Crítica | Fratura é uma surpresa que não empolga

Por Laísa Trojaike | 23 de Outubro de 2019 às 12h49
Netflix

Atenção! A crítica abaixo pode conter spoilers.

Quando o suspense consegue nos convencer de que há uma dúvida a ser esclarecida, é muito difícil que o espectador perca o interesse pela trama. O original Netflix Fratura traz Sam Worthington no centro de um enigma que se sustenta até o terceiro ato do filme e, apesar de pouco impactante, ainda consegue ser surpreendente. Com um clima que oscila entre drama perturbador de baixo orçamento e terror clichê, Fratura nos força a questionar as imagens a todo momento e mesmo as pistas que deveriam nos auxiliar são passíveis desse questionamento.

A ambiguidade climática do filme se justifica pela escolha de realizador e roteirista. O diretor Brad Anderson retorna ao subgênero mistério psicológico, que colocou seu nome em voga a partir do filme O Operário (2004), e imprime novamente a sua assinatura de uma fotografia em tons frios e com considerável contraste, que ele repetiu em outros títulos conhecidos da sua filmografia: Expresso Transiberiano (2008) e Chamada de Emergência (2013). Já o roteiro foi escrito por Alan B. McElroy, que tem em seu currículo uma porção significativa de sequências de gosto duvidoso e filmes de terror que devem seu pouco sucesso a um grupo considerável de pessoas que, como eu, apreciam um mau filme de terror.

Pistas

Ao assistir muitos filmes, sobretudo filmes genéricos que tendem a repetir os mesmos esquemas à exaustão, somos imediatamente capturados por alguns sinais como a senhora que cuida do posto de gasolina (Muriel Hogue), uma pessoa completamente estranha e ameaçadora sem nenhum motivo aparente, que levanta a suspeita de estar envolvida com qualquer mal futuro. O mesmo ocorre com quase todos os funcionários do hospital: eles parecem misteriosamente maus como vilões de filmes B sobre tráfico de órgãos, mas são apenas inocentes funcionários vistos através da visão distorcida de uma mente em trauma.

Por que és tão ranzinza, senhora? (Imagem: Netflix)

Apesar da justificativa de que tudo é visto através das interpretações insanas de Ray Monroe (Sam Worthington), as atuações conseguem ser unidimensionais o suficiente para remover dos personagens a possibilidade de dubiedade e somos facilmente guiados pela linha narrativa que parece revelar o hospital como um centro clandestino do mercado de órgãos.

A criação de uma expectativa somente para contrariá-la é a grande estratégia nesse roteiro. A inserção de elementos que conduzem o pensamento para um lugar completamente infrutífero, no entanto, soa como desonestidade com o espectador: se uma imagem é construída de tal modo a dar ênfase para um objeto ou se uma cena é concebida para indicar uma informação específica, o esperado é que essas pistas façam sentido ao final da história, mas muitos desses elementos se perdem ao longo de Fratura.

O balão aparece repetidas vezes e parece indicar mais do que apenas um objeto de desejo da criança (Imagem: Netflix)

Empatia

Apesar das atuações que nos forçam a crer na realidade alterada, Sam Worthington consegue transparecer a exaustão psi+cológica do personagem, que gira em torno de um misto de apatia e desespero. Ainda que não seja um ator capaz de muita expressividade, ele encontra em Ray um personagem compatível com sua atuação e entrega o que era suficiente: uma dor real que encontra na fantasia o melhor modo de lidar com um evento passado.

Infelizmente, uma atuação e direção suficientes podem não dar conta de um roteiro que dá indícios de querer nos deixar sem fôlego. A ideia cada vez mais intensa de que Ray está certo, de que o hospital rouba os órgãos dos pacientes, acaba esbarrando, ao final, em uma revelação de pouco impacto. A ideia de que um homem traumatizado rouba um paciente em plena cirurgia e enxerga nele a esposa e a filha, que na verdade estão mortas na mala do carro, é muito mais tensa que a transposição que Brad Anderson faz dessa ideia para a imagem cinematográfica. O filme todo parece estar conduzido sob influência de um mesmo ânimo, de modo que o ritmo é o mesmo do princípio ao fim e mesmo o clímax da trama parece prejudicado por uma visão que obriga a história toda a se nivelar em termos de emoções.

Uma atuação nada surpreendente (Imagem: Netflix)

Brad Anderson, portanto, priva o espectador de construir a trama na própria mente, optando por jogar com as nossas expectativas ao nos conduzir por uma série de pistas que não nos levam a alguma conclusão significativa. Há a entrega de uma história que pode até entreter o espectador, mas que é quase incapaz de lidar com a empatia, uma vez que o distanciamento é provocado pela própria direção, que não permite que sintamos a angústia de uma mente perturbada (o que é provocado também pela atuação suficiente de Sam Worthington, que não atinge um grau de comprometimento com o personagem como fez Christian Bale em O Operário).

Impacto visual

Apesar da fotografia característica, Brad Anderson é um diretor que tem dificuldade de causar impacto também na construção visual dos quadros. Além do ritmo que não se altera, o diretor desperdiça os elementos de cena que poderiam causar maior impacto no espectador: as paisagens de gelo, o amarelo da roupa de Peri Monroe (interpretada pela cativante Lucy Capri) e a ansiedade da sala de espera de um hospital são apenas alguns elementos que foram ignorados pelo diretor.

E esse cachorro nada ameaçador? (Imagem: Netflix)

O diretor demonstra, ainda, dificuldade em diferenciar a visão em primeira pessoa do personagem da visão que o espectador tem da cena. Isso fica claro em pelo menos dois momentos do filme:

No primeiro, Ray está preso em uma sala do hospital sob efeito de um sedativo, o que deixa a sua visão borrada e a percepção do mundo ao seu redor mais lenta. O recurso é simples e comum, mas funciona perfeitamente. Em contrapartida, quando ele injeta adrenalina no organismo, há uma clara discrepância entre como vemos o personagem e como ele vê o mundo ao seu redor. A câmera em primeira pessoa segue mostrando o ambiente borrado como anteriormente, embora o personagem seja mostrado para nós com seus movimentos acelerados e aparentemente caóticos, mesmo que o movimento de câmera não tenha se intensificado tanto quanto as atitudes do ator.

Outra sequência que denuncia o pouco conhecimento ou descaso do diretor com a linguagem é justamente o final, quando Ray retorna para o carro com o corpo roubado do hospital. Podendo distinguir realidade de fantasia ao separar as imagens reais das do reflexo do espelho, Brad Anderson mistura tudo e mostra o que quer, quando quer, de uma forma que parece mais improvisada do que planejada, o que ajuda a deixar as sequências cada vez menos impactantes.

Reflexo mostra ilusão de esposa e filha (Imagem: Netflix)

A sorte de Fratura é não ter um roteiro complexo, ou seja, todas as ações podem ser desenvolvidas sem exigir muito da equipe para que façam sentido, o que rende um filme mediano, um trabalho que parece não querer sair da zona de conforto.

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