Crítica | Círculo de Fogo – A Revolta de quem?

Por Sihan Felix | 26 de Março de 2018 às 12h48
photo_camera Divulgação/Universal Pictures

Antes de continuar, cuidado! Esta crítica contém spoilers!

Após assistir ao Círculo de Fogo: A Revolta, a comparação parece ser inevitável. Por que o roteiro do predecessor, tão padrão e com estereótipos tão comuns quanto os que desfilam nessa sequência parece ser de uma grandeza totalmente diferente? Por que o primeiro filme foi apontado, por várias listas nerds, como o melhor filme do ano e esse parece ser somente um blockbuster reciclado, desses que são facilmente deletados da memória após a subida dos créditos finais?

Talvez esse seja o maior trunfo de um diretor como Guillermo del Toro: transformar o comum, o simples, um filme formulaico e arrasa-quarteirão, em uma obra cheia de vida, de alma e que tem muito a dizer. Seu trabalho mais recente venceu, com justiça, o Oscar de Melhor Filme e tantos outros prêmios e, mesmo tendo recebido duras críticas de parte da imprensa cinematográfica quanto ao roteiro, foi, inclusive, indicado à estatueta de Melhor Roteiro Original. Contraditório, quem sabe, mas de um jeito que comprova sem arrodeios o poder de um bom diretor. Dito isso, A Forma da Água é tão bem dirigido e nas mesmas proporções quanto o filme-catástrofe mais fantástico do século XXI até o momento, O Impossível, de J.A. Bayona.

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O carisma e os Megazords

Assim como pode ser tão latente a mão do diretor na construção de um filme, pode ser quase que irrelevante a participação desse. Se no primeiro Círculo de Fogo é possível perceber, independente de gostar ou não do filme, que se trata de uma obra rica em atitude, em referências orgânicas e homenagens sinceras e apaixonadas, o em questão acaba por soterrar o seu antecedente do pior modo. Surgem, portanto, quase duas horas desprovidas de carisma ou emoções genuínas.

(Imagem: Universal Pictures)

É verdade, por outro lado, que a jovem Cailee Spaeny, que interpreta a superinteligente e prodígio Amara Namani, é tão carismática que pode roubar toda a atenção para ela em questão de frames. John Boyega, por sua vez, tem talento o suficiente para converter um personagem tão clichê e de reviravolta tão previsível quanto seu Jake Pentecost em algo palatável. E, de certa forma, o elenco não compromete mais o que poderia se configurar em um completo desastre. Isso comprova que o diretor Steven S. DeKnight, que foi o cabeça da primeira temporada de Demolidor, tem competência na direção de atores, faltando-lhe, então, uma ligação mais profunda com o material, o que acaba por tornar o resultado tão raso quanto um episódio comum de Power Rangers, mas com Megazords bem mais complexos.

Um navio cargueiro na cara da suspensão da descrença

A mudança completa do submundo visto no primeiro filme para o ambiente revitalizado de Círculo de Fogo: A Revolta é um componente inteligente que, ao mesmo tempo que clareia os 10 anos que se passaram entre as duas histórias (na cronologia delas), tenta dar um sopro de vida, uma revitalização, e, claro, procura uma fuga da área de domínio de Del Toro. Apesar de ser uma decisão acertada, o pano de fundo acaba sucumbindo ao uso do CGI, que fatalmente é bem mais perceptível em ambientes diurnos e iluminados. Dessa maneira, o conjunto acaba sendo afetado e as imagens computadorizadas constroem um ambiente não-crível – por mais que o próprio argumento seja literalmente de outro mundo.

Em comparação, é como ver um robô gigante pegando um grande navio cargueiro e arrebentando na cara de um monstro saído de um portal interdimensional do fundo de um oceano e achar muito mais plausível do que uma simples troca de socos entre personagens seres-humanos.

Ainda, o roteiro consegue dar boas escorregadas por mais que se tente comprar a história como real. É por isso que, enquanto os enormes Kaijus podem ser plausíveis naquele universo, a reentrada na atmosfera de um Jaeger pegando fogo para dar um supersoco em um monstro que acabara de realizar uma gloriosa fusão encerra qualquer crença. Não pela fusão do monstro, mas por se perceber que dentro do robô estão personagens humanos completamente desprovidos de proteção e que saem ilesos, mesmo com a falta de pressurização, com o ar rarefeito e com a viseira destruída do compartimento.

E a revolta é de quem afinal?

Com tantos contras e poucos prós, resta aos amantes das produções tokusatsu a lembrança de que tudo aquilo que admiram foi respeitado e bem idealizado há cinco anos por alguém que tem esse mundo dos monstros e robôs japoneses como referência e inspiração. Del Toro soube fazer de Círculo de Fogo um filme para guardar na memória. Está certo que DeKnight tinha uma tarefa das mais difíceis, pois conseguir dar um bom prosseguimento a um trabalho autoral não é exatamente justo.

(Imagem: Universal Pictures)

De qualquer jeito, é interessante assistir a Círculo de Fogo: A Revolta. Não pelo filme em si, mas porque pode ser muito mais divertido assistir a essas brigas colossais do que às lutas de uma noite de UFC. Se não é, então resta observar que a maior virtude de tudo o que é visto durante as já ditas quase duas horas é a pertinente evidenciação multiétnica do elenco.

E se, guardadas as proporções, DeKnight não conseguiu ser para Guillermo del Toro o que James Cameron ou Denis Villeneuve foram para Ridley Scott (em alusão às sequências de Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner, o Caçador de Andróides), ele também não maculou a obra original, fazendo com que o que se vê seja somente esquecível e facilmente dissociado da origem. O que é uma pena, porque, ao mesmo tempo em que o título nacional não se justifica claramente, nem mesmo o próprio filme tem o poder de causar revolta.

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