Mistério de "sereia" mumificada do século 18 chega perto do fim

Mistério de "sereia" mumificada do século 18 chega perto do fim

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 10 de Março de 2022 às 19h10
Reprodução/The Asahi Shimbun

No Japão, uma equipe de pesquisadores está analisando os restos mortais do que seria uma sereia mumificada de quase 300 anos atrás. A suposta múmia estava guardada no templo Enjuin da cidade de Asakuchi, onde foi utilizada como um objeto de adoração. Conta-se que ela teria sido encontrada por um pescador japonês na costa do atual distrito de Kōchi entre os anos de 1736 e 1741.

No templo, o artefato era interpretado como um símbolo de boa saúde: o sacerdote-chefe do local, Kozen Kuida, afirmou ao jornal Asahi Shimbun que as orações dirigidas à sereia tinham o objetivo de ajudar a aliviar a pandemia do novo coronavírus, mesmo que apenas um pouco. Takafumi Kato, paleontólogo da Universidade de Ciência e Artes de Kurashiki, convenceu o templo a ceder os restos aos cientistas.

Métodos da análise

É evidente aos pesquisadores que a sereia mumificada é um construto feito a partir dos restos de pelo menos dois animais diferentes — provavelmente um orangotango e um salmão. No dia 2 de fevereiro deste ano, os pesquisadores a submeteram a uma tomografia computadorizada, além de terem extraído amostras de DNA para descobrir quais espécies foram combinadas na fabricação. Os resultados da pesquisa devem sair ainda em 2022.

A criatura tem origem folclórica na mitologia japonesa: podemos comparar a múmia a um Amabie, por exemplo, que seria um tipo de sereia com um bico no lugar da boca e três barbatanas, ou a Ningyo, uma espécie de peixe com cabeça humana. Após ser supostamente pescada, a sereia em questão foi vendida a uma família influente da região, mas a jornada até o templo Enjuin é desconhecida.

Outras farsas arqueológicas

Não é a primeira vez que criaturas marítimas fabricadas são encontradas ou investigadas por aí. Em 2012, pesquisadores da Universidade de Lincoln investigaram um artefato conhecido como Sereia de Buxton e descobriram tratar-se de um peixe preso a um torso montado em madeira e fios metálicos. É provável que a suposta sereia tenha vindo do Japão ou, pelo menos, do leste asiático na metade do século 19.

A mais conhecida das lendas de sereias mumificadas é a Sereia de Fiji, adquirida e exibida pelo showman e empresário americano P. T. Barnum no século 19. Na ocasião, o artefato, também criado por um pescador japonês, era propagandeado como uma linda criatura que combinava o corpo de uma mulher com o de um peixe, o que era bem distante da realidade, já que se tratava dos restos mumificados de um macaco costurado à cauda de um peixe.

A origem das múmias não é coincidência: acredita-se que esse tipo de farsa surgiu como uma tentativa de pescadores da época de complementar sua renda, vendendo sereias falsas a quem acreditasse nas lendas, incluindo turistas ocidentais curiosos.

Sereia de papel machê da mesma coleção à qual pertenceu a sereia de Fiji, propriedade de Moses Kimball (Imagem: Daderot/Peabody Museum)
Sereia de papel machê da mesma coleção à qual pertenceu a sereia de Fiji, propriedade de Moses Kimball (Imagem: Daderot/Peabody Museum)

Fonte: The Asahi Shimbun; Live Science; BBC

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