Transumanismo e o uso da tecnologia para aprimorar a condição humana

Por Douglas Ciriaco | 16.09.2015 às 12:20 - atualizado em 30.09.2015 às 11:31

A vida humana é repleta de dúvidas, incertezas e indagações. De frases célebres que se tornaram clichês, como o clássico “de onde viemos e para onde vamos?”, até a incessante busca pela vida eterna e pela imunidade aos efeitos do tempo, nós, humanos, lutamos para permanecer enquanto espécie.

Encaixando essa perspectiva dentro do panorama atual da vida na Terra, com avanços tecnológicos convivendo com crises ambientais, sociais e econômicas, é quase impossível não pensar em um futuro no qual a tecnologia esteja cada vez mais presente, mais do que apenas em nossas casas: também em nossos corpos.

Uma corrente filosófica emergente chamada transumanismo, representada pelo símbolo H+, defende a aplicação da tecnologia avançada na superação dos limites impostos pela condição humana. Limitações intelectuais, físicas e psicológicas podem e devem, de acordo com os transumanistas, ser ultrapassadas com o apoio de biotecnologia, nanotecnologia e neurotecnologia.

Já pensou em implantes oculares capazes de incrementar a sua visão? Ou então microchips que, adicionados ao seu cérebro, permitem ampliar sua capacidade de memória? Ou, indo muito mais além, um conjunto de hardware mecânico que transforme você em ciborgue imortal? Os transumanistas respondem afirmativamente para todas estas questões.

Transumanismo

RoboCop é um dos ciborgues mais famosos da ficção (Foto: Divulgação/Orion Pictures)

Evolução direcionada

O termo transumanismo foi criado pelo biólogo britânico Julian Huxley, irmão do escritor Aldous Huxley, em 1957. Huxley definia este conceito como “homem continuando homem, mas transcendendo, ao perceber novas possibilidades de e para sua natureza humana".

Os ideais transumanistas se fundamentam, basicamente, em dois pilares, de acordo com filósofo brasileiro Gledinélio Silva Santos. O primeiro deles seria o combate ao envelhecimento e, em consequência disso, a morte; o segundo, é o que trata a simbiose entre orgânico e cibernético como o próximo passo da evolução humana.

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Releitura da obra de Michelangelo dá o tom da interação entre orgânico e cibernético (Foto: Reprodução/mountainvision.blogspot.com)

A tese de Santos vai ao encontro da teoria defendida pelo bioeticista Paul Root Wolpe, chamada de Três Ondas da Evolução. Para ele, após passarmos pelas fases darwinista (da seleção natural) e da civilização, as duas primeiras ondas evolutivas, a raça humana agora se vê agora diante da evolução direcionada, também chamada de evolução por design.

Neste ponto, seres humanos são capazes de modificar o próprio corpo, com a tecnologia tendo papel crucial na evolução muito mais do que a seleção natural. Manipulação genética em um primeiro momento e, mais recentemente, o uso de implantes mecânicos capazes de transformar seres humanos em ciborgues (cibernético + orgânico) são os expoentes desta fase evolutiva.

Uso racional e condição humana aprimorada

Sob o lema “não limite seus desafios, desafie os seus limites”, o site Humanity Plus (H+, símbolo do transumanismo) apresenta uma série de conteúdos relacionados ao tema. Há inclusive uma Declaração Transumanista, espécie de manifesto da Associação Transumanista Mundial (ATM), movimento criado em 1998.

O texto elenca oito tópicos que descrevem o movimento, fazendo forte apelo ao desenvolvimento tecnológico aplicado na superação dos limites humanos. “Nós acreditamos que o potencial humano ainda permanece majoritariamente incompreendido”, afirma um dos tópicos. “Há inúmeros possíveis cenários que nos levam à maravilhosa e valiosa condição humana aprimorada”, conclui.

O filósofo David Pearce, um dos autores da Declaração Transumanista e cofundador da ATM ao lado do também filósofo Nick Bostrom, defende que o transumanismo aplicado pode resultar na abolição do sofrimento humano. Ele expõe sua posição no manifesto “O Imperativo Hedonista”, escrito em 1995, e elenca cinco razões para isso em um artigo de 2011.

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Filme de 2013, "Elysium" apresentava biohackers e transumanos ao mundo (Foto: Divulgação/TriStar Pictures)

No texto chamado “As Cinco Razões Pelas Quais o Transumanismo é Capaz de Eliminar o Sofrimento”, ele exalta possibilidades como a de seres humanos escolherem quanta dor querem sentir, o quanto serão afetados por suas próprias emoções e o surgimento de dietas livres de sofrimento para vegetarianos e onívoros para fazer apologia ao transumanismo.

Em suma, Pearce reforça a ideia de que a tecnologia pode servir ao ser humano de forma ainda mais direta e racional. É como se os avanços da biotecnologia e da neurotecnologia pudessem servir de combustíveis à evolução, anulando (ou pelo menos amenizando) os efeitos do desgaste orgânico de nossa espécie.

A ideia se espalha

Nesta semana, o jornalista Jamie Bartlett escreveu um artigo do jornal britânico The Telegraph relatando a sua experiência de acompanhar o filósofo e escritor transumanista Zoltan Istvan em sua inusitada pré-campanha de candidato à presidência dos Estados Unidos. A bordo de um motor home chamado de “Ônibus da Imortalidade” (e que ironicamente tem o visual de um caixão), Istvan viaja pelo interior do país norte-americano para angariar adeptos à sua campanha.

Seu principal ponto é que a morte é apenas uma questão biológica, logo o governo dos Estados Unidos deve investir mais em pesquisas antienvelhecimento e, assim, um dia chegaríamos à imortalidade. Muitos veículos da imprensa estadunidense ficaram bem entusiasmados com a ideia de Istvan de colocar ciência, saúde e tecnologia em um mesmo pacote.

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Zoltan Istvan: o pré-candidato transumanista à presidência dos Estados Unidos (Foto: Reprodução/Zoltan Istvan)

A questão é que, independente dos resultados alcançados pelo pré-candidato, o tema passa a ganhar cada vez mais destaque na mídia.

Biohacking

Uma das vertentes mais ativas, digamos assim, do transumanismo é o chamado biochaking. Misturando biologia com ética hacker, os biohackers podem apresentar diferentes pontos de vista sobre ciborgues e a forma como isso deve ser alcançado. Contudo, eles comumente são adeptos da filosofia transumanista.

Eles podem variar entre “grinders”, os que desenvolvem implantes cibernéticos a fim de aprimorar suas capacidades, e biólogos que conduzem experimentos genéticos em laboratórios caseiros. Tudo sempre no melhor estilo da filosofia punk “faça você mesmo” (ou DIY, na sigla em inglês).

O ideal biopunk normalmente permeia todo esse campo, com pessoas realizando pesquisas de forma improvisada, garagens transformadas em laboratórios e até mesmo festivais que promovem tais ideais e realizam a implementação de chips de forma nada profissional.

casos bem famosos de biohackers, como o ciborgue Neil Harbisson, portador de acromatopsia (só enxerga em preto e branco). Ele resolveu implantar um sensor em seu próprio cérebro que, com o apoio de uma câmera, o torna capaz de interpretar variados tons de cor. Podemos citar ainda pessoas que inseriram ímãs em seus dedos e fones em seus ouvidos.

Outro exemplo interessante é o de Rob Spence (vídeo acima), que preencheu a sua cavidade ocular vazia com uma câmera de vídeo sem fio. Ela capta imagens e envia tudo para um pequeno dispositivo em tempo real (ainda não chegamos ao ponto de substituir um olho por câmera que envia tudo ao cérebro). Spence chegou a gravar um documentário sobre ciborgues chamado Deus Ex: The Eyeborg Project, capturando parte das imagens com a câmera de seu olho.

Em todo caso há uma boa explicação, por mais estranho que tudo isso possa aparecer. Contudo, há também aqueles casos que parecem ter saído de filmes bizarros de ficção científica. Exemplo disso é o caso do grupo de biohackers Science for the Masses, que injetou uma espécie de clorofila no olho de um de seus membros (foto abaixo) — o objetivo aqui era oferecer visão noturna à cobaia. O resultado, apesar da aparência bizarra, foi positivo.

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Biohacking nem sempre deixa você com um visual agradável. (Foto: Divulgação/Science for the Masses)

Ciborgues na prevenção de doenças

Na mesma linha, há ainda os ciborgues que tentam dar a seus corpos mecanismos para identificar problemas de saúde antes que eles se tornem evidentes. Por incrível que pareça, exemplos disso não faltam e as histórias estão espalhadas pela web.

Tim Cannon é um desses sujeitos. Ele dedica parte de seu tempo em busca de aprimoramentos para seu corpo por meio do implante de chips. Por algum tempo, ele levou um dispositivo por baixo da pele em seu antebraço cuja função era fornecer alguns dados biométricos (como a temperatura do corpo) diretamente para o seu tablet.

O aspecto visual da coisa era meio sinistro, afinal é como se um pequeno smartphone se sobressaísse da pele como um alien. Além disso, o gadget emitia sinais luminosos, o que tornava tudo com um aspecto ainda mais de literatura de ficção científica (veja tudo no vídeo abaixo).

Cannon faz parte do grupo Grindhouse Wetware, que se propõe a utilizar tecnologia open source para fornecer soluções acessíveis de biohacking. Ryan O'Shea, também membro do grupo, defende que estes implantes podem incrementar o monitoramento do corpo a fim de descobrir doenças antes que elas se manifestem de forma nociva.

“Atualmente, boa parte da medicina é reativa”, defende O'Shea em entrevista ao Mic. “Uma vez que você tenha um ataque do coração, você recebe tratamento para seu coração doente. Quando você tem uma doença, os médicos tentam abordá-la. O fato é que muitos desses problemas podem ser previstos e tratados antes de ser tarde demais”, garante.

Além disso, monitorar o gasto e o consumo de calorias em tempo real, emitir sugestões de exercícios e de alimentação em tempo real, sempre levando em conta as características específicas de seu corpo e de suas atividades (e sempre de forma precisa) também está no rol de objetivos dos biohackers.

O'Shea imagina uma situação em que “um alerta do seu telefone diz : 'Você queimou muitas calorias hoje e está quase em déficit. Sugiro que você coma antes da reunião das 16h, preferencialmente algo com bastante proteína”.

Pós-humano e Machina sapiens

O clima bioanarcopunk do transumanismo é, sem dúvida, um campo interessantíssimo para a literatura e para o cinema. Mas será que isso tem cabimento na vida real? Há quem duvide. Quando pensamos em nanochips alterando a nossa forma de interagir com o mundo, é impossível não levar em conta as questões éticas.

“O homem tenta encontrar nessa fabulosa vida futurista as soluções para seus problemas”, comenta o filósofo Gledinélio Silva Santos. “Entretanto, quando os interesses de uma superestrutura (política, econômica, industrial) ditam as regras, quais as garantias de que a vida e a liberdade dos indivíduos serão respeitadas sem que elas sejam corrompidas pelos interesses do Estado?”, problematiza.

Se por um lado o uso de partes mecânicas pode funcionar de forma cidadã, devolvendo funções motoras ou biológicas aos seres humanos, por outro, a prática pode ganhar contornos assustadores. O passo em direção a um ser biomecânico e pós-humano pode ser bem menos simples do que parece, assim como as suas consequências também podem fugir do controle.

Será que estaríamos longe de ver soldados com habilidades aprimoradas e apartados de sua sensibilidade humana, como no filme “Soldado Universal”? Será que a criação do Machina sapiens — a evolução ciborgue do Homo sapiens — traria mais benefícios do que riscos à raça humana?

Utopia ou distopia?

“Reconhecemos que a humanidade encara diversos riscos, especialmente a partir do mal uso de novas tecnologias”, defende a Declaração Transumanista. “Apesar de todo progresso representar uma mudança, nem toda mudança representa progresso”, ponderam os transumanistas.

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"Soldado Universal"(1992) mostra soldados transumanos insensíveis e sanguinolentos (Foto: Divulgação/TriStar Pictures)

Como em todo avanço ou ideologia, a aplicação da tecnologia a fim de incrementar a condição humana também pode sofrer consequências drásticas de sua mal aplicação. A energia nuclear, por exemplo, responsável por dizimar milhares de vidas em Hiroshima e Nagazaki, pode ser aplicada na cura e na prevenção do câncer.

Assim fica evidente que é equivocado defender que a biotecnologia, a nanotecnologia e a neurotecnologia são, a priori, boas ou más por essência. Como tudo o mais, elas são apenas ferramentas humanas — e, mais uma vez, é o fator humano que vai pendê-las para o uso em aplicações pacíficas ou abusivas.

O mito grego de Ícaro é um bom indicativo de como a imprudência humana em relação à tecnologia pode nos reservar um destino nada agradável. Será que o transumanismo vai nos levar a uma utopia de saúde plena ou a uma distopia sinistra e apocalíptica? É lógico que, ao menos em um primeiro momento, ninguém defende abertamente a ideia de se criar RoboCops pelo mundo. Contudo, a reflexão e a ponderação crítica sobre o tema podem, sem dúvida, ajudar a evitar futuras catástrofes.

Fontes: Gledinélio Silva Santos/Revista Pandora Brasil, David Pearce/Hedweb, Humanity Plus, Paul Root Wolpe/TED, João Lourenço de Araújo Fabiano/Revista Filosofia, Popular, Telegraph, Mic, Transhumanist Party