Vida sintética | Equipe cria embriões humanos vivos em massa

Por Daniele Cavalcante | 16 de Setembro de 2019 às 19h00

Em 1931, o escritor inglês Aldous Huxley escrevia sua mais conhecida obra, a ficção distópica Admirável Mundo Novo. No livro, somos apresentados a uma sociedade onde todas as pessoas são geradas em laboratórios. A vida é sintética. Não existe mais a reprodução por meios “naturais”, ser mãe é algo ofensivo e todos os embriões fabricados são condicionados para que cada indivíduo viva em sua respectiva casta social sem almejar outra vida, até mesmo aqueles criados para serem apenas mão de obra.

E na semana passada, uma equipe de cientistas criou um dispositivo que pode produzir um grande número de “embrioides”, estruturas vivas que se assemelham a embriões humanos. Muitos pesquisadores receberam com entusiasmo o resultado publicado na revista Nature na última quarta-feira (11). Para a comunidade científica, este é um avanço importante para o estudo dos primeiros dias do desenvolvimento embrionário humano — mas também levanta sérias questões sobre os limites éticos na criação de uma linha de fabricação de vidas humanas "sintéticas".

A preocupação é válida. Essa não é a primeira equipe a desenvolver embrioides, e certamente não será a última. Essas criações são feitas através da indução de células-tronco humanas para formar estruturas encontradas em embriões humanos em seus estágios muito iniciais. Mas o quão semelhantes em relação aos embriões completos eles poderiam ser?

Acima, estruturas semelhantes a embriões humanos que foram sintetizadas a partir de células-tronco humanas; elas foram tingidas para ilustrar diferentes tipos de células. Abaixo, imagens dos "embrioides" no novo dispositivo que foi criado para produzi-los rapidamente em massa (Imagem: Yi Zheng/University of Michigan, Ann Arbor)

Jianping Fu, o professor de engenharia biomédica da Universidade de Michigan que liderou a pesquisa, chama esse passo de "um novo marco empolgante para essa área emergente". O termo chama a atenção para o enorme interesse dos especialistas nesse tipo de desenvolvimento. O novo trabalho de Fu impulsiona a pesquisa desta “área emergente”, criando um método que pode gerar rapidamente um número relativamente grande dos chamados embrioides.

Sem a pretensão de julgar o trabalho da equipe de Fu, cabem aqui muitas reflexões. Se a ficção científica tem um papel além de meramente prever as tecnologias que existirão algum dia, esse papel é o de nos alertar para os rumos que nossa sociedade por tomar dependendo de como utilizamos — ou como permitimos que alguém utilize — esses avanços. Admirável Mundo Novo sempre nos serviu para refletir sobre o controle em massa, sobre a ausência da empatia, entre outros temas que discutem o próprio conceito de “humanidade”. Mas, hoje, as novas pesquisas com células-tronco e ferramentas como a CRISPR nos levam cada vez mais a pensar, também, quais rumos a nossa sociedade se permitirá seguir quando se trata de vida sintética.

Para Fu, sua nova técnica deve aumentar significativamente a capacidade dos cientistas de estudar o desenvolvimento inicial do ser humano, que corresponde às primeiras semanas após a fecundação do óvulo. É que uma antiga diretriz impede os cientistas de realizar pesquisas em embriões em seus laboratórios além dos 14 dias de desenvolvimento. Acontece que no 14º dia, o sistema neurológico do embrião começa a se desenvolver e é discutível se, a partir desse ponto, é possível manter um embrião fora do útero materno, já que a fase é considerada o início da vida. Se após esse estágio o embrião continuar se desenvolvendo em laboratório, qual é, afinal, o limite para a concepção e criação de um ser humano por vias artificiais?

O novo dispositivo da equipe da Universidade de Michigan permite que os cientistas produzam rapidamente um grande número de estruturas "semelhantes a embriões". As células-tronco humanas são primeiro colocadas no dispositivo; depois, produtos químicos são adicionados aos espaços adjacentes, e estimulam as células a desenvolver estruturas-chave dos embriões humanos. (Imagem: Yi Zheng/University of Michigan, Ann Arbor)

Fu espera que a capacidade de produzir um grande número de embriões que não estão sujeitos à diretriz de 14 dias possa fornecer aos cientistas novas descobertas sobre questões de saúde, como meios de evitar defeitos congênitos e abortos espontâneos, por exemplo. "Essa pesquisa pode levar a muitas coisas boas", diz ele. Outros cientistas concordam, como é o caso de Ali Brivanlou, embriologista da Universidade Rockefeller em Nova York. "Estamos abrindo portas para aspectos do desenvolvimento que nunca vimos antes. Esse conhecimento é realmente o Santo Graal da embriologia humana", diz ele.

Mas, parafraseando um famoso herói que também é dedicado à ciência, com grandes avanços, há grandes responsabilidades. Cientistas e bioeticistas alertam que a pesquisa de Fu levanta questões sensíveis. "Essa equipe precisa ter muito cuidado para não modelar todos os aspectos do embrião humano em desenvolvimento, para que evitem a preocupação de que esse modelo de embrião possa um dia se tornar um bebê se você o colocar no útero", diz Insoo Hyun, bioeticista da Case Western Reserve University e da Harvard Medical School.

Fu compreende as preocupações. Por isso, ele criou propositalmente embrioides que não são modelos de embriões humanos completos. Eles apenas "se assemelham a uma parte do embrião humano — o núcleo do embrião humano inicial", diz. Faltam estruturas-chave, como os estágios iniciais da placenta e o "saco vitelino", que fornecem alimento aos embriões.

"Entendo que pode haver pessoas sensíveis quando você vê que é possível produzir massivamente estruturas embrionárias organizadas. As pessoas ficarão preocupadas. Entendo isso. Acho que estamos ultrapassando a fronteira", afirma o cientista. "Mas quero deixar 100% claro que não temos a intenção de tentar gerar uma estrutura sintética [que] pareça um embrião humano completo", garante. "Não temos intenção de fazer isso".

Infelizmente, a história nos mostra que nem sempre a decisão de como tecnologias sensíveis devem ser usadas está nas mãos dos cientistas mais bem-intencionados. Longe de querermos criar um sentimento de reação contra os avanços científicos — pois acreditamos nos benefícios que a pesquisa pode trazer — ou de especular sobre o futuro —isso deixamos para os escritores de ficção científica —, ainda precisamos, enquanto sociedade, estar sempre atentos caso limites sejam ultrapassados. Uma vez que isso acontecer, pode ser tarde demais.

Fonte: Com informações: NPR

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