Crítica | Godzilla 2 mostra que o raso também pode tirar o fôlego

Por Felipe Ribeiro | 29 de Maio de 2019 às 13h14
Warner

Desde suas versões clássicas, Godzilla nunca foi um primor de narrativa, porém poucas franquias conseguem ser tão honestas naquilo ao que se propõem a fazer. Em Godzilla 2: Rei dos Monstros, vemos uma película que tenta acrescentar alguns elementos interessantes ao enredo para enriquecer o produto, que agora faz parte do chamado MonsterVerse - que deve trazer, ainda, Godzilla vs King Kong.

Apesar de ser uma continuação direta de Godzilla (2014), o enredo toma um rumo completamente diferente, com novos personagens e pouquíssimos remanescentes. Por um lado, é bom para quem não assistiu ao primeiro filme, já que dá para ir direto para este sem o menor problema; por outro, para quem teve a chance de ver o reboot, as coisas ficarão um pouco confusas.

Com reviravoltas, diálogos e atitudes que nos fazem pensar e contextualizar com a nossa realidade, Godzilla 2 traz uma certa simplicidade que pode agradar e toda a destruição que você espera ao ver um filme cheio de titãs.

Para os mais críticos, Godzilla 2 pode ser um filme raso — e, de fato, ele é mesmo. Mas, quem foi que disse que a gente não pode perder o fôlego mesmo no raso?

Esta crítica pode conter spoilers de enredo. Cuidado!

Perdas podem te desconectar da realidade

A nossa vida pode ser marcada por diversos momentos, mas, certamente, são os ruins que nos trazem os maiores aprendizados. Era assim que parecia ter acontecido com Emma Russel (Vera Farmiga) após os acontecimentos de 2014, quando que ela, juntamente com Mark Russel (Kyle Chandler), perdeu o filho mais velho, irmão de Madison Russel (Millie Bobby Brown). Emma é uma das cientistas principais da Monarca, entidade que monitora a atividade dos titãs, mantendo-os presos, adormecidos ou congelados. Sabemos que, a essa altura, Godzilla (ou Gojira, para os mais íntimos) está vivo e perambulando por aí, mas sem representar qualquer ameaça para a humanidade. E aí, do nada, começam os problemas — tanto da história em si como da narrativa.

Imagem: Warner

Com pouquíssimas explicações, já somos apresentados a um equipamento chamado "ORCA", que nada mais é que um sonar para comunicação com os titãs. Esse aparelho é o que, aparentemente, permitiria um convívio pacífico entre os seres humanos e os monstros, e é o que ele demonstrava quando conhecemos o primeiro dos principais titãs da trama: Mothra.

Porém, o ORCA acabaria nas mãos erradas, estando agora sob a tutela do ecoterrorista britânico Jonah Allan (Charles Dance), que sequestra Emma e Madison juntamente com o aparelho. Ao se apossar do equipamento, Allan poderia realizar seu principal objetivo: fazer com que os seres humanos e os titãs convivessem e reconstruíssem o ecossistema terrestre, porém não sem antes haver uma limpeza. Quase como um Thanos, vilão da Marvel, só que restriro apenas ao planeta Terra.

É uma motivação um tanto quanto paradoxal, já que, em muitos momentos, o diretor Michael Dougherty (Superman: O Retorno) faz questão de impor diálogos em que a morte dos monstros era algo que não deveria acontecer, sobretudo quando temos o prazer de ver o sempre carismático Dr. Ishiro Serizawa (Ken Watanabe), "responsável" por ter trazido Gojira à tona e que tem uma relação bem particular com o animal. Ou seja, não devemos matar os titãs para evitar uma chacina coletiva iminente, mas podemos soltá-los e deixar que isso ocorra de maneira "natural"? Até aí, tudo estava bem corrido e raso, mas o que deu um pouco de "cor" à trama foi uma parceria inusitada de Allan. Tal qual na vida real, é difícil de entender ativistas — se é que dá para chamar Allan e sua "cúmplice" assim.

Godzilla parece mais poderoso que nunca, mas teve dificuldades/ Imagem: Warner

Em meio aos conflitos entre seus pais, Madison observa que ambos possuem motivações distintas para a resolução dos problemas. Mark não tem qualquer apreço pelos titãs e muito menos por Gojira, responsável direto pela morte de seu filho. Já Emma buscou em seu conhecimento e influência na Monarca uma maneira de evitar que novos conflitos ocorram — mesmo que tendo ideias, no mínimo, estranhas.

Mas, no fim das contas, tudo caminhará para uma parceria com Gojira em uma luta tão complicada quanto a perda do passado: enfrentar o rei dos titãs, o dragão de três cabeças Ghidorah, despertado por Jonah Allan para ajudar em seu objetivo. Nesse ponto, o enredo simples e raso aparece de maneira positiva, pois é isso o que queremos ao ver qualquer coisa em que Godzilla esteja inserido.

E é nesse embate de titãs que todas as motivações, ideologias e planos se perdem. O que é bom.

Ação e efeitos de tirar o fôlego

Se por um lado a narrativa é um tanto quanto vazia e controversa, o mesmo não se pode dizer daquilo que esperamos ao ver um filme da franquia Godzilla: ação e efeitos especiais. A perfeição dos monstros e do caos por eles instaurado é dos mais imersivos que já pudemos ver. Se com um monstrão a coisa já era tensa, imagina com vários deles se degladiando sem a menor cerimônia? Tudo parecia tão verossímil que a sensação de destruição faz a que vimos em Homem de Aço (2013) ser fichinha.

Tudo isso alimentado por um elenco muito homogêneo, com destaque para a própria Madison, que fez boas conexões dentro da trama, e Dr. Rick Stanton (Bradley Whitford ) e Sam Coleman (Thomas Middleditch), que funcionaram como alívio cômico dentro do filme.

Millie Bobby Brown vai bem demais como Madison Russel/ Imagem: Warner

Vida longa ao rei

Godzilla 2: Rei dos Monstros é raso em termos narrativos, mas cumpre seu objetivo. Não é cansativo, entretém e traz ação de tirar o fôlego. Com excelentes efeitos especiais e elenco homogêneo, o filme é um prato cheio para os fãs da franquia, que sabem exatamente o que esperar.

Godzilla 2: Rei dos Monstros entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 30 de maio. O Canaltech assistiu ao filme a convite da Warner.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.