Chegamos a Plutão: 10 fatos sobre o planeta-anão e a sonda New Horizons

Por Caio Carvalho | 14 de Julho de 2015 às 11h56
photo_camera Divulgação

Às 8h49 no horário de Brasília desta terça-feira (14), a humanidade alcançou o ponto mais distante já visitado no espaço através de uma sonda espacial não-tripulada construída aqui na Terra. Trata-se da New Horizons, nave construída pela NASA que chegou ao ponto mais próximo de Plutão.

Este não é apenas um marco na história da astronomia, mas também é o resultado de anos de estudos e pesquisas sobre o planeta-anão. Até então, dados sobre o corpo celeste eram desconhecidos e as únicas imagens disponíveis foram captadas por outros equipamentos terrestres e espaciais. Mesmo assim, foi difícil identificar características sobre a composição e a atmosfera do planeta e nem mesmo o poderoso telescópio Hubble conseguiu obter informações precisas.

O objetivo da New Horizons é coletar o máximo de dados possível sobre essa região ainda não explorada no nosso sistema solar para ajudar a entender a formação de Plutão e até dos outros planetas. Além disso, assim como aconteceu na chegada de outras sondas nesses locais, são esperadas grandes descobertas conforme a nave espacial registre fotografias em altíssima resolução.

Para compreender a importância dessa missão, separamos alguns fatos e curiosidades sobre a New Horizons e como ela representa o fim de um ciclo que começou no século passado, com a descoberta do planeta, e o início de outro, agora que estamos a "apenas" alguns quilômetros de distância da superfície de Plutão.

1. O dia 14 de julho é especial para a NASA

A chegada da New Horizons a Plutão nesta terça-feira (14) não foi escolhida em vão pela agência espacial dos EUA. Há exatos 50 anos, a entidade iniciava sua primeira missão não-tripulada interplanetária rumo a Marte, quando a sonda Mariner explorou o planeta vermelho em 14 de julho de 1965.

2. Plutão foi descoberto "por um acaso"

Clyde Tombaugh

Plutão foi descoberto em 1930 pelo astrônomo Clyde Tombaugh, que construiu seus próprios telescópios para observar o espaço. Embora morasse em uma fazenda simples na zona rural dos Estados Unidos, não demorou muito para que Tombaugh começasse a trabalhar no Observatório Lowell, mas pode-se dizer que seu trabalho era considerado cansativo: comparar fotos tiradas todas as noites no céu. Foi observando essas imagens que o norte-americano notou a presença de um ponto minúsculo de luz se movendo entre um dia e outro. Esse pontinho era Plutão.

O nome Plutão foi sugerido por uma menina de onze anos chamada Venetia Burney e faz referência ao deus romano do submundo, Plutão - é uma referência a um objeto escuro e gelado, assim como a atmosfera do planeta-anão. Em maio do mesmo ano, o corpo celeste foi reconhecido e oficializado com a nomenclatura escolhida por Venetia.

3. Plutão ainda era um planeta quando a New Horizons deixou a Terra

Com custo total avaliado em US$ 720 milhões, a espaçonave New Horizons foi lançada no topo do foguete Atlas, na Flórida, em 19 de janeiro de 2006. Naquela época, Plutão ainda era considerado um planeta, o nono na escala de todos os planetas do sistema solar reconhecidos pela NASA. Isso porque os cientistas não tinham tantas informações sobre o tamanho e a dimensão de Plutão.

As coisas mudaram em agosto do mesmo ano com a descoberta de Éris, um astro que parecia maior que Plutão, com características semelhantes, e que acabou por rebaixá-lo à categoria de planeta-anão. De acordo com a União Astronômica Internacional, Plutão não atendia aos três critérios principais para que um corpo estelar seja considerado um planeta: girar ao redor do Sol, ser redondo e ser o único em sua órbita. Como Éris e Plutão possuem outros corpos menores perto de si, a entidade optou por rebaixar o título do até então planeta.

Bom, mas as descobertas recentes da New Horizons podem mudar esse entendimento? Dificilmente. Acontece que o que fazia Plutão ser um planeta era justamente o fato de conhecermos pouco sobre ele. Agora que a espaçonave está mais perto do que nunca de Plutão, são poucas as chances da comunidade científica devolver sua condição de planeta.

4. A New Horizons

Na manhã desta terça-feira (14), a New Horizons atingiu o ponto mais perto de Plutão, a cerca de 12.500 km de sua superfície. Ela já iniciou um voo inédito de reconhecimento ao redor do planeta-anão, do qual fará uma volta completa em torno dele para registrar imagens mais nítidas do corpo e de suas cinco luas: Caronte, Nix, Hidra, Estige e Cérbero. Caronte, a maior lua de todas, também será estudada, já que a sonda também está "próxima" do satélite, a 29.000 km de distância.

É preciso lembrar que a espaçonave não vai pousar em Plutão, mas sim sobrevoá-lo para captar as fotografias. Todo esse processo já está pré-programado, mas o sinal com os comandos enviados aqui da Terra demora cerca de quatro horas e meia até chegar lá (e vice-versa). Depois que finalizar os primeiros registros, os dados coletados pela sonda só vão chegar aos cientistas terrestres quase um dia depois. Por exemplo, as primeiras imagens desta terça devem ser recebidas na madrugada de quarta-feira. Uma confirmação de tudo o que foi coletado será enviado à sonda ainda hoje.

Outro detalhe é que nos momentos exatos em que estiver coletando os dados, a espaçonave não-tripulada permanecerá em silêncio. Haverá esse contato posterior entre a NASA e a sonda só para saber se ela está "viva" e que conseguiu captar as informações, mas até isso ficar pronto ela ficará incomunicável. A espera vai valer a pena, já que as fotos tiradas terão resolução de 70 metros por pixel - o suficiente para identificar as principais características do planeta-anão.

Os astrônomos têm um cronograma de 16 meses até que todo o material obtido pela New Horizons chegue à Terra. Mas engana-se quem pensa que a missão se encerrará por aí: uma vez terminada em Plutão, os trabalhos da sonda espacial continuarão por uma região conhecida como Cinturão de Kuiper, onde a NASA espera fazer novas descobertas em outros planetas-anões.

5. Sem a ajuda de Júpiter, a viagem da New Horizons seria mais longa

O maior planeta do sistema solar deu uma mãozinha para que a New Horizons chegasse a Plutão mais rápido, em um trajeto de quase 5 bilhões de km de distância daqui da Terra. Em 2007, um ano depois de deixar a atmosfera terrestre, a sonda passou perto de Júpiter e usou a força gravitacional do planeta como uma espécie de estilingue para impulsioná-la e ganhar mais velocidade. De acordo com a NASA, se não houvesse esse "empurrão", o voo de reconhecimento de Plutão só começaria daqui a três anos.

6. A missão foi um sucesso, mas ainda corre riscos

Apesar de tudo ter ocorrido conforme os planos da agência espacial norte-americana, não estão descartados possíveis imprevistos. Um deles aconteceu no início deste mês, quando a New Horizons entrou inesperadamente em modo de segurança devido a uma falha momentânea que fez com que a Terra perdesse contato com a sonda. Agora, a preocupação dos cientistas é que a nave possa sofrer futuras colisões, seja sobre a superfície de Plutão ou mais adiante, quando explorar o Cinturão de Kuiper, mesmo que as chances de colidir sejam pequenas (1 para 10.000).

7. A New Horizons carrega itens curiosos (e importantes)

New Horizons

Do ponto de vista técnico, a sonda leva consigo sete instrumentos que irão ajudar na captação de imagens de Plutão e na transmissão desse conteúdo para a Terra. Contudo, a New Horizons também possui outros objetos interessantes - ou "descartáveis", como têm sido considerados por muitos. Um deles é um CD com o nome de mais de 400.000 pessoas que responderam ao pedido do projeto "Envie o seu nome a Plutão". O disco também armazena a imagem de todos esses usuários.

Outros itens inclusos na New Horizons são duas moedas de 25 centavos, sendo uma do estado da Flórida, de onde a sonda foi lançada, e outra do estado de Maryland, onde a sonda foi construída. Há ainda duas bandeiras dos Estados Unidos acopladas à sonda, um pedaço da espaçonave SpaceShip One e um selo postal de 1991 com uma ilustração artística de Plutão com a mensagem "Ainda Não Explorado".

E tem mais. A NASA fez uma homenagem a Clyde Tombaugh ao colocar na New Horizons um pequeno recipiente contendo parte das cinzas do astrônomo que descobriu Plutão, que também tinha o desejo que suas cinzas fossem mandadas até o planeta-anão. No compartimento está a frase: "Aqui encontra-se os restos mortais do norte-americano Clyde W. Tombaugh, o descobridor de Plutão e da 'terceira zona' do Sistema Solar. Filho de Adelle e Muron, marido de Patrícia, e pai de Annette e Alden, astrônomo, professor e amigo: Clyde W. Tombaugh".

8. A primeira grande descoberta: as cinco luas

Plutão

Plutão foi descoberto em 1930, mas sua maior lua, Caronte, só foi observada em 1978. Até então, pensava-se que ela era o único satélite natural daquele planeta. Ledo engano: em 2005, um ano antes da New Horizons deixar a Terra, foram identificadas as luas Nix e Hidra. Depois, conforme a sonda se afastava rumo a Plutão, outras duas foram descobertas, sendo elas Estige (2011) e Cérbero (2012), respectivamente a mais apagada e a menor.

Ainda falando sobre as luas de Plutão, duas delas possuem dois fatos bem interessantes. Caronte é apenas duas vezes menor que o planeta-anão e ambos giram na mesma velocidade e no mesmo padrão. Isso significa que, se você estiver em um determinado hemisfério de Plutão, nunca será possível observar sua lua maior. Já Nix tem um detalhe curioso: além de ter uma rotação aleatória, o satélite gira de forma quase que descontrolada. Ela também tem um formato bizarro que lembra uma batata.

9. A segunda grande descoberta: Plutão não é azul

Plutão

Bem diferente do Plutão retratado em fotos antigas e em séries e filmes de ficção científica, o corpo celeste não é azulado. Segundo imagens divulgadas pela NASA nas últimas semanas, Plutão tem um tom alaranjado com manchas mais escuras em marrom. Os cientistas acreditam que essa tonalidade é resultado de reações químicas do metano presente na superfície do planeta. Mas não se engane: embora a aparência seja em cores mais quentes, altas temperaturas passam longe de Plutão, que tem uma atmosfera congelante de -238º C.

10. A terceira grande descoberta: Plutão é maior do que se pensava

O último anúncio da NASA verificado pela New Horizons quebra um paradigma de anos. Plutão é um pouco maior do que imaginavam os cientistas, com um diâmetro de 2.370 km. Para efeito de comparação, esta é quase a mesma distância entre as cidades de São Paulo e Maceió. Por conta do tamanho, a densidade do planeta é menor, o que significa que o volume de gelo em seu interior pode ser ainda maior. A troposfera, camada mais baixa da atmosfera, também pode ser mais fina.

A descoberta também encerra as discussões sobre qual planeta-anão era maior: Plutão ou Éris. Este último, descoberto em 2005, foi um dos responsáveis pelo rebaixamento de Plutão à categoria de planeta-anão. Mas as diferenças são poucas: apenas 30 quilômetros de diâmetro fazem Plutão ser maior que seu vizinho.

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