Crítica | John Wick 3: Parabellum peca na coreografia, mas se redime no enredo

Por Rafael Arbulu | 10 de Maio de 2019 às 23h00
(Imagem: Divulgação/Paris Filmes/Lionsgate Studios)

A franquia John Wick traz o tipo de filme que eu amo odiar / odeio amar: extremamente mentiroso em quase todas as suas concepções — da narrativa impossível às cenas de ação beirando o cartunesco —, mas que diverte maravilhosamente bem, com uma aposta pesada nos visuais mais soturnos, comum a um filme sobre uma organização secreta, globalizada, quase religiosa de assassinos… E seu herege.

Em John Wick 3: Parabellum, a trama começa exatamente do ponto onde fomos deixados no segundo filme: o titular assassino John Wick (Keanu Reeves) se encontra em fuga, irremediavelmente caçado por aqueles a quem um dia lhe foram irmãos de trabalho, se é que alguém pode ser próximo de alguém em um grupo de assassinos a preço fixo. Não dá nem cinco minutos de filme e já somos jogados na primeira sequência de combate — um “mano a mano” contra um gigante em uma biblioteca.

Logo de início, uma certa dualidade se faz evidente: por um lado, John Wick ainda tem a destreza e “malandragem” do combate corpo a corpo, usando tudo ao seu redor como arma na tentativa de afastar e controlar o combate contra um oponente obviamente mais forte. Por outro, Keanu Reeves envelheceu. Sim, é difícil acreditar nessa frase, mas o tempo finalmente alcançou o ator e, se você espera ver cenas similares ao kung-fu tresloucado de Matrix, vai se desapontar. O ator já não consegue manter o ritmo combativo das cenas e, em certos momentos, aparenta muito mais ser o cara que não estava na briga do bar, mas se viu envolvido sem querer porque passou ao lado e acabou sobrando uns soquinhos aqui e ali.

(Imagem: Divulgação/Paris Filmes)

Não que Reeves não tente imprimir uma coreografia de combate mais próxima dos seus tempos áureos. O empenho do ator é notável. Mas venhamos e convenhamos: dentro do contexto de Parabellum, estamos falando de lutas entre assassinos. Teoricamente, treinados e experientes na arte do combate e, consequentemente, conhecedores do que funciona e do que não funciona na hora da briga. Então por que diabos John Wick tenta parar inimigos com uns tabefes no peito?

Isso, e a atuação forçada em algumas cenas — que incluem chutes visualmente fraquinhos arremessarem suas vítimas contra paredes e estourarem vidros. Literalmente, em uma cena, Reeves pula para trás uns bons dois segundos depois que seu oponente já o chutou e seu pé voltou ao chão. O exagero, aqui, jogou contra o filme.

(Imagem: Paris Filmes)

A contextualização do enredo em si não faz muitos favores a quem acaba assistindo ao terceiro filme sem o compromisso de conhecer os dois predecessores: a saber, John Wick está fugindo porque violou uma regra primordial no segundo filme — ele matou alguém em solo proibido (especificamente, o já icônico hotel Continental, que serve de abrigo a todos os assassinos do mundo e, pelas suas normas, nenhum contrato pode ser executado em suas estruturas). Em Parabellum, toda a narrativa deriva dos eventos que vimos em John Wick: De Volta Ao Jogo e John Wick 2: Um Novo Dia Para Matar. São eles quem dão o pano de fundo para a progressão da história deste terceiro filme e, se você não os conhece, o filme até entrega algumas pílulas para relembrar e tentar posicionar quem está assistindo, mas não há muito esforço em realmente situar o expectador.

Ainda assim, estamos falando de um longa-metragem de pura ação que, surpreendentemente, tem os pés no chão. Não espere pelas explosões mirabolantes ocorridas com um único tiro certeiro e que matam 58 oponentes simultaneamente. Deixe isso com Mercenários, por exemplo. Em Parabellum, por mais mirabolantes que os confrontos sejam, eles são relativamente críveis. E a forma como eles se amarram à progressão da história tornam esta produção um ótimo exemplo de filme, daquele tipo que você quer ver apenas para relaxar no domingo.

As escolhas de diálogo são ora confusas, ora engraçadas: pequenos easter eggs remontam ao primeiro filme (onde tudo começou por causa de um cachorro e um carro — assista a trilogia, você vai entender) e agradam bastante quem conhece melhor a saga do assassino em fuga. Entretanto, mesmo para os mais veteranos, alguns diálogos e introduções de personagens são confusos, exercendo apenas a função de “preencher o roteiro”. Conhecidos do passado de John Wick vêm e vão, sofrem consequências por suas ações e, aqueles que sobrevivem... puf! Somem do filme como se nunca tivessem participado.

Um ponto sensacional no roteiro: é muito comum que filmes de ação que ganham sequências introduzam mecanismos gratuitamente enfadonhos apenas para fins de avanço da história. No caso de John Wick, isso até acontece e isso até quebra as suas próprias regras de enredo. Entretanto, tudo acaba sendo justificado dentro da própria história, sem apelação e sem usar recurso que force o espectador a pensar demais. É um filme de ação: vamos resolver esse entrave narrativo na bala. É uma proposta simplista, mas uma que funciona maravilhosamente bem.

John Wick 3: Parabellum é o tipo de filme que pode fazer muito sucesso quando um box com a trilogia em Blu-Ray sair. Assim, o fã cinéfilo pode acompanhar todo o arco que trouxe o assassino titular até aqui, sem engasgos. No arco maior da história, tudo faz muito sentido e acaba tornando essa uma bela primazia cinematográfica. Sozinho... bom, não é bem por aí. Isso, presumindo que a saga fique em uma trilogia.

Há ganchos que indicam que um quarto filme seria bem-vindo para resolver pendências que três produções cinematográficas não deram conta de resolver. Entretanto, há o risco de se tornar exaustivo e enfadonho. Eu arriscaria, porque virei fã da série como um todo e sou meio trouxa para ver resoluções a tramas não finalizadas, mas o fã mais casual da sétima arte pode não ver muito sentido nisso. Se for o caso, tomara que tenhamos menos coreografias de ação com Reeves: não acho que o cara aguente outro baque desses.

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