Liderando equipes em épocas de home office e pandemia

Por Redação | 23 de Março de 2020 às 14h00

*Por Celson Hupfer, CEO da Connekt

Acostumar-se, mesmo que temporariamente, ao novo modelo de organização do trabalho que a pandemia do coronavírus está impondo a milhões de pessoas em todo o mundo, está gerando ansiedade e dúvidas especialmente em líderes. Como gerenciar times que não estão mais no nosso campo visual? Esta questão é ainda mais relevante quando se sabe que grande parte deles são pré-milenials, pouco afeitos às tecnologias da informação e da comunicação que vêm revolucionando o mundo há pelo menos 30 anos.

Penso que o conceito de liderança através do reconhecimento, que desenvolvi em minha tese de doutorado, pode trazer contribuições positivas para este momento. A minha argumentação, que retirei do conceito de Luta por Reconhecimento de Axel Honneth, importante filósofo alemão da atualidade, é de que a liderança deve se fundar sobre três pilares: a confiança, a igualdade e a liberdade. O reconhecimento, nestes termos, vale tanto para os liderados reconhecer o líder, como o inverso, o reconhecimento que o líder deve para seus liderados.

A confiança está relacionada a uma ideia de certeza de si mesmo e, consequentemente, certeza do outro. Traduzindo para os tempos de hoje, uma segurança de que as equipes e o próprio líder continuarão em sua jornada de lealdade entre si e de comprometimento com os propósitos do time.

Por seu lado, a igualdade, um conceito que é retirado da ideia de justiça, se refere ao desejo de todas as pessoas de receberem tratamento igualitário em termos de oportunidades, mas, ainda mais importante em momentos como o atual, igualdade de informações.

A ideia de liberdade no reconhecimento pode parecer contraditória quando confrontada ao desejo de igualdade, especialmente em épocas de polarização como a que vivemos hoje. Ela tem a ver com o conceito de solidariedade, com o tratar cada pessoa como única, igual em direitos e livre em escolhas e formas de viver. O momento exige atenção individualizada, a percepção de que as pessoas têm necessidades e reações diferentes à crise, o que requer solidariedade do líder para com seus liderados.

Mas como tudo isso se resolve na prática do home office? Como manter a confiança? Como garantir a percepção de justiça e igualdade mesmo distante? Abaixo seguem algumas recomendações práticas que me parecem fazer sentido e que obviamente não se esgotam.

- Mantenha uma rotina de reuniões virtuais com sua equipe, de preferência pela manhã ou pela tarde. O foco é perguntar a cada um o que fez durante o dia (ou no dia anterior), o que fará hoje (ou amanhã), o que pode o estar impedindo de fazer e como está se sentindo. Existem inúmeras ferramentas digitais para isto, desde um simples conference call via WhatsApp, até modelos de reuniões virtuais como o Teams, Skype ou Hangout;

- Procure manter o foco do time nos compromissos. Mesmo que estes estejam cada vez mais difíceis de ser realizados, especialmente para quem trabalha com vendas, é fundamental não perder o contato, não perder a rotina. Isto mantém a confiança das pessoas de que superaremos as dificuldades;

- As reuniões com a equipe devem ser aproveitadas para compartilhar informações, para que todos estejam sempre na mesma página. Todos devem ter a percepção de que estão sendo tratados igualmente em termos de informações, inclusive sobre as questões mais difíceis que as organizações podem enfrentar;

Por outro lado, situações críticas são grandes oportunidades também:

- Você poderá perceber que suas equipes planejam e executam muito bem com mais autonomia sobre sua vida, sobre como organizam o seu dia a dia, sobre as estratégias diante de dificuldades ou oportunidades;

- Novas líderes costumam se apresentar, com novas maneiras de liderar e de reconhecer e ser reconhecido;

- O momento pede compartilhamento, contribuição, discussão e abertura à crítica.

*Celson Hupfer é fundador e CEO da Connekt, plataforma inteligente de recrutamento digital. Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do conselho do mestrado profissional da Fundação Dom Cabral, é especialista em liderança. Formado em Economia pela USP, com curso em Psicanálise na Universidade Católica Sedes Sapientiae.

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