Quarentena em todo o mundo deixou a crosta terrestre mais "silenciosa"; entenda

Por Daniele Cavalcante | 03 de Abril de 2020 às 12h14
geralt / Pixabay

As medidas de isolamento social adotadas para conter o novo coronavírus (SARS-CoV-2) estão deixando a Terra mais silenciosa - ao menos para os “ouvidos” sensíveis dos sismógrafos. É que as atividades humanas, tais como a circulação de pessoas e carros pelas cidades, entre outras, geram vibrações que afetam as medições dos instrumentos sísmicos. Com a diminuição drástica da movimentação, menos ruído foi detectado.

Os movimentos sísmicos naturais ocorrem com distúrbios geológicos, como uma avalanche, erupção vulcânica ou até mesmo um impacto de meteoro, e não inaudíveis aos ouvidos humanos. Já as interferências que causamos nessas vibrações são chamadas de "ruídos sísmicos antropogênicos" - significa que são derivados de atividades humanas. Além de pessoas e carros nessa categoria, podemos citar as máquinas industriais e até shows de rock. Mas agora, tudo está mais silencioso.

Na Bélgica, por exemplo, os cientistas do Observatório Real, em Bruxelas, relatam uma redução de 30% nessa quantidade de ruído humano desde o início do isolamento social e quarentenas adotados no país. A Bélgica já soma quase 14 mil casos e 828 mortes, e adotou medidas como fechamento das escolas, bares e restaurantes e proibiu todas as viagens não essenciais até 19 de abril.

Outros cientistas ao redor do mundo também divulgaram as reduções, como é o caso do sismólogo Stephen Hicks, da Imperial College. Ele compartilhou dados da organização British Geological Survey que revelam uma redução da atividade sísmica no Reino Unido.

Também foi verificada uma queda radical na atividade sísmica medida em Los Angeles, nos Estados Unidos, e também em Paris, na França, e em Auckland, na Nova Zelândia. Reduções de ruído dessa magnitude geralmente ocorrem apenas por um breve momento, durante o Natal, de acordo com o sismólogo Thomas Lecocq do Observatório Real da Bélgica.

No entanto, nem todos os sismógrafos do mundo registrarão mudanças tão bruscas, de acordo com a geóloga americana Emily Wolin. É que a maioria desses instrumentos é instalada longe de cidades ou enterrada no chão, justamente para evitar as influências das atividades humanas.

Com esse “silêncio”, os cientistas agora conseguem leituras sísmicas da superfície tão claras quanto as que geralmente se obtêm quando esses mesmos instrumentos estão a 100 metros abaixo da superfície terrestre. Podemos comparar a mudança na rotina desses cientistas como se você estivesse tentando ouvir duas pessoas conversando e uma simplesmente parasse de falar.

Isso significa que as atividades sísmicas normais da Terra não foram alteradas (como tem sido divulgado erroneamente por aí). Apenas a interferência que causamos nas medições é que está bastante reduzida. Embora o preço pago para isso seja alto demais, isso está ajudando cientistas no monitoramento da atividade vulcânica e outros eventos sísmicos. Além disso, ter esses dados como meios de comparação com medições de outros períodos pode ser útil no futuro.

Se as paralisações continuarem nos próximos meses, os instrumentos de cidades em todo o mundo poderão ser mais eficientes na detecção de terremotos, por exemplo. A diminuição de ruído também pode ajudar sismólogos que usam vibrações naturais de fundo, como as de ondas do mar, usadas para sondar a crosta terrestre.

Fonte: Nature, Popular Mechanics

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