Hipótese sugere que linguagem moderna nasceu por conta de mutação genética

Por Wagner Wakka | 10 de Agosto de 2019 às 23h00
Wikipedia/Criative Commons

Uma nova hipótese pode mudar a forma como pesquisadores acreditam que o ser humano atingiu a capacidade moderna de linguagem. A nova proposta modifica a ideia de que o ser humano tenha atingido um tipo mais recente de comunicação não há 600 mil anos, como se imaginava, mas que isso aconteceu há 70 mil anos por conta de mutações genéticas.

A hipótese vigente é de que a o ser humano atingiu o que se chama de linguagem recursiva perto de 600 mil anos atrás. Isso engloba não somente a capacidade de se comunicar, mas toda uma criação de palavras e léxico gramatical. A hipótese mais aceita até então é a de que isso tenha acontecido próximo à linha evolutiva do Neanderthal, o que corresponde aos 600 mil anos atrás.

Ela tem comparação com nossos parentes símios. A teoria leva em conta que os chimpanzés têm entre 20 a 100 diferentes vocalizações próximas à fala. Por este motivo, a expectativa era de que a capacidade de criar tipos diferentes de vocalizações tivesse relação direta com o número de palavras, permitindo assim a linguagem moderna, já há 600 mil anos.

Contudo, havia um elo perdido aí. Somente artefatos como artes figurativas e construções de casas datados de 70 mil anos atrás é que refletem essa capacidade de linguagem. Ou seja, entre 600 mil e 70 mil anos, nenhum objeto encontrado por estudiosos sugere que houve avanço na linguagem, indicando um gap evolutivo aí.

A nova hipótese, então, tenta explicar isso. A ideia é proposta pelo neurocientista Dr. Andrey Vyshedskiy, da Universidade de Boston, e é chamada de Rômulo e Rêmulo. Aqui, ele sugere que uma mutação no córtex pré-frontal em um grupo crianças ao mesmo tempo poderia ter resultado em uma cascata de eventos que resultou na linguagem e imaginação modernas.

Ele baseia sua teoria em um conceito chamado de síntese pré-frontal (PFS, na sigla em inglês), que consiste na capacidade imaginativa e distintiva entre dois conceitos que de uma mesma construção gramatical, ou a capacidade de imaginar alguma coisa.

“Para entender a importância da PFS, considere duas sentenças: ‘um cachorro mordeu meu amigo’ e ‘meu amigo mordeu um cachorro’. É impossível distinguir a diferença de sentido usando as palavras e gramática sozinhas, já que as estruturas são idênticas nestas duas colocações. Entender as diferenças de significado e reconhecer a falta de sorte da primeira e o humor da segunda depende da habilidade do ouvinte em em justapor esses dois objetos: o cachorro e o amigo. Apenas depois que a síntese pré-frontal forma estas duas imagens no cérebro é que somos capazes de entender as diferenças”, explica o neurocientista.

Por este motivo, a linguagem moderna é chamada de recursiva, pois é não existe só na construção de palavras e exige recursos para um entendimento completo. O que o pesquisador percebeu é que crianças que não tenham sido ensinadas a pensar desta forma não são capazes de desenvolver isso sozinhas quando adultas. Ou seja, não seria possível um adulto adquira a PFS, nem passar isso a seus filhos, a não ser que uma criança tenha sofrido uma mutação que já permitiu a capacidade de fazer a PFS desde pequena.

Partindo da hipótese de que houve a mutação, tais crianças passaram a conversar entre si, inventaram elementos de linguagem, fizeram proposições que levaram para um pensamento voltado à PFS e passaram este conhecimento adiante.

A nova hipótese foi apresentada no periódico científico Research Ideas and Outcomes (RIO).

Fonte: Phys.org

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