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Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível é um abraço quentinho na alma

Por Sihan Felix | 27 de Agosto de 2018 às 10h08
Disney/Buena Vista

É bonito ver o cinema respeitando a história, o público e a si mesmo. E é interessante demais perceber a inteligência de um cineasta ao adentrar em um universo infantil sem menosprezar a inteligência e a percepção das crianças enquanto, ao mesmo tempo, constrói uma história de muito bom gosto recheada de significados para adultos.

Marc Forster, diretor alemão responsável por Christopher Robin — Um Reencontro Inesquecível, é um profissional que demonstra compreender algo que vai além da técnica e da linguagem: suas escolhas são humanas, suas histórias, por mais que sejam impossíveis (como o apocalíptico Guerra Mundial Z), refletem um bocado do que é o ser humano e do quanto é imprescindível pensar nos mais jovens — vide a Rachel (Abigail Hargrove) do citado filme de apocalipse zumbi e as crianças forçadas a serem soldados em seu ótimo e pouco comentado Redenção.

Antes de seguir adiante, tome cuidado. Esta crítica pode conter spoilers!

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A empatia de ser igual através das diferenças

Não há nada de novo em Christopher Robin (o título original não é complementado por qualquer subtítulo). Desde a ideia de adaptar um personagem infantil a uma versão adulta à história clichê do pai que se entrega ao trabalho e deixa a família de lado — causando a tristeza de quem mais importa —, tudo é requentado e previsível. O mérito, então, está na abordagem de Forster, que abraça os lugares-comuns sem qualquer vergonha em prol do desenvolvimento da história e, ainda mais, dos personagens que importam de fato: o Ursinho Pooh (ou “somente Pooh”, como o próprio explica) e seus amigos.

(Imagem: Disney/Buena Vista)

O diretor é de tanta sensibilidade que consegue traçar paralelos ainda mais nítidos do que cada um representa. Através do roteiro bem escrito e claramente pensado com muito carinho e consciência (por Alex Ross Perry, Tom McCarthy e Allison Schroeder), Forster consegue inserir as representações criadas há quase um século por Alan Alexander Milne na atualidade, demonstrando o quanto se é igual apesar de tantas diferenças e o quanto se pode ser útil através da empatia. Nesse sentido, Forster já havia acertado a mão com Em Busca da Terra do Nunca, há 14 anos, voltando, agora, a realizar algo efetivo e cheio de compaixão para tantos públicos.

Um abraço quentinho

Se o transtorno de compulsão alimentar de Pooh e o seu déficit de atenção são retratados com profunda leveza, rendendo diversos momentos cômicos e humanizando o impossível personagem de pelúcia com muito mais camadas de personalidade — difícil até não associar a algum conhecido a cena em que ele olha pela janela do trem e fala tudo o que vê em voz alta —, a depressão de Ió (que felizmente assumiu em definitivo a fonética do seu nome original — Eeyore) é levada ao extremo: quando se vê o pequeno burrinho entregue passivamente ao próprio fim em direção a uma “cachoeira”, tem-se a percepção do pouco apego que aquela criatura tem pela existência. E é com muita delicadeza que a resolução da cena se dá, com um humor infantil (no melhor sentido), mas sem deixar que a reflexão passe batida.

Da mesma forma, a hipótese diagnóstica de Tigrão remete diretamente ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o muito comentado TDAH. Fica clara a hiperatividade dele ao estar sempre pulando, inquieto, imparável até em momentos de “cochilo” — a cena dentro de um táxi é fundamental para uma breve compreensão desse espectro. Mas é clara, também, a igual humanização do transtorno, como que conferindo a necessidade de união e o tratamento como iguais daqueles que sofrem por condições alheias à vontade própria.

(Imagem: Disney/Buena Vista)

Seja através da compulsão do Ursinho, da depressão de Ió, do TDAH de Tigrão, do transtorno de ansiedade de Leitão — que muito lembra a síndrome do pânico — (e isso citando somente os personagens mais desenvolvidos durante o filme), Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível é um abraço quentinho (parafraseando Pooh, que parafraseou Olaf de Frozen: Uma Aventura Congelante) na alma.

E, muitas vezes, um abraço sincero — mesmo sem ter poder de cura — pode fazer a dor, o desespero, um sintoma passageiro ou um sentimento indevido desaparecer ou, no mínimo, ser percebido de outras formas.

As luzes e sombras de Koenigswieser

É muito atrativa, ainda, a utilização das luzes e sombras pela direção de fotografia do austríaco Matthias Koenigswieser. Ao passo que a escuridão ou simples sombreamentos sempre tomam conta daqueles que estão possuídos por uma antipatia para com outros, as luzes constroem um território de segurança para os que precisam. Seja através de uma janela no quarto da pequena Madeline, seja através das ranhuras de um tronco onde os personagens se escondem de um temível “efalante”, ou até mesmo do contorno de silhueta dado a Christopher quando seu rosto está tomado pelo escuro, tudo parece muito bem pensado por Koenigswieser (quem puder comentar com a pronúncia fará este crítico que aqui escreve muito grato — Kênigvízer?).

(Imagem: Disney/Buena Vista)

Do mesmo modo, a luz dita o tom do Bosque dos 100 Acres. Enquanto abandonado por Christopher, o lugar parece morto, escuro. Quando trazido de volta à realidade da personagem de Ewan McGregor, tudo ganha vida: o verde fica mais verde, o sol parece tocar a tudo com mais vontade e até o som ganha o complemento de pássaros.

(Imagem: Disney/Buena Vista)

Nada pode ser mais bonito

Em um mundo no qual “somos todos iguais — e tão desiguais —, mas uns mais iguais que os outros” (citação adaptada da obra de George Orwell e cantada pelos Engenheiros do Hawaii na música Ninguém = Ninguém), sempre é bom ter contato com uma perspectiva que faz sorrir o coração. Ao ver uma minoria rica e dona de poder financeiro (a “Dinonha” Winslow no filme) sendo tratada como ridícula desde o princípio por menosprezar os subordinados e estes tomando à frente das questões e resolvendo o futuro através da empatia — com uma virada inclusive visual na pirâmide do capitalismo —, Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível inicia o fim dos seus 104 minutos com a maior competência do seu diretor: construir um filme que pode ser visto por crianças com naturalidade; um filme que é cheio de cenas realmente engraçadas (por mais que tenha um humor inglês pouco comum na comédia escrachada que é mais difundida por aqui) e de muita leveza; e que, ao mesmo tempo, permite que adultos leiam as entrelinhas e possam refletir sobre a vida, sobre aqueles que estão ao seu lado e, melhor ainda, voltem a ser, justamente, crianças.

E nada pode ser mais bonito em um filme dito infantil, para a família e com personagens tão cativantes.

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