Aprenda a fotografar no modo manual com o smartphone e tire fotos incríveis

Por Patrícia Gnipper | 25 de Agosto de 2017 às 09h52

Todo smartphone equipado com uma câmera traz um aplicativo nativo para a captura de fotos e vídeos. Esses apps costumam ser bastante básicos, com recursos simples e fáceis de usar, bons o suficiente para quem deseja registrar o dia-a-dia sem precisar carregar uma câmera por aí. Contudo, existem apps desenvolvidos por terceiros que trazem recursos mais profissionais à câmera do celular — e o resultado são fotos com jeitão de quem sabe o que está fazendo.

Esses apps permitem controlar, manualmente, recursos como ISO, velocidade do obturador, profundidade de foco, balanço de branco, temperatura da imagem, foco e até a abertura do diafragma. Isto é, ao menos o equivalente digital desses controles para o caso da câmera do smartphone. Em alguns casos, também é possível salvar as imagens em RAW — formato cru sem compactação, como acontece com o JPG.

Aplicativos bacanas

Alguns modelos de smartphone oferecem o modo manual para se fotografar já no app nativo da câmera. Mas, se esse não for o seu caso, você pode contar com apps que existem justamente para isso.

O Manual talvez seja o mais famoso nesse quesito. Como o próprio nome já diz, o app serve para se fotografar manualmente com o smartphone. Disponível apenas para iOS, ele custa US$ 3,99, funciona do iOS 8 para frente e, nos iPhones SE, 6s, 6s Plus, 7 e 7 Plus, é possível salvar as imagens em RAW.

Manual, app para iPhone

Com ele, você controla exatamente qual ISO, velocidade, foco, balanço de branco e exposição usar, e também acompanha a captura das imagens por um histograma tal qual uma câmera profissional, faz fotos com longa exposição, usa flash e também tem filtros pré-programados à sua disposição.

Já para Android, uma boa opção é o A Better Camera, que permite os mesmos controles do Manual, oferecendo modos de fotografia como HDR, noturno, foto sequencial e panorâmica.

Controles do A Better Camera

Mas o que são todos esses controles?

Fotógrafos profissionais estão “carecas” de saber o que significa ISO, abertura, exposição e balanço de branco, mas o entusiasta da fotografia que quer capturar boas imagens com seu smartphone pode não estar tão familiarizado assim com esses controles. Então a gente explica:

ISO: na época da fotografia com filmes, ISO representava a velocidade com que o filme reagia à luz. Então, um filme de ISO 100 era mais “escuro”, precisando de uma maior quantidade de luz para capturar uma imagem, que poderia ser medida com a intensidade da fonte de luz, com a abertura do diafragma da câmera ou com a velocidade do obturador (exposições mais longas e aberturas mais amplas permitem uma maior entrada de luz). Já um filme de ISO 800, muito mais sensível, exigia menos iluminação, aberturas mais fechadas ou velocidades mais rápidas, para capturar a mesma imagem. Com a chegada da fotografia digital, o conceito de ISO foi transportado para os controles das câmeras seguindo a mesma lógica. Contudo, ISOs mais altos resultam em imagens digitais com mais ruído, enquanto os mais baixos proporcionam imagens mais limpas.

Sem alterar condições de iluminação, abertura e velocidade, a imagem compara o  mesmo cenário com ISOs diferentes

Velocidade do obturador: nas câmeras fotográficas profissionais, obturador é um componente físico do equipamento, que controla o tempo em que ele ficará aberto — ou seja, capturando a luz e a imagem. Já os smartphones não têm esse componente em suas câmeras, o que é compensado no software. Ao escolher uma velocidade mais lenta, por exemplo, você consegue tirar fotos de carros em movimento com o efeito desejado do movimento borrado na imagem, enquanto velocidades mais rápidas podem “congelar” a queda de um fio de água.

Um catavento registrado com alta velocidade, média e baixa, respectivamente

Mas é importante saber que, enquanto o obturador estiver “aberto”, qualquer mínimo movimento que você fizer com o aparelho resultará em uma foto tremida. Quando desejar usar esse recurso, o recomendado é contar com um tripé para estabilizar o smartphone, ou, pelo menos, apoiá-lo em uma superfície estável e programar o timer para acionar o início da captura, sem tocar no aparelho até o final do registro da imagem.

Abertura do diafragma: assim como o obturador nas câmeras, o diafragma é um componente físico nas lentes profissionais, coisa que também não existe nos smartphones e acaba sendo compensado digitalmente. Abertura é o tamanho do “buraco” que a lente abrirá para a captura da imagem, sendo que aberturas grandes, que representam um buraco pequeno, deixam entrar menos luz, mas têm uma distância focal maior, enquanto aberturas pequenas, com um buraco maior, absorvem uma maior quantidade de luz com uma distância focal menor. Traduzindo: uma abertura de f/1.8 funciona muito bem em situações com pouca iluminação, mas não conseguirá ter muitos elementos em foco; enquanto uma abertura de f/22 exigirá uma maior quantidade de luz no ambiente para capturar a imagem, ou maior tempo de exposição, e consegue incluir mais elementos para focar.

À esquerda, uma abertura grande proporcionou focar apenas na cabeça da mosca, desfocando o restante. No centro, mais elementos da imagem ficaram em foco, enquanto a imagem da direita, com uma abertura menor, conseguiu colocar o inseto inteiro em foco

Exposição: na fotografia manual, controlar a exposição da câmera é essencial para se obter fotos com brancos mais estourados, ou pretos mais marcados. As câmeras digitais exibem uma linha de exposição que mostra se a fotografia a ser tirada sairá super ou subexposta, ou se a exposição está certinha bem no meio.

Indicador de exposição presente em câmeras profissionais

No entanto, nem sempre uma exposição centralizada significa que a foto estará “certa”. Tudo depende do que você quer para aquela imagem: se prefere um tom mais sombrio, pode deixar a exposição mais escura intencionalmente.

Balanço de branco: as condições de iluminação do local onde será feita a captura da imagem influenciam diretamente nas cores que as pessoas e objetos terão em sua foto. Certamente você já tentou fotografar alguma coisa e, ao ver o resultado, notou que as cores estavam pendendo mais para o azul, ou para o amarelo, sendo que ao vivo, a olho nu, isso não estava acontecendo. Na fotografia, isso se chama balanço de branco, e é possível controlá-lo manualmente. Enquanto as luzes de vela e tungstênio são mais quentes, outros tipos de luzes, como as fluorescentes, são mais frias. Por isso, para que o objeto ou pessoa fotografada saia na imagem com as cores reais, você consegue ajustar o balanço de branco do aplicativo para compensar essa diferença. Além do controle manual, muitos apps também trazem opções pré-configuradas para diferentes situações e cenários, como, por exemplo, dias nublados, luz fluorescente, luz incandescente e luz do sol.

A mesma imagem com diferentes ajustes no balanço de branco

Foco: com uma câmera profissional, o foco é ajustado no anel da lente, para que o fotógrafo consiga focar exatamente o ponto desejado naquela cena. Já com os smartphones, o foco costuma ser ativado com um simples toque na tela.

O foco na câmera de smartphones se dá com o toque na tela

Dependendo do aplicativo que você estiver usando, você consegue escolher tipos diferentes de foco, como focar em vários pontos da imagem ao mesmo tempo, em um plano inteiro, ou em apenas um objeto.

Mãos à obra

Conceitos explicados, é hora de colocar a mão na massa e começar a fotografar como um profissional, mesmo usando somente um smartphone. No início pode ser que você “se bata” um pouquinho até entender a íntima relação que controles como ISO, abertura e velocidade têm entre si, mas basta combinar diferentes configurações e ir testando para entender, na prática, como a coisa funciona.

Uma dica para iniciantes é não mexer em todos os controles ao mesmo tempo. Comece registrando uma imagem com o ISO automático, e, depois tirando outras fotografias da mesma cena, com o mesmo ângulo, somente brincando com as outras opções de ISO, para ver a diferença entre cada imagem. Faça o mesmo com outros controles, como velocidade e abertura, e, depois de ter dominado o quanto cada configuração influencia no resultado final, você pode começar a combinar os ajustes a fim de registrar a fotografia exatamente como você tem em mente.

Dessa forma, você conseguirá fotografar as ondas do mar com efeitos belíssimos de movimento e capturar as cores reais de objetos e cenários — somente usando um smartphone para isso. Ah, e lembra que falamos sobre alguns apps salvarem as imagens no formato RAW? Com ele, você pode abrir um programa de tratamento e edição de imagens, como o Adobe Lightroom ou o Photoshop, por exemplo, e fazer um tratamento sensacional, sem perder qualidade no resultado final.

Foto de uma onda quebrando no mar registrada em uma velocidade mais baixa (Reprodução: Joel Coleman)

Além disso, fotografar no modo manual com o celular pode ser um treino e tanto para quem deseja se tornar um fotógrafo um dia, mas não tem condições financeiras para investir em uma câmera DSLR no momento, ou também não tem tempo livre para se matricular em um curso especializado. Ao treinar por conta própria, usando o equipamento que tem em mãos, você consegue aprender muita coisa!