Crítica | A Lavanderia seria melhor como uma série, mas o elenco salva o filme

Por Rui Maciel | 24 de Outubro de 2019 às 12h09
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Filmes baseados nos últimos escândalos financeiros têm aparecido aos montes. Podem ser pequenas obras-primas como Margin Call - O Dia Antes do Fim e A Grande Aposta, que explicam de formas diferentes a crise econômica de 2008, com a quase quebra do sistema financeiro dos EUA, cujos bancos vendiam uma série de investimentos fraudulentos baseados em hipotecas que nunca seriam pagas. Ou podem ser longas como Grande Demais para Quebrar, que explica a mesma crise, mas torna o tema um tanto quanto teatral e, dessa forma, esquecível assim que os créditos sobem. Mas A Lavanderia, que estreou na última sexta-feira (18) na Netflix, se encaixa no meio termo: não é um filme fraco como Grande Demais..., mas também não chega ao patamar dos maiores do gênero.

Na verdade, A Lavanderia funcionaria melhor se fosse desenvolvido como uma série. O filme é inspirado no chamado Panama Papers, um vazamento de proporções gigantescas ocorrido em 2016, cujos dados sigilosos mostraram como um escritório de advocacia no Panamá dava respaldo legal para criar dezenas de milhares de empresas, onde muitas delas eram usadas para evasão fiscal e lavagem de dinheiro.

Dirigido por Steven Soderbergh (da trilogia Onze Homens e um Segredo e o espetacular Contágio, entre outros), o longa se propõe a explicar de forma didática como o esquema fraudulento funcionou. Para isso, ele quebra a quarta parede e coloca os dois advogados (Gary Oldman e Antonio Banderas, ótimos), cujo escritório está no centro do escândalo, para falar com o espectador, mostrando como o sistema funcionava. Essas explicações aparecem entre a trama principal — onde uma viúva (Meryl Streep) perde o marido em um acidente de barco e descobre que o dinheiro da indenização pode não ser liberado por causa da fraude — e as subtramas, que explicam outros prolongamentos do escândalo.

Meryl Streep: ela manda bem até como Batman / Crédito: Netflix (divulgação)

E é por causa dessa estratégia de usar uma história principal e outras subtramas que podemos dizer que A Lavanderia funcionaria melhor se fosse uma série (ou mesmo uma minissérie). Isso porque o diretor tenta condensar tudo em pouco mais de uma hora e meia de filme e acaba se aprofundando pouco nas histórias, que seriam mais empolgantes se tivessem mais tempo de tela. Além disso, no formato de série, seria possível contar outros casos envolvendo o Panama Papers, como a participação da Odebrecht no escândalo, que só é divulgada no final do longa.

Com esse tempo limitado, não só falta profundidade às histórias, como obriga Soderbergh a achar uma solução fácil para mostrar o destino dos personagens. E isso acaba prejudicando o clímax do filme, que acaba sendo morno.

Mas se a trama se ressente de mais tempo para ser contada, o filme se salva pela excelente escolha de elenco — um ponto forte de todos os filmes de Soderbergh. Meryl Streep — que, como diz uma velha piada na internet, funcionaria muito bem até mesmo como Batman — entrega a boa atuação de sempre, que, se não é sensacional, corresponde às expectativas. Nonso Anozie também se destaca como o chefe de família que mete medo e tem a melhor amiga da filha como amante. Sem contar que a dupla David Schwimmer (o eterno Ross Geller, de Friends) e Robert Patrick (o T-1000 de Exterminador do Futuro 2) funcionaria muito bem em um capítulo à parte como os donos da empresa de barcos que foram enganados pelo seguro. Ou Jeffrey Wright, um dos envolvidos no esquema, que precisa se equilibrar entre a picaretagem nos negócios e sustentar duas famílias que, evidentemente, não sabem da existência uma da outra. Ah sim, não vamos esquecer do banqueiro inglês (Matthias Schoenaerts) que tenta chantagear a esposa (Rosalind Chao) de um alto político chinês.

Nonso Anozie: o chefe de família rico, infiel e sangue frio / Crédito: Netflix (divulgação)

Mas é a dupla formada por Gary Oldman e Antonio Banderas que rouba a cena. Como advogados que armaram todo o esquema, eles conseguem empregar um sarcasmo genuíno na hora de explicar como funciona todo o sistema formado por crédito suspeito, evasão de impostos, juros, contas off-shore, sonegação e lavagem de dinheiro. Tudo mastigadinho para que até o mais leigo dos espectadores entenda e embalado por roupas espalhafatosas e boas piadas — sobra até para o diretor e o roteirista do filme.

Gary Oldman e Antonio Banderas: os advogados que armaram o Panama Papers roubam a cena / Crédito: Netflix (divulgação)

Enfim, de modo geral, A Lavanderia funciona de forma satisfatória para ilustrar um escândalo financeiro que prejudicou muita gente e expôs como governos — principalmente o dos EUA — fingem que não veem como os milionários e bilionários fazem para escapar dos pesados impostos de seus países. Além disso, é possível que o caso passasse batido pela maioria da população, uma vez que ele não teve impacto global, como foi o caso da quebradeira de 2008.

No entanto, Steven Soderbergh pode — e tem potencial — para fazer melhor. E cabe à Netflix exigir isso de seus artistas. Afinal, é ela quem está pagando a conta — que já é alta.

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