Crítica | Corrente do Mal: o alerta que devemos ouvir

Por Laísa Trojaike | 13 de Agosto de 2019 às 11h15
California Filmes

Não é incomum que os filmes de terror se deixem permear por questões sexuais e muitas criaturas, como Hellraiser e vampiros, estão diretamente ligadas a esse assunto. Outras demonstrações mais discretas também não devem passar despercebidas: há uma espécie de fórmula que institui que, quando há um grupo de adolescentes ameaçados, geralmente os "promíscuos" são os primeiros a serem assassinados, e se alguém sobrevive, geralmente é o(a) mais “comportado(a)”, por vezes virgem, inclusive. O Alien é fálico, Regan MacNeil se masturba com um crucifixo e bruxas são mulheres geralmente muito resolvidas com seus corpos e com a sua sexualidade (o que muitas vezes é um tremendo pecado aos olhos da sociedade).

Nesse sentido, os filmes de terror podem ser conservadores ou não, o que dá uma grande abertura para que cada filme transmita uma mensagem ao seu público alvo, que normalmente é composto por adolescentes e jovens adultos (um dado mercadológico, mas que de forma alguma determina o que deve ser o público de uma obra). Quando um filme diz, portanto, que algo irá lhe marcar, lhe perseguir para o resto da sua vida e que isso pode ser passado para outra pessoa, há aí uma informação encapsulada: o alerta de Corrente do Mal (disponível no Telecine Play) é sério e merece atenção dos espectadores.

A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Ambientando

Dentre as diversas formas de lidar com a tensão em um roteiro, David Robert Mitchell (que também assina a direção) escolhe por revelar logo na primeira sequência o destino dos “amaldiçoados”. A câmera, situada no meio de uma rua, mostra um início de uma noite calma de outono em um subúrbio e inicia um panorama que mostra uma jovem que sai correndo de uma casa. Ela veste uma roupa branca (que geralmente concede a ideia de inocência aos personagens), mas a figurinista Kimberly Leitz é sutil ao escolher uma roupa que, pelo design e pelos tecidos, contradiz o branco virginal de muitos filmes de terror: se ela é inocente, é por uma questão moral, não sexual. Seu sapato, no entanto, é um scarpin vermelho, cor que, assim como na vida real, é (dentre outras coisas) uma cor de alerta também na ficção. Além de representar uma inocência maculada, o sapato ainda antecipa o final dessa personagem.

Atenção para os figurinos de Corrente do Mal (Imagem: California Filmes)

Conforme ela corre, a câmera segue um movimento circular que agrega informações a essa pessoa que corre e olha para trás: uma vizinha oferece ajuda, mas a jovem recusa; o pai dela aparece e descobrimos que ela estava fugindo da própria casa. Seu olhar sempre retorna para um ponto fixo, algo que somente ela está vendo. Ela então foge de carro e, no interior do veículo, as luzes são quase todas vermelhas. Sentada na areia e iluminada pelo farol do carro, as luzes traseiras do veículo dão a cor vermelha às árvores. Após uma conversa ao telefone, o fim. E é o sapato vermelho que nos ajuda a entender ainda mais rápido que há algo de muito errado na posição daquele corpo.

Metáfora

É após esse momento que finalmente conhecemos a protagonista Jay Height (Maika Monroe), cujos quarto, vestido e lingerie cor-de-rosa indicam seu estado de inocente interesse amoroso. Seu par romântico, no entanto, exibe a mensagem de alerta: camiseta e cueca vermelhas. O vermelho surge em diversos momentos do filme e está tanto na direção de arte (figurinos e cenário), quanto na fotografia (luzes, orgânicas ou não), quase sempre funcionando como uma forma de presságio.

As cores quase sempre têm algo a nos dizer (Imagem: California Filmes)

A sequência do segundo encontro, no qual o casal transa no carro, revela a metáfora do filme. Com os personagens estacionados em um local abandonado, o diretor teve grande liberdade criativa para mostrar o desenvolvimento das ações. O sexo é consensual e aparentemente prazeroso para ambos, mas o desfecho é inesperado: quando ela se dá conta, está amarrada em uma cadeira e descobre que agora também está amaldiçoada.

Jay está marcada, algo irá lhe perseguir pelo resto da sua vida e esse algo pode ser passado para outra pessoa... através do sexo. O paralelo é praticamente inevitável: a força sobrenatural é como uma DST (Doença Sexualmente Transmissível) que não tem cura. DSTs, da mesma forma, dependem, além de uma certa dose de azar, de falta de conhecimento e de confiança para se espalhar: Jay não sabia o que estava por vir e confiou em Hugh/Jeff (Jake Weary).

Elemento terror

Estabelecidos os personagens e construída a metáfora, o filme tem liberdade para construir os elementos de terror propriamente ditos. David Robert Mitchell cria um ser que caminha na direção de quem está contaminado sempre na mesma velocidade, o que permite que o próprio filme seja mais lento: aqui, cortes rápidos e urgência dão lugar a belíssimos movimentos de câmera e planos sequência.

Por outro lado, a ideia de que esse ser pode tomar a forma de qualquer pessoa, desconhecida ou conhecida, abre espaço para a inserção de pessoas com todo tipo de aparência: inofensiva, estranha, assustadora, familiar... Pode ser qualquer pessoa, em qualquer lugar e, quanto mais cheio o ambiente, mais difícil de notar quem ali não é normal, como demonstra a cena no qual Jay e Hugh/Jeff estão fazendo uma espécie de jogo no cinema. Isso demanda, inclusive, a atenção e observação aguçada do espectador, que é convidado a temer pelo personagem quando é capaz de descobrir quem é “a coisa” antes mesmo que o ameaçado a veja.

David Robert Mitchell consegue criar momentos de medo que nos pegam completamente desprevinidos (Imagem: California Filmes)

Um dos melhores exemplos disso é o excelente plano sequência de quando os amigos vão ao Colégio Lawson em busca de respostas sobre Hugh/Jeff: assim como na sequência de abertura, a câmera faz um movimento circular para a direita e um olhar atento poderá reparar que há uma mulher de calça jeans e jaqueta branca caminhando na grama em direção à câmera. Em seguida, no interior do colégio, vemos Jay e Greg Hannigan (Daniel Zovatto) entrando na escola e pedindo informações. O movimento de câmera volta a mostrar a área externa e vemos a mesma menina caminhando em linha reta. Quando Jay e Greg vão embora, há um corte e vemos eles dentro do carro, mas como o foco está neles, é difícil (mas não impossível) ver que a mancha disforme de uma pessoa se encaminha lentamente para o carro e, quando Greg liga o motor, o foco sutilmente muda e podemos ver a mesma pessoa que vimos antes. É tudo bastante sutil e é um daqueles momentos em que o personagem é alheio ao medo, enquanto nós, espectadores, sentimos a tensão por ele.

O roteiro de Corrente do Mal não apela em momento algum para tentativas mirabolantes de resolução do problema e, mesmo que haja a tentativa de passar adiante para se livrar da maldição, a principal resolução do grupo é ficar juntos. A amizade e o amor são capazes de tornar a vida suportável apesar das diversidades. Na ficção e na realidade, empatia e companheirismo são indispensáveis em qualquer jornada contra algum problema.

O trabalho de David Robert Mitchell é excepcional no que se refere à criação de um terror adolescente que foge de estereótipos e clichês do gênero e propõe um ritmo diferenciado que dificilmente se torna enfadonho. É uma pena que a direção de Mitchell não tenha uma recepção tão boa entre os espectadores como teve com a crítica especializada: estamos diante de um diretor que merece reconhecimento, mas que provavelmente ficará à margem das grandes bilheterias por algum tempo.

Corrente do Mal pode ser assistido pelos assinantes do Telecine Play.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.