Ações da Ubisoft caem 8% após saída de executivos em meio a acusações de abusos

Por Rafael Arbulu | 14 de Julho de 2020 às 12h13
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A Ubisoft viu, nesta segunda-feira (13), o valor de suas ações caírem 8% na Bolsa de Valores em meio a diversas acusações de que a empresa vinha sendo, há anos, permissiva com suposto comportamento abusivo por parte de seus principais executivos. Durante o curso do último final de semana, três dos principais nomes da companhia renunciaram aos seus cargos após serem abertas investigações internas contra eles.

O nome mais proeminente é o de Serge Hascoët, que voluntariamente abandonou o cargo de COO (Chie Creative Officer) e está abrindo mão de qualquer relação com a Ubisoft. Segundo o jornalista Jason Schreier, da Bloomberg, Hascoët era a pessoa que poderia aprovar ou enterrar qualquer projeto de jogo que levasse a logomarca da publisher, tendo seu nome envolvido nos créditos da maior parte da franquia Assassin’s Creed e outros jogos, como Tom Clancy’s The Division e Ghost Recon.

AVISO DE GATILHO: o conteúdo que segue abaixo contém descrições de episódios de assédio moral e sexual, então entenderemos se você quiser pular essa parte e, para facilitar, condensamos as partes problemáticas entre as duas próximas imagens. Para fins de polidez de discurso, atenuamos o tom das aspas abaixo, mas, mesmo assim, caso não se sinta confortável com o que vem a seguir, recomendamos que role a tela até passar da segunda imagem.

Assassin's Creed Valhalla, o próximo jogo da franquia histórica da Ubisoft (Imagem: Divulgação/Ubisoft)

Hascoët é alvo de uma investigação interna que começou há meses graças a uma reportagem do Kotaku sobre a renúncia de Maxime Berland, cofundador do estúdio Ubisoft Toronto, em 3 de julho de 2020. Beland teria, em 2014, apertado o pescoço de uma mulher e colega de trabalho em uma confraternização da Ubisoft, além de ter feito "piadas" de cunho sexual direcionadas a outras mulheres no escritório e dado “carteiradas” para conseguir sexo oral. Além disso, constantemente ele incentivava a ingestão de álcool para embebedar mulheres.

Por causa das acusações, a Ubisoft moveu uma investigação interna - ainda corrente, vale citar - que eventualmente chegou a Hascoët. Foi descoberto que ele teria dito a colegas de trabalho, sobre uma vice-presidente não nomeada, que “essa ‘mal comida’ estava atrapalhando” a sua criatividade e que “alguém deveria abrir a mente dela ao transar com ela por trás e passá-la pela mão de todo mundo até ela entender”. Em outra situação, Hascoët teria “se pressionado” contra uma colega de trabalho em um elevador, fazendo sons de gemido e olhando-a nos olhos. Dentro das equipes editoriais da Ubisoft, alguns de seus colaboradores teriam engajado no mesmo comportamento, até chegar ao ponto de isso ter virado uma espécie de “jargão físico” da equipe.

Os relatos originais foram publicados pelo site francês Libération, que ouviu de fontes que desde que as acusações foram ao ar a situação havia piorado: “Líderes de equipes estão convencidos de que isso é um impeditivo às suas liberdades. Eles chamam [a situação] de ‘caça às bruxas’. Além disso, nós, como mulheres, nos tornamos alvos”, disse uma fonte ao site. Em um novo artigo, o Libération cita uma suposta reunião de chefia em que foi exigido do CEO Yves Guillemot que o RH fosse publicamente exonerado das acusações sofridas, ou então um alto executivo da área, não nomeado, “deixaria a Ubisoft com metade da minha equipe”.

A essa altura, o nome dessa pessoa ainda se mantém em sigilo, porém, junto de Hascoët, também deixou a Ubisoft Cécile Cornet, chefe global de Recursos Humanos da companhia. Tal qual o agora ex-CCO, Cornet também renunciou ao próprio cargo e decidiu cortar todos os laços possivelmente remanescentes com a Ubisoft. O terceiro executivo a deixar a empresa é Yannis Mallat, chefe das filiais da empresa no Canadá, cuja capital, veja só, é Toronto - justamente a cidade onde começou toda essa discussão.

Far Cry 6, outro jogo a ser introduzido pela Ubisoft na próxima geração de consoles, terá o ator Giancarlo Esposito (o Gus Fring de Breaking Bad) como antagonista (Imagem: Divulgação/Ubisoft)

Com as saídas de Hascoët, Mallat e Cornet, o CEO Yves Guillemot assinou um comunicado à imprensa no último final de semana, admitindo que a Ubisoft falhou ao investigar apropriadamente todas as acusações. Ele anunciou reformulações “de cima para baixo”, além de assumir interinamente o cargo deixado por Hascoët.

Apesar do posicionamento franco da Ubisoft, o mercado não respondeu bem, o que levou à queda das ações da empresa conforme mencionamos no começo deste texto. Analistas de mercado esperavam que o evento Ubisoft Forward, apresentado pela publisher francesa no domingo (12), servisse como um colchão para minimizar este impacto, mas a impressão generalizada da ocasião foi tépida na melhor das hipóteses, então os casos de abuso voltam a tomar o destaque na mídia internacional.

Fonte: Ubisoft; Libération (1) (2); The Next Web; Kotaku; Jason Schreier (via Twitter)

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