Crítica | Lost Girls: Os Crimes de Long Island é brilhantemente morno

Por Sihan Felix | 17 de Março de 2020 às 08h20
Netflix

Quem faz o que faz com excelência, dificilmente consegue largar suas habilidades ao assumir uma nova função. É como um jogador de futsal que parte para o futebol de campo e carrega sua forma de jogar, sua agilidade em espaços curtos. Trazendo para o cinema, David Fincher ganhou espaço entre a década de 1980 e 1990, quando dirigia videoclipes e, após a sua primeira e não tão bem vista experiência em um longa-metragem (Alien 3, de 1992), voltou para a sua zona de conforto... até que, em 1995, lançou Seven: Os Sete Crimes Capitais – para muitos (onde me incluo), uma obra-prima.

Liz Garbus, diretora de Lost Girls: Os Crimes de Long Island (disponível na Netflix), é uma das documentaristas mais festejadas da atualidade. Indicada duas vezes ao Oscar por The Farm: Angola, USA e What Happened, Miss Simone?, ela já esteve criativamente à frente de um filme de linguagem documental por mais de 30 vezes. Então, nada mais natural que, ao ingressar no universo da ficção para o cinema, seu primeiro trabalho seja baseado em fatos.

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Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Os planos como julgamento do público

Garbus vai além em sua experiência debutante: em vários momentos do filme, ela opta por inserir imagens reais das investigações de 10 anos atrás. É uma opção arriscada para a construção do filme, visto que pode criar uma incompatibilidade entre o que aconteceu realmente e o que é romantização. Por outro lado, a diretora é cuidadosa o suficiente para que suas inserções sejam em momentos com teor mais técnico ou jornalístico, quase sempre retratando o que é público – nunca a vida privada de suas personagens (com exceção dos créditos finais, onde ela se entrega a essa forma).

Dessa maneira, o interesse da diretora permanece sempre em tom de denúncia. Com todo o filme sendo guiado por um caráter investigativo – o que pode deixar o todo morno por ser um caso sem resolução – a diretora demonstra um conhecimento de linguagem que dá alguma sobrevida à história. A relação de Mari (Amy Ryan) e a filha Sherre (Thomasin McKenzie), por exemplo, é fundamental para esse respiro de intimidade do filme. Se elas estão em uma discussão ou prestes a entrarem em conflito, são separadas por enquadramentos até desconfortáveis; se estão em concordância, são unidas pelo plano escolhido.

Um dos enquadramentos desconfortáveis... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Essas escolhas da direção ficam ainda mais evidentes e criam uma unidade muito coerente durante os embates de Mari e a polícia: Richard (Gabriel Byrne) e Dean (Dean Winters) são tratados como antagonistas (especialmente o segundo) – algo que o olhar de uma documentarista experiente sobre a história pode revelar com muita eficiência – e as discussões entre eles são construídas com precisão, como se os planos de Garbus fossem o próprio julgamento do público. Assim, os cortes e as escolhas de foco e profundidade que colocam Mari contra os dois ou Mari e Richard contra Dean são esteticamente reveladores.

Mari e Richard em acordo (segundo plano e em foco) contra Dean (em primeiro plano e desfocado). (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Não falta muito

Tematicamente, Lost Girls: Os Crimes de Long Island pode trazer à tona a lembrança de um filme recente: Três Anúncios para um Crime (de Martin McDonagh, 2017). Se no trabalho de McDonagh a busca de Mildred (Frances McDormand) encontrava histórias paralelas, como a de Dixon (Sam Rockwell), o roteiro de Michael Werwie (baseado no livro de Robert Kolker) permanece ininterruptamente na personagem de Ryan, que está sempre em luta... e até o fim. Esse maior espaço para o desenvolvimento particular de uma protagonista atormentada, subtraindo a complexidade dos demais personagens, parece, a uma primeira vista, diminuir o filme em comparação àquele de 2017, mas, a partir de um olhar mais empático, pode transformá-lo em uma obra mais relevante – sem qualquer julgamento qualitativo, somente pelo contexto social.

O fim não é redenção: é somente um novo início para a luta. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

De todo modo, Garbus – que em muitos momentos me lembrou dos trabalhos de Noah Baumbach (de História de um Casamento, de 2019) por causa de seu trabalho com a semiótica –, entrou de maneira firme, apesar de morna, para o universo da ficção. Após mais de duas décadas fazendo documentários, é muito natural que essa intromissão seja carregada do seu conhecimento na área. Lost Girls: Os Crimes de Long Island é, enfim, qualitativamente superior (e isso é uma opinião muito pessoal) a Alien 3. Resta saber se ela retornará à sua zona de conforto (onde é importante e necessária) ou se arriscará mais vezes no novo mundo.

Pessoalmente, fico com a esperança de vê-la se arriscando mais e mais. E que ela traga, sim, seu peso documental. Se o trabalho está morno, não deve faltar muito para ferver.

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