Crítica | M8 - Quando a Morte Socorre a Vida é a metáfora de uma sociedade cruel

Crítica | M8 - Quando a Morte Socorre a Vida é a metáfora de uma sociedade cruel

Por Laísa Trojaike | 10 de Dezembro de 2020 às 10h13
Migdal Filmes

M8 - Quando a Morte Socorre a Vida, programado para chegar aos cinemas no primeiro semestre de 2020, só conseguiu estrear agora, revelando não sua capacidade de prever acontecimentos, mas expondo com clareza que o racismo não só existe como é estrutural e, pior, sistemático. O filme ganha força com o movimento Black Lives Matter, mas clama por voz para além da popularização de uma causa: ser antirracista é uma necessidade, um imperativo, não uma moda.

Embora esse não seja o tema central da história, é impossível deixar de lado essa discussão. O filme é uma obra de arte do mundo e para o mundo e em momento algum se isenta da relação com a realidade cotidiana. Pelo contrário, a ficção, aqui, tem o papel de potencializar os acontecimentos que são diários e invisíveis. Contar a história de um jovem negro e periférico no contexto de uma universidade e, mais precisamente, de um curso amplamente reconhecido como frequentado por brancos historicamente abonados. Isso não teria como ser um filme que não dialogasse com a realidade, sob a pena de ser acusado de isento em um assunto que já não se aceita mais opiniões em cima do muro, ainda que M8 opte por um caminho de diálogo, compreensão e empatia.

Imagem: Reprodução/Migdal Filmes

Como crítica, talvez meu dever fosse fazer uma análise ignorando essas relações evocadas pelo próprio filme, atendo-me às questões técnicas, mas gostaria de deixar clara a impossibilidade dessa abordagem. Todas as escolhas criativas de um filme são feitas com vistas a um fim e se o filme deixa claro o seu protesto e sua relação com o cotidiano, é também obrigação do crítico levar isso em conta. Por outro lado, encontro-me bastante distante do lugar de fala que me permitiria dizer que esta ou aquela decisão do diretor foi ou não a correta, porque não é apenas uma questão de iluminação bem ou mal utilizada, por exemplo. O assunto é urgente e capaz de abafar qualquer imprecisão técnica.

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O cinema brasileiro, pela constante falta de fomento, não tem condições de alçar ares hollywoodianos e opta por contar histórias através dos meios que lhe são disponíveis. M8, nesse sentido, é um grande filme por conseguir fazer uma obra cinematográfica competente o suficiente para alcançar espaço nos cinemas, quando sabemos que muitos dos nossos filmes acabam circulando apenas nas bolhas dos festivais, perdendo a oportunidade de dialogar com quem realmente importa: qualquer um.

Imagem: Reprodução/Migdal Filmes

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Clamor

M8 - Quando a Morte Socorre a Vida é, enfim, um tremendo grito em forma de arte, refletindo uma mudança que podemos encontrar em diversos movimentos artísticos, dentro e fora do cinema. Percebemos, ao longo de décadas e séculos, uma arte elitista que ditava como as coisas deveriam ser feitas. No âmbito técnico, os conceitos de um roteiro ideal, uma direção ideal, atuações ideais, etc. Diretrizes de como uma história deve ser contada e como causar certos tipos de impacto, recursos que, quanto mais refinados, acabam exigindo aparatos técnicos cada vez mais excludentes. Nossa submissão a essa forma de arte é o que nos impede de ver o que vou chamar, aqui, de alma da arte.

Embora tenhamos muitas obras meramente comerciais, nossa falta de recursos proporciona o surgimento de um cinema que nasce da necessidade de fazer denúncias, e M8 pode ser incluído nesse meio que é justamente onde podemos encontrar o melhor do nosso cinema, um cinema muito mais sincero e realmente preocupado com o impacto de suas histórias. Admito que me incomodou um pouco os ares de Malhação que o filme alcança em seu princípio, mas, neste ponto, vejo apenas duas opções de interpretação para alguém que está distante das decisões criativas da produção: ou entender isso como um demérito baseado no meu desgosto pela tradicional série teen ou entender o uso desse formato como uma isca para os espectadores que, ao verem uma estética de denúncia descarada, já assumem uma postura contrária a qualquer argumentação.

Imagem: Reprodução/Migdal Filmes

Nesse sentido, a direção de Jeferson De deixa de ser uma mera reprodução do que é entendido como padrão da indústria cinematográfica brasileira mais popular, para ser um recurso: o filme é capaz de atrair um público mais diverso, que só terá contato com a real potência de M8 em sua cena final, já bastante distanciada do jeito Globo de contar histórias e entregando um verdadeiro soco no estômago.

Em termos de roteiro, o filme também é um pouco incômodo, sobretudo para quem, como eu, cresceu em uma bolha de privilégios brancos. A história se desenrola no espaço de tempo de um longa-metragem, o que é pouco para demonstrar que os abusos racistas, diretos e indiretos, são cotidianos e constantes. Em uma série, a equipe teria tempo suficiente para mostrar que o racismo é, sim, estrutural e sistemático, e que muitas vezes se revela em atitudes comuns, simples e aparentemente inofensivas do cotidiano.

São esses eventos que se acumulam ao longo de toda uma vida e que geram todos os tipos de pensamentos e reações que Maurício (Juan Paiva) e sua mãe, Cida (Mariana Nunes), têm. Em termos de roteiro, M8 pode parecer corrido e exagerado e, talvez por isso, é pouco provável que dialogue com mentes pouco propensas a mudanças. Por outro lado, ele é um convite: “Você não acha estranho que só exista eu aqui de negro? Tenho mais a ver com os corpos da aula de anatomia do que com meus colegas”, diz Maurício. O convite é para que observemos não o filme, mas o mundo que nos cerca.

Imagem: Reprodução/Migdal Filmes

Ecos

É provável que M8 - Quando a Morte Socorre a Vida soe como uma teoria da conspiração sobre a morte sistemática de jovens negros para alimentar as sedentas aulas de anatomia. Obviamente, cabe aqui o bom senso do espectador de, primeiramente, entender que se trata de uma ficção e, ainda mais importante, buscar esclarecimento. Os corpos das aulas de anatomia podem ser doados, por desejo proferido em vida ou por decisão da família, mas também podem vir do “Instituto Geral de Perícias na condição de cadáver não reclamado”, sob a condição de que não serão “cadáveres de morte provocada por mecanismos violentos ou suspeitos”, como explica um artigo da UFSM.

É difícil defender um sistema sobre o qual se fala tão pouco pelo tabu da morte e o desconhecimento pode acabar alimentando os ares conspiratórios de M8, mas este é um consumo fácil do filme, que demonstra apenas a indisposição do espectador diante do convite da obra para que nos tornemos esclarecidos. O longa é um exercício genuinamente filosófico, ainda que em pele de ficção e com ares de superficialidade. Ao espectador cabe entender que as vozes que gritam dentro de M8 também são vozes cansadas de se explicar.

Assim, o filme é perpassado por questionamentos e daí vem sua essência filosófica. A identificação que Maurício tem com o cadáver tem a ver com uma realidade muito mais cruel e cotidiana que uma suposta rede obscura de aquisição de corpos para as universidades — que estariam muito bem abastecidas de cadáveres se uma porcentagem dos jovens negros que são realmente assassinados ou “sumidos” fossem parar nas aulas de anatomia.

Imagem: Reprodução/Migdal Filmes

M8 usa um suposto exagero para criar contrastes nítidos que servirão para a introdução de questionamentos mais incisivos e cotidianos, fatos de números alarmantes, muito reais e até mesmo óbvios e evidentes, ainda que também sistematicamente apagados. Para cada obviedade do filme, uma série de outros questionamentos podem ser levantados: se etnicamente o Brasil é formado por uma porcentagem de quase 50% de pessoas que não se declaram brancas, por que tantos lugares são frequentados por uma maioria branca? Se o sistema age de uma certa forma com corpos negros, como não ligar isso aos inúmeros casos de jovens assassinados ou desaparecidos?

Uma simples procura em qualquer mecanismo de pesquisa irá revelar fontes confiáveis que denunciam números alarmantes. Na perspectiva de pensar primeiramente os fatos e, posteriormente, o filme, M8 - Quando a Morte Socorre a Vida tem o efeito de uma gota de água em um copo que já está no seu limite. É interessante como, apesar de tudo isso, ele adota uma perspectiva de esperança para além da denúncia. Assim, revela-se uma estratégia de guerra: para dialogar com o opressor, talvez seja necessário usar alguns dos códigos de opressão e subvertê-los. No final, a profusão de nomes traz à tona o grande questionamento, que não pode ser calado até que haja uma resposta livre de racismo: onde estão os corpos negros, vivos e mortos, na nossa sociedade?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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