Crítica | Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Por Laísa Trojaike | 22 de Agosto de 2019 às 11h58
Focus Features

Os filmes, em sua maioria, são autossuficientes para quem os vê no sentido de que o universo dessas obras entrega ao espectador todas as premissas necessárias para compreender a história ali desenvolvida. O processo de divulgação, lançamento e recepção crítica agregam valores diversos aos filmes e, em alguns casos, são capazes de transformar um título em um evento social.

O premiado Boy Erased: Uma Verdade Anulada, antes mesmo de poder ser apreciado pelos espectadores brasileiros, já havia tido uma repercussão bastante positiva e era amplamente aguardado até que a Universal Pictures anunciou que não haveria distribuição no Brasil por questões comerciais. Rumores sobre uma possível censura (direta ou indireta) foram levantados e o filme ficou com fama de “banido” e de polêmico por aqui. Na contracorrente, o canal Telecine exibiu Boy Erased: Uma Verdade Anulada no dia do orgulho LGBTI+ e, atualmente, o título faz parte do catálogo do Telecine Play.

Adaptado do livro autobiográfico de Garrard Conley e, portanto, baseado em acontecimentos reais, Boy Erased: Uma Verdade Anulada não é menos que incisivo. Joel Edgerton, que além de atuar no filme, assina o roteiro e a direção, teve o primoroso trabalho de não criar uma história maniqueísta.

A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Sensibilidade

Quando se tem em mãos um assunto delicado, é difícil dosar sensibilidade e racionalidade, correndo-se o risco de ser demasiado piegas ao priorizar o primeiro ou reducionista ao privilegiar o segundo. Joel Edgerton toca em muitas feridas ao falar de família, religião e sexualidade, mas faz isso com um equilíbrio que é fundamental ao desenvolvimento da trama. Isso porque o filme, sobretudo enquanto declaração política, não se propõe a definir o que é certo ou errado, sugerindo várias camadas interpretativas para cada situação.

A construção dos personagens é fundamental nesse sentido. Não há vilões, ou seja, não há ninguém essencialmente mau: são todos seres humanos divididos entre o ser e o dever. A ambiguidade de desejos dos personagens, além de ser parte central da trama, encontra nos atores uma possibilidade de exploração de suas mais diversas facetas. O elenco como um todo tem um desempenho arrebatador ao adicionar dubiedade às ações de seus personagens, inclusive daqueles que possuem pouquíssimo desenvolvimento.

Nicole Kidman é um dos maiores destaques do elenco (Imagem: Focus Features)

Diante disso, Joel Edgerton revela-se um diretor de grande sensibilidade ao criar cenas que transcendem a mera ilustração da história e causam no espectador a necessária sensação de que a chamada cura gay é uma verdadeira violência. Enquanto o roteiro apenas conta a história de Jared Eamons (Lucas Hedges) sem tomar partido, as imagens tornam-se as responsáveis pelo desconforto do espectador e denunciam que essa é uma história que visa denunciar uma prática que ainda acontece em diversos lugares dos EUA e do mundo.

Se uma ação executada em nome de Deus é emocionalmente tão chocante quanto uma ação violenta, então temos indício de que talvez essa ação religiosa seja uma violência. A sequência em que há uma intervenção com a família de Cameron (Britton Sear) é forte justamente porque revela que a violência emocional desse tipo de ação pode superar a violência física. Em câmera lenta, vemos Cameron humilhado, espancado diante de todos com uma Bíblia, que passa, inclusive, para as mãos de uma criança (sua irmã?): ela chora enquanto bate em Cameron e a violência, agora, atinge a todos. Diante de tamanha brutalidade, Jared vira de costas e se recusa a ver a cena.

Imagens fortes (Focus Features)

Por amor

Jared Eamons (Lucas Hedges) não tem a história mais triste possível e não precisamos ir longe para saber que muitas pessoas sofreram ou sofrem violências maiores (se é possível falar disso de forma qualitativa), como é o caso de Cameron, quem não tem um final feliz. A opção de contar uma história como a de Jared, no entanto, tem seu trunfo.

Nicole Kidman e Russell Crowe têm um desempenho mais do que digno de nota como Nancy e Marshall Eamons – e o trabalho do departamento de arte na construção estética dos personagens é apenas a cereja do bolo. O casal consegue transmitir a aterrorizante noção de que o amor pode ser extremamente prejudicial: ambos são pais amorosos, presentes e que pensam estar fazendo o melhor para o filho. O argumento dos pais, apesar de assustador, é falso, mas não é falho: Se ser gay é um desvio moral que afasta o meu filho da graça divina, farei o possível para que ele retorne ao caminho correto. Ignora-se, no entanto, que talvez não exista o que se entende por um caminho correto.

Dividida entre a crença e o amor (Focus Features)

Toda a violência sofrida por Jared tem justificativa no amor de seus pais e é justamente isso que coloca a “terapia de cura” em xeque. Uma história como a de Cameron poderia deslocar o foco da questão para problemas familiares, mas uma trajetória como a de Jared expõe com clareza os absurdos de uma terapia de cura gay e de uma religião cristã que se mostra pouco cristã de fato.

Assim como indica o pastor Marshall Eamons ao dizer que, para qualquer pergunta, há uma resposta na Bíblia, o filme demonstra que não é o texto bíblico ou a religião em si que são nocivas, mas sim a interpretação que é feita das mesmas. Interpretações, no entanto, podem gerar os mais diversos tipos de atrocidades. Nancy, movida pelo amor materno, é quem dá o primeiro sinal de um pensamento verdadeiramente cristão: a aceitação.

Poesia

Joel Edgerton faz o que parecia impossível: um filme assumidamente contra a cura gay que não depõe contra a família ou contra a religião. A ideia de que o mal pode surgir das melhores intenções é o que há de mais assustador nessa história. Contra isso, sua declaração mais incisiva: sobre a minha sexualidade decido eu e minha liberdade é essencial para isso.

Ao longo de Boy Erased: Uma Verdade Anulada, o desenvolvimento de Jared, que culminará nessa declaração, é ilustrado por uma imagem que se repete: uma mão que, fora do carro, brinca ao vento. Essa imagem pontua cada um dos três atos do filme e constrói um paralelo óbvio com a sua homossexualidade: o prazer de sentir o vento é natural, inocente, injustificado e sem causa, é um prazer que simplesmente existe.

Na primeira vez, Nancy o repreende e ele a obedece. Na segunda vez, ele a questiona sobre o real perigo desse prazer. Em ambas as imagens, é a mãe que está ao volante: a vida de Jared é conduzida por outra pessoa. A terceira vez que vemos Jared com a mão para fora do carro é a cena final do filme, mas antes disso vemos Nancy enviar uma notícia de que houve pelo menos um caso de uma pessoa que se feriu ao fazer isso, mas não importa: Jared, agora como motorista, abraça o prazer da sua liberdade, independente de qualquer risco que possa correr.

Coincidentemente, ciscos caem no meu olho sempre que vejo essa imagem (Focus Features)

Boy Erased: Uma Verdade Anulada pode ser assistido pelos assinantes do Telecine Play.

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