Nome de usuário do WhatsApp: por que é arriscado repetir o @ do Instagram?
Por Marcelo Fischer Salvatico |

No final do mês de junho, a Meta liberou reservas de nomes de usuário no WhatsApp. Na prática, o indivíduo pode iniciar uma conversa com outra pessoa sem precisar do número de telefone, como ocorre hoje no Instagram.
O principal argumento da empresa de Mark Zuckerberg é a privacidade. Afinal, ninguém quer ter seu número vazado e receber ainda mais mensagens e ligações indesejadas, principalmente no contexto brasileiro em que o celular é até chave Pix.
Mas, se mal utilizado, o nome de usuário pode gerar o efeito inverso ao qual foi implementado. Antes, sem seu número, ninguém conseguia te chamar no Zap.
Agora, caso seu novo “username” seja o mesmo de outra rede social, você pode ser acionado por desconhecidos. O caminho contrário também é uma possibilidade: um desconhecido pode ver seu nome no mensageiro (participando de um grupo, por exemplo) e procurar o perfil homônimo nas redes para stalkear.
O Canaltech conversou com especialistas em cibersegurança e em direito digital para entender os riscos da nova adição da Meta, e como criar um nome de usuário seguro. Abaixo você confere:
- Como funcionam os nomes de usuário
- O que você ganha quando não compartilha seu número
- Nomes de usuário são mais seguros?
- Por que não usar o mesmo @ do Instagram
- Como criar um nome de usuário seguro no WhatsApp
Como funcionam os nomes de usuário
Os nomes de usuário vão deixar o WhatsApp mais parecido com o Instagram e menos dependente do número de telefone. Você poderá encontrar alguém no mensageiro apenas digitando o “@” na pesquisa. Ao iniciar uma conversa dessa forma, o número do destinatário não estará visível.
Vale ressaltar que é necessário pesquisar pela correspondência exata do nome de usuário. Caso seu @ seja “fulano_silva” e alguém procure por “fulanosilva”, o app não mostrará o perfil correto como sugestão, como acontece no Instagram.
Além disso, a Meta afirmou que habilitará um PIN — senha de quatro dígitos —, que o usuário poderá usar como um tipo de senha, necessária para que outras pessoas tentem mandar uma mensagem. Sem saber o seu PIN, não conseguirão te mandar mensagem. Mas, esse recurso é opcional.
Já é possível reservar um nome de usuário antes da implementação oficial, que acontece nos próximos meses.
O que você ganha quando não compartilha seu número
O principal ganho é a redução da exposição. O pesquisador líder de segurança da Kaspersky, Fábio Assolini, classifica o número de telefone como uma “chave de identidade valiosa”.
“Ele [número de telefone] é usado para autenticação de dois fatores, cadastros bancários e, se vazado, permite que criminosos realizem golpes de engenharia social complexos (como o SIM swap) ou acessem outras contas da vítima”, ressaltou o especialista em cibersegurança.
Ou seja, sem essa “chave”, a chance de que mensagens ou ligações indesejadas cheguem ao usuário, é menor. Além da probabilidade mais baixa de ser vítima de golpes.
Nomes de usuário são mais seguros?
Fábio Assolini, da Kaspersky, e a especialista em Proteção de dados e Direito Digital, Antonielle Freitas, concordam que os nomes de usuário são, em teoria, um avanço em segurança e privacidade.
“Em regra, o nome de usuário é uma opção mais privada do que o número de telefone, porque evita que a pessoa tenha que expor um identificador pessoal forte, estável e muito associado à sua vida digital”, explica Freitas.
Mas, o calcanhar de Aquiles da atualização reside na forma como o usuário definirá seu nome de usuário. Se utilizar o mesmo “@” do Instagram ou de outra rede social, mesmo sem o número de telefone, essa pessoa pode ser encontrada no WhatsApp.
E a própria Meta facilita a reutilização do nome de usuário, com a premissa de prevenir fraudes e evitar que alguém “perca” um @ que gosta ou queria manter.
Por que não usar o mesmo @ do Instagram
Para Antonielle Freitas, repetir no WhatsApp o mesmo nome de usuário já usado em redes como Instagram, X e TikTok, anula parte do ganho de privacidade prometido pela Meta.
Segundo ela, o problema está no cruzamento entre plataformas, quando alguém encontra um perfil público e usa o mesmo identificador para tentar localizar a pessoa também no mensageiro.
Em casos de assédio ou perseguição, esse cruzamento amplia a exposição da vítima e abre uma via de contato que antes dependia do número de telefone.
“Por isso, a proteção depende tanto do comportamento do usuário (evitando nome completo, data de nascimento, cidade, empresa ou o mesmo @ de outras redes) quanto do desenho da plataforma, que deve impedir diretórios públicos, buscas abusivas, tentativa massiva de adivinhação, spam, fraude e impersonação”, completou.
Índia pediu para Meta pausar a reserva de nomes de usuário
Na mesma linha de pensamento, a Índia identificou inconsistências justamente no design da funcionalidade dos nomes de usuário.
O país é o maior mercado do WhatsApp, com mais de 850 milhões de usuários, e o governo pediu à Meta que pausasse o lançamento do recurso, alegando que ele pode facilitar fraudes, phishing e golpes de falsa autoridade, segundo reportagem da BBC.
O Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação do país citou a possibilidade de nomes de usuário serem usados para se passar por autoridades, bancos e órgãos públicos.
O TechCrunch encontrou, durante testes do recurso, nomes de usuário disponíveis para reserva que remetiam a figuras públicas indianas, como variações associadas ao primeiro-ministro Narendra Modi e ao ator Shah Rukh Khan.
A reportagem mostra que a barreira contra a personificação depende de decisões da própria Meta sobre quais nomes bloquear, sem critério público.
A legislação brasileira dá conta da perseguição digital?
Para Freitas, o Brasil não tem um vazio legal para lidar com perseguição digital. A advogada cita o Marco Civil da Internet, a Lei Carolina Dieckmann, a LGPD e a Lei 14.132/2021, que tornou o stalking crime mesmo quando praticado por meios digitais.
O desafio, segundo ela, está na efetividade. Investigação rápida, preservação de provas e cooperação das plataformas ainda pesam mais do que a existência da lei na hora de proteger uma vítima.
Como criar um nome de usuário seguro no WhatsApp
Os especialistas recomendam que o nome de usuário do WhatsApp seja exclusivo, sem repetir o que já é usado em outras plataformas.
Nome completo, sobrenome, data de nascimento, cidade, profissão, empresa ou apelidos conhecidos também entram na lista do que evitar.
A ideia é escolher um identificador simples de compartilhar com quem a pessoa conhece, mas difícil de ser adivinhado por estranhos. Confira alguns exemplos abaixo de nomes de usuários fracos para se evitar:
- “ju.costa.rj”: apelido + sobrenome + cidade;
- “pedro_lima92”: nome + sobrenome + ano de nascimento;
- “marcelojornalistact”: nome + profissão + empresa.
Ainda assim, o nome de usuário continua como uma forma de expressão e de deixar sua marca online. Mesmo com um nome de usuário “óbvio” ou parecido com o de outras redes sociais, você consegue proteger sua privacidade de outras formas. A configuração de privacidade do WhatsApp é uma delas.
Assolini recomenda restringir quem pode ver a foto de perfil, o status e o "visto por último" apenas aos contatos salvos, para que um desconhecido que descubra o nome de usuário não tenha acesso a mais informações.
Caso uma mensagem de um desconhecido chegue através do novo recurso, a orientação dos especialistas é não responder. Bloquear e denunciar pelo próprio aplicativo é o caminho recomendado nesses casos.