Crítica | Atentado ao Hotel Taj Mahal: a violência em um caminho sem volta

Por Sihan Felix | 09 de Julho de 2019 às 19h50
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Se me permitem, vou escrever um pouco em tom bem pessoal, cruzando inteiramente uma linha que procuro traçar na escrita de uma crítica. Isso porque, ao final de Atentado ao Hotel Taj Mahal, eu estava atordoado. Não sabia o que pensar, não sabia o que fazer. Minhas pernas tremiam, o coração estava acelerado. Eu estava processando tanto que não conseguia organizar as ideias. Respirei fundo e talvez tenha entendido o motivo: como eu costumo me entregar a qualquer filme e me permito uma conversa muito íntima com a obra, acabei me deixando sufocar pelo nível de imersão causado pela direção de Anthony Maras – que eu jamais diria ser um estreante em longas-metragens.

Há tantas questões possíveis de serem abordadas a partir desse filme que, confesso, sinto muito por não conseguir escrever completamente desafetado. E é uma afetação de dois gumes: de um lado, entendo a força e a consistência da proposta de Maras; de outro, fico a ponto de repudiar a mesma forma de abordar o material.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers!

Protagonismo complexo e antagonismo invisível

Atentado ao Hotel Taj Mahal é baseado em fatos e, em resumo, traz para o cinema a história de um ataque terrorista coordenado acontecido na capital financeira e maior cidade da Índia, Mumbai. Dito isso, é exatamente por ser um filme fundamentado em acontecimentos reais que tudo parece ser potencializado em dois opostos. A urgência por ser uma realidade permite, sozinha, que o filme chegue mais intenso aos espectadores (talvez de maneira inconsciente). É algo quase automático passar a se importar com muito mais ênfase quando se sabe da veracidade do que se vê.

Filmes como O Impossível (de J.A. Bayona, 2012), que utilizam de um desastre como elemento circunstancial e, a partir disso, acompanham um pequeno grupo de personagens, têm o roteiro escrito à procura da empatia, em como fazer o público se importar com aquelas pessoas. É um desastre natural (no caso do filme de Bayona), que se sabe do acontecimento, sabe-se da gravidade, mas que tem a história contada de forma inteiramente ficcional (auxiliado pelas atuações impecáveis de Naomi Watts, Ewan McGregor e de Tom Holland ainda adolescente).

Já o filme em questão parece não satisfeito em ser baseado em um episódio tão sangrento, ele busca imergir o espectador nas situações. Para isso, o texto do próprio diretor e de John Collee (corroteirista de Happy Feet: O Pinguim) descentraliza o protagonismo, cedendo praticamente o mesmo espaço para Arjun (Dev Patel), David (Armie Hammer), Zahra (Nazanin Boniadi), Sally (Tilda Cobham-Hervey), Oberoi (Anupam Kher) e Vasili (Jason Isaacs), transformando o lado bom em algo complexo demais para ter um rosto.

(Imagem: Imagem Filmes)

Ao mesmo tempo, o antagonismo, por si só, não tem nem mesmo forma à mostra. Ele é uma voz, que percorre e alimenta toda a perversidade praticada pelo grupo de terroristas. O vilão (por assim o ser) é alguém que distorce palavras e, com uma competência desvirtuada, consegue moldar mentes frágeis e em formação. Nesse sentido, pode ser perceptível o quanto os protagonistas falam e reforçam que os assassinos são garotos e o quanto, pouco a pouco, passa-se a conhecer as motivações deles. O mal oculto, desconhecido, age aqui como em um filme de terror. É ele quem mata (do planejamento às ordens), é ele quem provoca uma chacina e, mesmo assim, permanece invisível.

(Imagem: Imagem Filmes)

A complexidade de um lado e o direcionamento feito por alguém intocável do outro alimenta uma tensão contínua. É uma aflição que, já tão bem contida no roteiro, talvez não precisasse ser exponenciada pela direção. Maras, por essa lógica, fica a um passo do sadismo. Ao não se privar de mostrar o grafismo da violência – até mesmo da morte de figurantes e coadjuvantes –, ele (o diretor) opta por um caminho sem volta (desde o primeiro assassinato, de um garçom), um caminho que faz a violência chegar sem dó a quem assiste ao filme.

Essa abordagem faz com que Atentado ao Hotel Taj Mahal seja um filme perigoso, porque, enquanto procura a imersão do seu público por meio do grafismo, ele não deixa de relembrar que todo aquele ato aconteceu na vida real. Misturando cenas de arquivo (de 2008) às filmagens da ficção, a direção de Maras e a edição também do próprio diretor junto a Peter McNulty (de Lendas do Crime) têm um poder quase doentio, capaz de fazer as cenas fictícias serem sentidas como reais.

Cumplicidade

Ainda há espaço para discussões pontuais sobre o domínio exercido pela religião – quando má interpretada e má disseminada – e sobre a influência da mídia para a vida ou para a morte. Neste caso, assistir a um canal de televisão revelar sobre a fuga de dezenas de pessoas que permaneciam escondidas dentro do luxuoso hotel soa com um grau de ingenuidade e egocentrismo midiático que, na prática, a própria informação transforma-se em cúmplice das mortes que se seguem.

Além de tanto, a utilização dos terroristas como personagens principais de uma crítica social sobre o sistema de castas da Índia é fundamental para entender, igualmente, a divisão de classes e o grau de revolta que pode ser frustrar-se pela falta de oportunidades. Assim, se ficar impressionado com uma “máquina que leva a merda embora” parece ser um exagero, não é necessário ir a outro continente para encontrar situações semelhantes. Por outro lado, enquanto lá (sobretudo nas zonas rurais) o sistema de castas permanece ativo e fazendo com que você nasça, cresça e morra em um determinado grupo, aqui não há barreiras formais (ao menos não estas) que impeçam de nascer servo (do grupo dos sudras) e se tornar, por exemplo, letrado (do grupo dos brâmanes).

(Imagem: Imagem Filmes)

Como a vida consegue?

Eu, já chegando ao fim da crítica, ainda não sei se a força e a consistência de Atentado ao Hotel Taj Mahal são suficientes para me impedir de repudiar a abordagem tão pesada de uma tragédia movida por tantos fatores. Ao pensar em pessoas ainda mais sensíveis para imagens do que eu, imagino que não se trata de um filme de fácil aceitação. Meu pai, sem dúvida, desistiria do filme durante a primeira meia-hora. Já minha mãe, curiosa, assistiria até o fim e sairia pronta para debater, chocada e com sangue nos olhos.

Estamos diante de um filme capaz de gerar muitos questionamentos, muitas sensações; uma obra preparada para incomodar, para tirar da zona de conforto, mas, simultaneamente, para chocar com uma crueldade que quase ultrapassa o limite do aceitável. Isso tudo embalado em uma produção tão bem escrita e tão cheia de conteúdo que fica muito difícil desprezar.

(Imagem: Imagem Filmes)

Não sei se aplaudo de pé ou se viro as costas. Eu só quero celebrar por nunca ter passado por uma situação semelhante. O atentado em Mumbai não foi o primeiro e nem o último, há outros ao redor do planeta. Isso assusta. Por mais que eu não possa sentir o que sente alguém que passou por uma ocorrência do tipo, o filme parece consciente em tentar passar ao menos uma pequenina parte da sensação. E, de todo jeito, eu não sei se isso é por muita pretensão ou na busca por extrair o que o cinema tem de melhor.

(Imagem: Imagem Filmes)

No momento, eu só quero tentar entender como a vida consegue seguir após tanta brutalidade. E parar de tremer.

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