Crítica | A Primeira Noite de Crime: buscando respostas

Crítica | A Primeira Noite de Crime: buscando respostas

Por Sihan Felix | 04 de Outubro de 2018 às 15h00
Universal Pictures

O teatro, para Aristóteles, possuía a capacidade de libertação. Era assistindo a paixões representadas que o ser humano conseguia se libertar delas. Essa espécie de purgação tinha o nome grego de kátharsis (catarse), que era justamente a denominação do sentimento provocado no público durante e após a representação de uma poesia/drama/música. Bem distante da Grécia Antiga, Nelson Rodrigues – o mais influente dramaturgo brasileiro –, utilizava-se da catarse para explorar tabus e moralidade.

Cuidado. Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers do filme!

Fundamentando a base

A Primeira Noite de Crime, assim como seus três antecessores, trilha esse conceito em algumas medidas: através dos personagens do filme, demonstrando a facilidade deles em aceitar cometer crimes por um valor politicamente irrisório; e parte para uma complicada exploração extrafilme, metalinguística, inserindo discussões sociais acertadas, mas extremamente delicadas para serem trabalhadas por quem tem pouca experiência na cadeira da direção.

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É verdade que Uma Noite de Crime (2013) já trazia, mesmo que timidamente, comentários sobre a política americana, algo que cresceu até o bom 12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição (2016). Mas A Primeira Noite de Crime, nitidamente impulsionado pelo crescimento da Blumhouse Productions (que, entre outros ótimos filmes, produziu o vencedor do Oscar 2018 de Melhor Roteiro, Corra!), aposta com força em uma pegada mais séria, em busca de fundamentar a base – visto que revela o princípio de tudo.

(Imagem: Universal Pictures)

Dessa forma, não há apenas criminosos ou grupos completamente anônimos. Há alguns definidos espalhados e outros até inteiramente expostos, como a Ku Klux Klan. Tentando abraçar tanta seriedade, o roteirista James DeMonaco (que dirigiu os três anteriores) acaba afastando a história do contexto original, o que poderia ser realmente excelente se os diálogos não soassem tão expositivos – há um momento em que a personagem de Marisa Tomei (quase irreconhecível como a Arquiteta, Dra. Updale) explica exatamente o que está sendo visto em tela (algo que só é louvável quando se trata de uma audiodescrição para deficientes visuais).

Limpeza social e étnica a mando da política supremacista

Em meio a uma abordagem diversa, uma exposição é um acerto incontestável de DeMonaco: além da tentativa bizarra de limpeza social ao liberar a criminalidade justamente na parte mais pobre de Nova York, incitando sua população a se autoflagelar, a chegada de grupos supremacistas (como a citada KKK) é uma evidência cruel de uma tentativa horrorosa de limpeza étnica. Se para a Dra. Updale estava tudo bem enquanto a expurgação era somente social, a coisa fica tensa quando descobre o arranjo para eliminar os negros – e isso não a torna uma mocinha, é apenas uma vilã desumana com uma camada a mais de complexidade moral.

(Imagem: Universal Pictures)

É dentro desse contexto ariano repulsivo que DeMonaco e o diretor Gerard McMurray criam aquela que talvez seja a cena mais icônica do filme: Em uma luta situada nas escadarias de um prédio, Dmitri (o ótimo Y'lan Noel), o herói (ou anti-herói) da história, estrangula um sujeito integrante de um grupo branco de extermínio. Esse estrangulamento é tão intenso, com McMurray optando por mostrar em close o rosto do estrangulado, que é clara a revolta do diretor (que é negro) para com os segregacionistas. Não é por menos: “A segregação legal nos Estados Unidos pode ter acabado há mais de 50 anos. Mas, em muitas partes do país, americanos de raças diferentes não são vizinhos, não frequentam as mesmas escolas, não compram nas mesmas lojas e nem sempre têm acesso aos mesmos serviços", escreveu o jornalista Rajini Vaidyanathan à BBC.

Mas a cena não é impactante somente pelo seu tom de justificável indignação. A construção de McMurray, desde o início da luta, em muito se assemelha a uma das melhores sequências de ação dos últimos anos, que faz parte do filme Atômica (2017), com Charlize Theron. Trata-se de um plano-sequência aparentemente sem cortes que fulmina no citado estrangulamento. Para completar, a equipe de arte do filme veste o sujeito esganado com uma máscara em referência à prática teatral (e que tomou as primeiras décadas do cinema) chamada de blackface – quando atores brancos pintavam o rosto de preto para representar afro-americanos, ridicularizando-os na maioria das vezes. No desfecho, Dmitri retira a máscara do morto, como que demonstrando que, agora, após muitas lutas, os negros podem respirar e ter seu lugar. E é uma pena que isso precise (e como precisa!) ser dito e redito em pleno século XXI (já no final da secunda década), ainda mais em meio a uma sociedade que se diz civilizada, mas, sem generalizar, não tem uma mínima noção de história e é cada vez menos empática.

O Cantor de Jazz (1927) (Imagem: Rojak Daily)

A Primeira Noite de Crime, assim, arrisca-se bastante em um território que não havia tocado ainda (não com tanta força). Apesar do roteiro muito irregular, demonstra que a franquia amadureceu. Talvez tenha sido tarde, visto que o anterior finaliza sem deixar muitos espaços para uma sequência e o em questão é um prelúdio (uma história que antecede). Talvez, também, pudesse ter sido muito melhor explorado se nas mãos de um diretor mais experiente, que soubesse dosar a seriedade em um filme que beira o surrealismo (será?).

Onde estão as perguntas do mundo?

A catarse, então, parece ser muito mais do próprio McMurray, que exercita a sua ira e, sabotado pelas fraquezas do roteiro, não consegue o efeito esperado. Assim, levando tudo muito a sério quando nem o próprio roteiro leva, ele desconfigura um filme que poderia ser muito sólido dentro do seu universo ao trazê-lo para o mundo real. O problema é que, no mundo real, se A Primeira Noite de Crime for, de fato, catártico, uma maioria esmagadora com a mente criminosa anda pelas ruas apenas aguardando a legalidade de muitas selvagerias. Há o que temer?

Felizmente, o desfecho da música de Kendrick Lamar, que soa junto aos créditos finais, traz alguma sensatez: “Eu não quero ser meu próprio destruidor. Os males de Lúcifer estiveram à minha volta, então eu fui correndo buscar respostas” (em tradução livre).

Nada melhor do que buscar respostas em um mundo que parece não ter perguntas.

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