Google Glass, o mundo não precisa de você agora

Por Bruna Rasmussen | 23 de Maio de 2013 às 09h05

A partir do momento em que os eletrônicos saem do seu bolso ou da sua mesa de trabalho e se grudam à pele, temos um novo patamar tecnológico. A tecnologia de vestir promete mais integração e flexibilidade – seja na hora de tirar uma foto, descobrir um endereço no mapa ou se conectar a pessoas. Fáceis de serem assimilados, como um relógio inteligente, ou ousados, como lentes de contato que permitem visualizar informações, os gadgets de vestir estão começando a virar assunto, principalmente devido ao anúncio do Google Glass, os óculos inteligentes da gigante da internet.

Recentemente, o Google disponibilizou uma versão do produto para ser testada por alguns entusiastas e jornalistas de tecnologia. Apesar de empolgados com o conceito, a conclusão a que chegaram é que o produto ainda exige certo nível de refinamento e que não estaria pronto para uso – a empresa espera conseguir colocá-lo à venda já em 2014. A capacidade do Google de tornar o produto user friendly e poderoso em pouco menos de um ano não é de se duvidar, contudo, entra em pauta um segundo fator que pode ser decisivo para o sucesso do Glass: quem estaria realmente disposto, hoje, em andar por aí com um óculos tão ciborgue?

Usar o produto envolve também uma questão bastante delicada: a privacidade. Com uma câmera acoplada à armação, é possível registrar e rapidamente compartilhar qualquer momento em qualquer lugar onde você esteja. Pare e pense: você se sentiria confortável conversando com um amigo que usa o Google Glass, correndo o risco de ter todas as suas informações registradas?

Mesmo com ressalvas, o buzz em torno do Glass tem sido grande. Mas por que as pessoas estão falando tanto e bem dele? Mais do que apoiar fatos, há um certo tom de esperança no discurso que rodeia o produto. Um dia ele poderá ser a revolução da tecnologia de vestir. Será mesmo?

Além do potencial?

Há algumas décadas, Bill Gates afirmou que 640 k de memória RAM seriam suficientes para qualquer computador – o seu, atualmente, deve ter no mínimo 2 GB ou 4 GB. Mesmo ele tendo negado a frase anos depois, jornalistas e pessoas ligadas à indústria da tecnologia garantem que Gates realmente disse aquilo. Tudo bem, ele é o pai do Windows e um dos responsáveis por criar o conceito de computador pessoal, mas esse deslize na previsão rende risadas até hoje. Afinal, como um dos gênios da informática pode ter pisado na bola dessa forma?

Talvez seja esse mesmo medo de ridicularização futura que está garantindo ao Google Glass, hoje, um hype grande demais para o que ele merece. Afinal, se eu digo hoje que óculos inteligentes são excessivamente ciborgues para a nossa sociedade e que um smartphone dá conta do recado, serei a dona de uma bola de cristal falida daqui alguns anos, quando, quem sabe, todos nós caminharemos por aí com 6 olhos – dois originais, dois do óculos, uma câmera e uma tela de LCD.

Lançamento do iPad

Fonte: Reprodução/Apple

Se estamos dispostos a encarar um novo patamar tecnológico, comecemos com calma a revolução ciborgue. Em vez dos óculos inteligentes, por que não um relógio que consiga se conectar com o smartphone, que obedeça comandos de voz e que traga consigo aplicativos para facilitar o dia a dia, como já foi especulado em diversos rumores? Quando o assunto é assimilar tecnologia e fazê-la dar certo, não é a opinião dos entusiastas que conta. É preciso saber se as pessoas, como um todo, estão dispostas a usá-la – e ao que tudo indica, apesar de bacana, um par de óculos tecnológicos parece estar um pouco além do nosso tempo.

No cenário da tecnologia atual, os netbooks já viraram poeira, os notebooks perderam lugar para os magérrimos e potentes Ultrabooks e os smartphones já estão atingindo um estado de perfeição, em que oferecem processadores excelentes, câmeras que substituem as máquinas fotográficas, baterias melhores e um corpo fino e leve. Os televisores e monitores vão pelo mesmo caminho, trazendo cores mais realistas, experiências de imersão e carcaças finas. Previsível e por vezes entediante, o universo da tecnologia precisa de um sopro de vida.

Há três anos, foi o iPad que abriu espaço para uma nova categoria de gadgets: os tablets. Porém, estes vão pela mesma trilha dos smartphones e parecem ter pouca inovação a oferecer. Cabe ao Google Glass, então, a missão de revolucionar. Parece estar nele as esperanças de todos os geeks do mundo, sedentos por novidades, e que enxergam em um projeto incipiente a promessa de um futuro.

Relógio inteligente antes, Google Glass depois

Quem sabe não é hora da Samsung ou da própria Apple apresentarem um relógio inteligente e roubarem os holofotes do Glass? Também baseado no conceito de tecnologia para ser vestida, o relógio inteligente envolve menos tecnologias revolucionárias e pode estar mais perto de se tornar real em um futuro próximo. Além disso, ver alguém falando com o relógio é um pouco menos esquisito do que interagir com um par de óculos.

SmartWatch

Fonte: Reprodução/PC Player

A tecnologia a ser vestida traz inúmeras vantagens de integração, mas pular do smartphone para o Google Glass é ser apressado demais. Assim como existiu um netbook entre o notebook e o tablet, precisamos de um relógio inteligente — ou de algo mais próximo da nossa realidade — antes de ditarmos comandos para os óculos. É uma simples questão de nos acostumarmos a um novo tipo e tecnologia, que se une ao corpo. O Google Glass é um conceito válido e que pode ser explorado de forma a beneficiar e, por que não, revolucionar nossas vidas. Porém, tudo tem seu tempo e esta ainda não é a sua hora.

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