Crítica | 37 Segundos quebra expectativas com extrema sensibilidade

Por Laísa Trojaike | 21 de Fevereiro de 2020 às 19h40
Netflix

Alguns assuntos são delicados demais, mas como competem a alguma minoria, a tendência é que o assunto seja ignorado e, sempre que algo importante não recebe a devida atenção, há a possibilidade de que coisas muito ruins aconteçam com essas minorias. Capacitismo é o preconceito desenvolvido com relação a pessoas com alguma deficiência. Esquece-se, frequentemente, que, antes de serem enquadrados socialmente como “deficientes”, essas pessoas são... pessoas e, como tais, têm os mesmos anseios que qualquer outro ser humano.

37 Segundos é o primeiro longa de Hikari, diretora japonesa que já havia demonstrado sua sensibilidade em diversos curtas, como o premiado Tsuyako (2011), sensibilidade esta que é essencial para trabalhar assuntos como família, liberdade, inclusão e sexualidade.

Muito além de um roteiro que toca em temas delicados com extremo cuidado e responsabilidade, 37 Segundos tem uma direção cujas imagens falam muito mais do que os diálogos. Ainda que Yuma Takada (Mei Kayama) tenha sempre as palavras certas, é o modo como cada minuto é trabalhado pelas imagens (que incluem os excelentes trabalhos dos departamentos de fotografia e arte) que transforma 37 Segundos em uma obra-prima dramática.

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

Autonomia

O primeiro ponto a ser trabalhado pelo roteiro é justamente a questão do capacitismo. Nem sequer conhecemos as personagens quando o filme introduz a relação da mãe com a filha: Yuma encontra a mãe na estação e juntas elas vão para casa, momento no qual ela passa a ser completamente exposta como incapaz de se cuidar sozinha, algo que posteriormente entendemos como uma atitude repleta de traumas e medos por parte da mãe, que, preocupada, não se vê capaz de emancipar a própria filha.

Imagem: Netflix

Como ainda não temos apego algum às personagens, porque ainda não as conhecemos, esse é o momento que a diretora utiliza para encurralar qualquer espectador propenso a sentir alguma espécie de preconceito e, mesmo que isso não aconteça, o incômodo é latente. Yuma é exposta em um momento absolutamente íntimo e o desconforto é claro na sua atuação (que em seguida é justificado pelo incômodo que a personagem sente com relação à sua vida).

A sequência seguinte quebra qualquer possível pré-conceito que tenhamos da Yuma: ela é uma excelente mangaká (criadora de quadrinhos japoneses), apesar de todas as suas limitações. Assim, Hikari cria uma personagem profunda e complexa em menos de dez minutos de filme e, ao adicionarmos a interpretação de Kayama a isso, tudo fica ainda mais rico, uma vez que a atriz tem a capacidade de transformar Yuma em uma mulher ao mesmo tempo vulnerável, sensível e extremamente forte.

Imagem: Netflix

A trajetória de Yuma não é de superação. Não se trata de um filme em que uma cadeirante luta contra suas limitações e, ao final, encontra a superação. Pelo contrário, ela é bastante ciente de suas limitações corporais. O que ela não sabe sobre si é o mesmo tipo de experiência que qualquer outra pessoa tem: descobrir quem é, o que gosta, como se relacionar, explorar a própria sexualidade, os limites... Tudo isso são limitações comuns a todos, descobertas que todos precisamos fazer em algum momento da vida.

Quebras de expectativa

A todo momento vemos Yuma passar por situações ruins em vários níveis: familiar, pessoal e profissional. Em cada um desses momentos esperamos um certo tipo de reação dela, mas a personagem é capaz de nos surpreender a cada momento.

Muitas vezes Yuma parece ser estranhamente ingênua, como se sua bondade fosse grande o suficiente para compreender as maldades do mundo, mas se assim fosse, a personagem seria rasa e talvez até mesmo um pouco clichê, como muitos filmes e materiais publicitários que focam em mostrar pessoas com algum tipo de deficiência como necessariamente boas. Yuma não é boa ou má, é um misto de sentimentos, porque é humana. E esse é o ponto que Hikari explora com maestria. Não se trata de fazer Yuma se destacar por sua pureza e bondade, mas sim de demonstrar que ela é uma pessoa apenas.

Imagem: Netflix

Os momentos nos quais poderíamos esperar uma reação negativa de Yuma e, ao contrário, vemos ela agindo com grande benevolência, não são romantizações da personagem, mas sim uma forma de mostrar que a opção por atitudes não agressivas e/ou negativas são uma excelente arma contra o preconceito, pelo menos em algumas situações. O ápice disso se dá no momento em que Yuma se despede da sua irmã, que opta por lhe dizer algumas coisas desnecessárias e que poderiam machucar muito os sentimentos de Yuma, mas ela opta por se aproximar da irmã e sua reação é tão inesperada e forte que a irmã simplesmente desaba em lágrimas.

Infelizmente, tudo isso tem um custo psicológico para Yuma, que chega a se imaginar como uma experiência alienígena ou, ainda pior, submete-se a experiências de encontros e prostituição que geram incômodo em qualquer espectador com um mínimo de empatia. Ainda que sejam experiências ruins, tudo isso está dentro do espectro de escolhas de uma pessoa que tem consciência de si e liberdade para experimentar.

Imagem: Netflix

A lição, aqui, não se restringe ao capacitismo, mas diz respeito à vida como um todo: mesmo as experiências ruins constroem quem nós somos hoje, porque, assim como já aprendemos com Divertida Mente, não só de alegria vivemos: a tristeza, a raiva e toda sorte de sentimentos negativos e situações ruins nos auxiliam no processo de crescimento.

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