Quando a ciência da astronomia se separou da pseudociência da astrologia?

Por Patrícia Gnipper | 27 de Março de 2019 às 13h39
Anastasia Dulgier/Unsplash

Astrologia: das palavras gregas astron e logos, a pseudociência se baseia nas posições relativas dos corpos celestes para determinar informações sobre a personalidade dos indivíduos e as relações humanas. Astronomia: ciência que estuda corpos celestes e fenômenos que se originam fora da Terra, é uma das ciências mais antigas da humanidade. Ambas têm um passado em comum e, se a astrologia não existisse, a astronomia também não existiria.

Enquanto a astronomia busca entender a física do universo, a astrologia usa cálculos astronômicos com as posições dos corpos celestes em suas órbitas para correlacionar eventos cósmicos com eventos da humanidade. Na astronomia, é usado o método científico para investigar e explicar fenômenos do universo, enquanto a astrologia se baseia em misticismos e simbolismos para explicar coisas como personalidade das pessoas e suas tendências de comportamento. Ainda, a astrologia parte de um ponto de vista geocêntrico, em que a Terra está no centro de tudo o que acontece ao seu redor — coisa que a ciência da astronomia derrubou há muito tempo, com o universo sendo dinâmico e se expandindo de acordo com a teoria do Big Bang.

Então não, não estamos falando que a astrologia é válida — afinal, trata-se de uma pseudociência e não há qualquer comprovação de que suas análises e previsões tenham bases concretas. Contudo, é interessante observar que, justamente graças às antigas crendices de que as posições dos astros determinavam acontecimentos na Terra, a ciência da astronomia pôde emergir.

Durante muito tempo na história da humanidade, o financiamento da astrologia acabou apoiando as primeiras pesquisas astronômicas, ainda que, na época, o objetivo tenha sido aprimorar as previsões astrológicas. Reis e governantes poderosos costumavam empregar astrólogos na corte para ajudá-los a tomar decisões em seus reinos, o que acabou impulsionando o estudo da astronomia como consequência. Afinal, acreditava-se que entender a dinâmica dos astros significaria previsões astrológicas ainda mais acertadas e, portanto, mais poder para os reis. E essa união entre astrologia e astronomia durou por milhares de anos, quando ambas as áreas ainda eram duas faces da mesma moeda.

A ruptura entre a astrologia e a astronomia

(Imagem: PIRO4D/Pixabay)

Na Grécia Antiga, pensadores pré-socráticos como Anaximandro, Xenófanes, Anaximenes e Heráclides chegaram a especular sobre a natureza das estrelas e dos planetas até então conhecidos. Na época de Platão, foi criado o modelo cosmológico geocêntrico (que seria posteriormente aceito por Aristóteles), que durou até a época de Ptolomeu, que adicionou informações ao modelo para explicar coisas como o movimento retrógrado de Marte no céu.

Antes disso, os babilônios já estudavam as estrelas com o objetivo de prever a influência que os astros supostamente tinham sobre os acontecimentos na Terra. Tal estudo foi feito com tanta maestria que eles conseguiam seguir, com precisão, os caminhos dos planetas no céu com o passar dos dias e prever futuros eclipses da lua. E o impulsionador para esses estudos não era o conhecimento científico, mas sim a ânsia por previsões astrológicas precisas.

Já na Idade Média, os europeus começaram a traduzir textos científicos árabes para o latim, sendo que os primeiros textos que foram traduzidos eram tabelas com os movimentos e posições dos planetas, que eram usados para fazer previsões astrológicas. E a Igreja Católica, autoridade intelectual central da Europa medieval, acabou redefinindo a astrologia do passado, dizendo que ela não era determinista como se acreditava antes (ou seja, não determinava o curso de vida de um indivíduo a partir de seu nascimento de maneira imutável), mas sim apenas indicativa (o futuro poderia ser mudado de acordo com a vontade de Deus).

A ciência da astronomia começou a se independer gradualmente da pseudociência da astrologia somente ao longo do século XVII, conhecido como "A Idade da Razão", sendo que no século seguinte ambas as áreas já eram consideradas disciplinas completamente separadas. Alguns astrólogos profissionais foram os primeiros nomes que iniciaram, ainda que sem essa intenção, a separação entre astrologia e astronomia, e podemos destacar os nomes de Tycho Brahe e Johannes Kepler nessa missão. Esses astrólogos, por sinal, acreditavam genuinamente na influência das estrelas em relação aos acontecimentos humanos, e a reforma renascentista da astronomia — que acabaria levando à adoção do heliocentrismo — foi impulsionada por astrólogos-astrônomos como Kepler.

Johannes Kepler, figura-chave na revolução científica

Renomado astrólogo de sua época, Johannes Kepler nasceu em 1571 e morreu em 1630, atuando também como astrônomo e matemático. O alemão é considerado figura-chave na revolução científica do século XVII e suas contas eram pagas graças à elaboração de previsões astrológicas para os ricos e famosos — não podemos esquecer que, para ser um bom astrólogo em seu tempo, era preciso ter profundos conhecimentos dos astros e, portanto, ser um grande astrônomo.

Kepler formulou as três leis fundamentais da mecânica celeste (as Leis de Kepler), que foram posteriormente codificadas e reunidas com base em suas obras Astronomia Nova, Harmonices Mundi e Epítome da Astronomia de Copérnico, livros que também forneceram uma das bases para a elaboração da teoria da gravitação universal de Isaac Newton. Ainda, fez um trabalho fundamental no campo da óptica, inventando uma versão melhorada do telescópio refrator (que ficou conhecido como Telescópio de Kepler).

Religioso, Kepler incorporou sua fé em seu trabalho, motivado por uma convicção de que Deus havia criado o mundo de acordo com um plano perfeitamente elaborado, acessível a nós por meio da razão — ele chamava sua nova astronomia de "física celeste", por sinal.

Kepler atuou como assistente de Tycho Brahe no ano de 1600, abrindo o caminho para a década mais importante de sua carreira. Poucos anos antes, quando lançou a publicação Mysterium, o ambicioso Kepler planejou outros quatro livros (sobre aspectos estacionários do universo, sobre os planetas e seus movimentos, sobre a natureza física dos planetas e sobre a formação das características geográficas) e procurou a opinião de muitos outros astrônomos nessa empreitada. Entre eles, estava Reimarus Ursus, matemático imperial e inimigo número um de Tycho Brahe — nascido na Dinamarca, Brahe era dono de um observatório e esteve a serviço da realeza, sendo um dos representantes da ciência renascentista que estudou detalhadamente as fases da Lua e compilou muitos dados que, mais tarde, serviriam para que Kepler elaborasse as Leis de Kepler.

Ursus não respondeu Kepler diretamente, enquanto Brahe e Kepler começaram a trocar correspondências regularmente, que incluíam debates acalorados e críticas severas um ao outro. Contudo, iniciou-se ali uma relação intelectual, e Kepler sabia que, sem os dados significativamente mais precisos obtidos por Brahe em seu observatório, ele não conseguiria comprovar, ou refutar, muitas de suas ideias. Até que, no final de 1599, Brahe convidou Kepler para visitá-lo em Praga, o que aconteceu no início do ano seguinte.

Monumento em homenagem à dupla Tycho Brahe e Johannes Kepler em Praga, na República Checa (Foto: Flickr/Santiago Escuain)

No entanto, esse encontro não foi assim tão produtivo: Brahe vigiava de perto seus dados, não deixando Kepler colocar as mãos em suas observações. Meses depois, após uma discussão furiosa, Kepler decidiu ir embora. Em 1600, contudo, o protestante Kepler se recusou a se converter ao catolicismo e precisou sair da cidade de Graz com sua esposa e filhos, pois todos haviam sido banidos. De volta à Praga, acompanhado de sua família, Kepler então passou a ser financiado por Brahe, recebendo um salário para analisar observações planetárias.

Em 1601, Brahe morreu repentinamente, e então Kepler foi nomeado seu sucessor oficial como matemático imperial. Foi a partir daí, com a missão de completar o trabalho inacabado de Brahe, que Kepler pôde enfim colocar as mãos em todos os dados compilados por Brahe ao longo de suas observações, sendo que os 11 anos seguintes foram os mais produtivos de sua vida e os mais importantes de sua carreira.

Após a morte de Kepler, sua obra Epítome da Astronomia de Copérnico foi lida por uma vastidão de astrônomos em várias partes da Europa, sendo o principal veículo de difusão de suas ideias e sendo também usado como livro de ensino de astronomia em diversas instituições.

Johannes Kepler é considerado o último astrônomo do mundo ocidental a acreditar na astrologia, ganhando o apelido de "o astrólogo cético". Ainda, tentou conciliar a astrologia da época à visão heliocêntrica da astronomia e, nas palavras do historiador John North, "se ele não fosse um bom astrólogo, provavelmente teria falhado em produzir sua astronomia planetária".

E, bem, independentemente do quanto se "torça o nariz" para a astrologia que, em pleno ano de 2019, ainda é encarada por uma imensidão de pessoas como válida, é fato que esta pseudociência, lá atrás, ajudou a moldar muitas das maiores mentes da história, impulsionando os avanços da ciência da astronomia em uma época em que as crendices falavam mais alto do que a razão — e mentes como a de Kepler foram fundamentais para essa ruptura de conceitos.

Com informações de Ancient Origins e Forbidden Histories

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