Crítica | Eli é mais um terror que não deve sobreviver ao teste do tempo

Por Laísa Trojaike | 25 de Outubro de 2019 às 22h10
Netflix

São muitos os subgêneros de terror, mas dentre eles, é possível extrair um consenso: não há terror sem tensão e/ou ambientação. Isso, por sua vez, está diretamente ligado à capacidade do diretor de contar uma história. Eli, o terror original Netflix recentemente adicionado ao catálogo, tem uma proposta de narrativa amedrontadora, com direito a fantasmas e forças infernais, mas falha na execução de quase todos os elementos.

Ciarán Foy, que tem no currículo A Entidade 2 (2015), consegue criar momentos interessantes, mas falha ao ambientar as cenas ou ao preparar o público para os momentos de medo ou susto. Nesse sentido, é preciso que um diretor entenda que o público do gênero está sempre se renovando, o que significa saber que algo que causava medo em um tempo pode não causar medo algum em outra época. Foy, no entanto, contenta-se com a menção do mal e não emprega a linguagem adequada para imprimir no espectador os sentimentos necessários ao gênero.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Problemas demais para identificação

A empatia é fundamental para que possamos vivenciar o terror dos personagens, assim como é necessário que haja um mínimo de verossimilhança, ou seja, é preciso que as ações e os personagens façam sentido dentro do universo do filme. O processo de roteirização, por sua vez, não é apenas a escrita de uma história (ainda que algumas vezes possa ser) e, mesmo que haja muita liberdade, o roteiro precisa passar por diversas regras. Eli parece ter surgido do argumento de que Eli (nome do protagonista) também pode ser lido como “lie” (mentira em inglês) ou, se de cabeça para baixo, como “317”.

ELI / LIE (Imagem: Netflix)

O roteiro demora a explicar qual é a condição alérgica do personagem título, cria diálogos pouco críveis, estabelece contradições nas relações entre pais e filho, entre o próprio casal e entre os pais e a suposta doutora. A condição alérgica, inclusive, permanece inexplicada até o final. As atitudes dos personagens não encontram plausibilidade dentro do próprio desenrolar da história e todos parecem transitar de mocinho a vilão o tempo todo.

A condição de Eli já seria o suficiente para a inserção de elementos do subgênero body horror, vertente do terror que abusa de elementos gráficos para demonstrar estados de violação do corpo humano. Essa alergia, no entanto, além de não explicada, parece não encontrar espaço para causar agonia no espectador. Em seguida, Eli começa a explorar o terror de assombrações e é nesse momento que Ciarán Foy cria algumas imagens interessantes, como a lanterna que, ao passar por uma sala cujos móveis estão cobertos, revela a imagem de uma criança fantasma.

Por que o filho do demônio tem alergia ao ar? (Imagem: Netflix)

Ainda que garanta alguns sobressaltos realmente interessantes para o gênero, Eli não consegue construir uma ambientação de terror e isso se deve a elementos que vão além do roteiro: Charlie Shotwell, que foi incrível como Nai em Capitão Fantástico (de Matt Ross, 2016), parece, além de mau ator, uma criança sem carisma nas mãos de Foy; além disso, a direção de arte insiste em insinuar um terror clássico, de objetos antigos que são amedrontadores pela própria aparência, mas esbarra no contraste com equipamentos de tecnologia avançada, e mesmo o ambiente hospitalar não ganha a dimensão merecida para infligir algum sentimento no espectador.

Ainda além, os pequenos detalhes que poderiam passar despercebidos não passam, como o cateter de Eli que está sempre limpo e, mesmo quando desconectado do soro ou da medicação, não apresenta uma gota de sangue sequer. Aliás, o que eram aqueles pernilongos gigantes mesmo?

Pernilongos tão convenientes que parecem fadas (Imagem: Netflix))

De bom a mau

O desenvolvimento do personagem de Eli é compreensível: um menino doente que, atormentado pelos fantasmas dos meio-irmãos, descobre ser filho do próprio demônio e, com isso, entende o que são os poderes que acabou de revelar. Mesmo que a direção não consiga imprimir impacto algum nisso, ainda é um desenvolvimento bastante satisfatório.

O mesmo não pode ser dito dos coadjuvantes: a mãe (Kelly Reilly), que desde o princípio deveria ser consciente do que ela mesma pediu, parece oscilar entre o apoio ao filho e o apoio às freiras e ao marido. O pai (Max Martini) é uma caricatura de um homem que impõe sua vontade de forma grosseira e unidimensional para, ao final, revelar-se inocente e bom. A doutora e as enfermeiras, inicialmente apresentadas como vilãs, são transformadas, como que por mágica, em bravas guerreiras que lutam contra o mal dos filhos de Satã.

A maior surpresa negativa é também o elemento que deve atrair a maioria dos espectadores: a presença da personagem de Sadie Sink (a Max Mayfield da série Stranger Things), apesar de justificada, agrega pouco valor à narrativa e, ao final, quando se revela outra das filhas de Satã, perde por completo o tom ameaçador que possuía quando sua natureza ainda era uma incógnita.

Se Eli possuía potencial para ser um bom filme de terror, certamente foi na sua fase embrionária, enquanto argumento. Passado pelas mãos dos roteiristas e do diretor, Eli torna-se mais uma sopa rala, sem tempero e que só serve de alimento em tempos de necessidade extrema. E nós não estamos morrendo de fome.

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