Crítica | Ameaça Profunda diverte sendo esquecível

Por Sihan Felix | 11 de Janeiro de 2020 às 15h30
Fox Film do Brasil

Às vezes, o momento de assistir a um filme influencia a experiência mais do que algumas das tentativas realizadas pela produção de tornar a ocasião positiva. Pessoalmente, tenho certeza que a percepção que tive de filmes como Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (de Steven Spielberg, 1993), Titanic (de James Cameron, 1997), A Origem (de Christopher Nolan, 2010) e Blade Runner 2049 (de Denis Villeneuve, 2017), assistindo-os em uma sala de cinema, teria sido bem diferente se a vivência desses filmes me fossem na televisão ou em telas menores. Isso, ainda, sem falar no som. E não estou comentando sobre ser melhor ou pior: a questão é sobre ser diferente.

É justamente na imersão proporcionada por uma sala de cinema – que, além de imagem e som diferenciados, ainda se vale por ser um local onde o público em geral não tem controle – que Ameaça Profunda ganha seu corpo. Logo, a impressão pode ser a de que o diretor Willian Eubank (do bom O Sinal: Frequência do Medo) sabia muito bem que caminho criativo precisava conceber para afastar o filme de uma nulidade completa.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

O terror e as piadas

Enquanto, inicialmente, Eubank apresenta Norah (Kristen Stewart) sem apelar para closes, mantendo sempre uma distância social, a primeira cena de ação quebra não somente a paz da protagonista, mas a forma de filmar. E ele (Eubank) não esconde essa transição, fomentando essa metamorfose estrutural a partir de explosões, de um uso do slow motion que parece celebrar o cinema de Guy Ritchie (de Aladdin) e de uma decisão difícil para a personagem de Stewart.

A partir desse ponto, Ameaça Profunda, torna-se um filme claustrofóbico: trajes pesados, oxigênio incerto e o perigo de morte sempre iminente exibidos por meio de um olhar muito próximo. Surgem os primeiros dos muitos closes, multiplicam-se planos detalhes – que, à medida que o filme avança, intensificam a sensação de aperto (além de legitimarem a tensão) – e o terror, assim, toma conta do filme de uma maneira competente.

Norah em close e em câmera lenta na transição. (Imagem: Fox Film do Brasil)

Por outro lado, pode ser irritante a utilização crescente da personagem de T.J. Miller como alívio cômico. Ao mesmo tempo em que praticamente tudo caminha pela construção de um universo pesaroso, as piadas quase imparáveis parecem invalidar a angústia. É uma quebra de tensão tão constante que acaba por, de algum modo, esvaziar o próprio gênero, deixando o trabalho de situar a urgência das situações para os jump scares – alguns bons inclusive, mas nunca suficientes para uma retomada do respeito que o filme, inicialmente, dava sinais de poder conquistar.

Fadado a morrer

De qualquer forma, toda essa tentativa de se ater ao filme em si pode ser sacrificada quando o roteiro de Brian Duffield e Adam Cozad procura fazer referências. O resultado, visto por esse ângulo, é uma espécie de colcha de retalhos de situações e cenas de outros filmes. Como se não bastasse a história semelhante à de Alien, o Oitavo Passageiro (de Ridley Scott, 1979) – inclusive com um monstrinho bebê que pode lembrar o Estoura-Peito (Chestbuster) do filme de Scott –, há inserções que demonstram uma falta de criatividade no mínimo sintomática de uma geração condenada a remakes e reboots.

O monstro maior atrás de um dos seus bebês (vide O Mundo Perdido: Jurassic Park – de Spielberg, 1997 – e a mamãe tiranossauro); Godzilla (de Roland Emmerich, 1998) com suas centenas de ovos prestes a eclodir – aqui, em uma cena até bem parecida, com os monstrinhos despertando; a protagonista que é praticamente engolida e atira de dentro para fora de quem a devorou (vide MIB: Homens de Preto – de Barry Sonnenfeld, 1997 – e o Agente K)...

Aliás, é tudo tão intimamente ligado à segunda metade dos anos 1990 que, se não fossem os efeitos de computação gráfica e a imagem digital, Ameaça Profunda passaria como um filme ruim e esquecível justamente em meio àqueles que ele procura homenagear (ou copiar mesmo).

Norah é a Tenente Ripley versão mignon. (Imagem: Fox Film do Brasil)

No final das contas, os 95 minutos podem passar razoavelmente bem se presenciados no cinema. Ajudado pelo desenho sonoro de David Farmer (de Vingadores: Ultimato e outros filmes do UCM) e Bob Kellough (de Liga da Justiça), o tempo de projeção passa rápido e consegue divertir. No meu caso, dei sorte de assistir em uma sala de cinema muito pequena que tem uma sonorização do ambiente bem interessante, o que deve ter ativado meu sensor claustrofóbico e potencializado a experiência.

É possível que em uma sala maior, com mais espaço para respirar, o trabalho de Eubank me afetasse muito menos. Desse jeito, fico imaginando que Ameaça Profunda está fadado a morrer logo após a saída dos cinemas... Talvez seja até engraçado assistir ao filme sem tanta imersão. De repente, tudo pode virar uma comédia de metáfora política sobre monstrinhos nas pelancas de um monstro gigante. Mas isso é esperar demais de um filme que diverte e, no fim, é esquecível.

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