mudanças e as histórias, se quiserem ser metáforas para as nossas vidas, precisam mudar ou ser ressignificadas. Como diz a Holda (Alice Krige) para Maria (Gretel no original): a história que está sendo contada está errada.

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

Elementos familiares

Maria e João: O Conto das Bruxas muda completamente a história e os objetivos de mensagem do conto dos Irmãos Grimm. Não se trata exatamente de um conto machista como são geralmente aqueles que envolvem princesas ou mesmo Chapeuzinho Vermelho, que culpabiliza a vítima, mas as figuras salvadoras são masculinas em João e Maria. A alteração do título da história no filme de Oz Perkins indica uma mudança de valores radical: não é mais “João e Maria”, mas sim “Maria e João”.

O roteiro de Rob Hayes insere os elementos do conto original de uma forma sutil e natural. As migalhas de pão ou bolo (depende da versão) são referenciadas logo a princípio, quando Maria (Sophia Lillis) vai visitar um possível empregador e avisa a João (Samuel Leakey) que, se encontrar alguma migalha de bolo, trará para ele.

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Ambos estão com fome vagando pela floresta, como no conto, e é João quem encontra a casa da bruxa Holda, mas a forma como isso acontece é completamente subvertida: não é ele que está tentando salvar a irmã, há somente o desespero por comida. A bruxa é idosa, como no conto original, também come crianças e morre pelo fogo que pretendia usar para cozinhar João, que aparece sendo empanturrado com uma torta. Todos esses elementos estão presentes, mas são apenas uma nostalgia da história que conhecemos.

Masculino – Feminino

Histórias de bruxas costumam ser sobre o feminino e qualquer história com o estereótipo de uma mulher velha e má como bruxa deve ser questionada. O feminino em Maria e João: O Conto das Bruxas é um poder e não um conjunto de regras sociais a serem seguidas pela mulher. Maria tem cabelo curto, contrariando o estereótipo patriarcal do que é ser uma mulher. Além disso, logo no início da história ela se recusa a aceitar um emprego que traria segurança para a sua família, mas no qual seria assediada: ela prefere passar fome a se submeter à exploração do seu corpo.

Quando a história da filha de Holda é contada pela primeira vez, vemos o pai da criança levá-la até uma bruxa. Esta está sentada sob uma figura triangular, figura geométrica que é revista inúmeras vezes ao longo do filme, sobretudo na arquitetura da casa de Holda. O triângulo é uma figura que, na bruxaria, representa justamente o homem, o falo e, sobretudo, o fogo. Não demora para que percebamos que a trajetória de Maria nesse novo filme não é salvar a si e seu irmão e voltar para casa, mas sim amadurecer como uma mulher livre e independente em uma sociedade patriarcal.

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A representação do elemento fogo (através do triângulo) ajuda a justificar a fotografia amarelada, que também representa o alerta de que a casa, embora pareça aconchegante, não é um local confiável. Como na história que conhecemos, a bruxa planeja comer as crianças perdidas na floresta, mas, agora, é um ritual para libertar Maria da figura masculina que a acompanha. Maria, no entanto, compreende que essa libertação não precisa vir da anulação do homem, indicando para o espectador a diferença entre feminismo e femismo.

Meio termo

Oz Perkins tem uma direção admirável, criando uma atmosfera que remete ao filme A Bruxa (Robert Eggers, 2015), com uma pegada muito mais mainstream, mas sem se render aos formatos mais populares de terror. O perfeito meio-termo entre cult e blockbuster.

O tripé direção, fotografia e arte cria cenários tão assustadores quanto deslumbrantes, mostrando que o mal não está nas coisas em si, mas no uso que é feito delas. Os enquadramentos centralizados e repletos de geometria vão além de uma marca estética e parecem dizer que os símbolos da bruxaria podem ser encontrados diretamente na natureza, sem que precisem ser traçados ou explicitados por alguma pessoa.

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A luz é incorporada como um elemento sobrenatural e o incômodo de vermos personagens artificialmente iluminados mesmo em meio a uma floresta no meio da noite é abandonado quando, na sequência em que Maria abandona João na floresta, uma luz vermelha brilha sem justificativa lógica em meio às árvores. Isso demonstra o entendimento da direção de que cinema é arte e, como tal, é um ambiente de liberdade criativa. Outro ponto digno de nota é o uso de contraluz em quase todo o filme, iluminando o cenário com uma luz que parece habitar somente fora da casa e que deixa os personagens quase no limite da silhueta: se há sombra, ela não está no mundo, mas nas pessoas.

Uso de iluminação vermelha (Imagem: Imagem Filmes)
Uso de contraluz (Imagem: Imagem Filmes)

Terror

É bastante claro que o conto fantástico foi levado para o universo do gênero de terror, mas este não é um filme de sustos, ainda que possa causar algum e chegue a fazer uso do já desgastado jump scare.

Esse é um terror atmosférico, o desconhecido e a nossa fragilidade diante de algo que parece muito maior e mais forte são os elementos que compõem o horror de Maria e João - O Conto das Bruxas. O feminismo embutido na trama joga ainda com um outro terror real: a desunião entre as próprias mulheres.

Holda é uma vilã pelas escolhas erradas que fez em sua trajetória, ainda que sejam completamente justificadas pelo trauma vivido, o que torna a personagem muito mais profunda. O embate entre Maria e Holda é justamente porque ela impõe à Maria (que acaba por descobrir-se bruxa também) uma lógica violenta e destrutiva ao invés de propor uma relação de compreensão e igualdade. E, com isso, não se torna impressionante que o filme tenha sido escrito e dirigido por dois homens: eles também têm um grande papel na luta feminista.

Maria e João: O Conto das Bruxas é um espetáculo visual e um trabalho incrível de adaptação. É um conto de fadas para quem está cansado de ouvir a mesma história sendo contada há décadas. Não se trata mais de contar histórias para alertar, proibir e criar medos: é preciso mudar a realidade e emancipar todo aquele que precise ser emancipado.

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