Google Glass e o adeus à privacidade

Por Luciana Zaramela | 09 de Maio de 2013 às 16h36

Já tem muito geek por aí morrendo de vontade de sair pelas ruas paramentado com um par de óculos do Google, filmando e fotografando tudo, curtindo músicas pelos ossos do crânio e acessando aplicativos. E essa realidade (aumentada) logo estará batendo à nossa porta. Veremos pessoas com Google Glasses por toda a parte: nas ruas, nos escritórios, nos shopping centers, nos supermercados, nos clubes, nos cinemas, nas danceterias, nas praias, nos banheiros... e onde mais você puder imaginar.

Desde que o celular com câmera surgiu no mundo tech, foi considerado um artigo constrangedor em certos casos, e nós nunca mais tivemos sossego. Acabou-se a privacidade. Bastava apertar um botão para flagrar tudo o que não era devido. E agora, com a chegada dos óculos de realidade aumentada do Google, como ficará essa questão de respeito? No celular ou smartphone, pelo menos, é possível enxergar o que o outro está vendo na tela e perceber quando o dispositivo está sendo usado para gravar alguma coisa. Todavia, com o Google Glass, isso não é possível; apenas o usuário vê o que passa em sua minúscula tela. E apenas ele escuta.

Tudo fica mais claro quando colocado em exemplos práticos, portanto vamos imaginar uma situação corriqueira: você está em uma festa, munido de seu par de óculos tecnológicos, quando repentinamente presencia uma cena que pode vir a ser a prova cabal de uma traição ou constrangimento alheio. Daqueles para fazer a casa cair. Com um comando, você banca o espertalhão e resolve filmar tudo — em HD — à vontade, já que o gadget terá uma boa capacidade de armazenamento (16 GB) e a qualidade do resultado é bem bacana. Dali a pouco você mesmo posta tudo no YouTube e nas redes sociais. Sem precisar disfarçar, nem sair de perto do local onde ocorreu a cena. Bacana, não? Agora, imagine se outras pessoas também estivessem usando o Google Glass, e a bola da vez fosse você, em um local inadequado. Literalmente, em um piscar de olhos, a cena mais constrangedora da sua vida estaria com milhares de visualizações no YouTube em questão de minutos. E anos de reputação intacta se manchariam em segundos. Estar com uma câmera de 5 megapixels que filma em HD em um dispositivo com capacidade de armazenamento de 16 GB acoplado a uma discreta armação em sua cabeça pode atiçar e muito sua imaginação, e a de qualquer pessoa que resolva sair por aí registrando tudo. E salve-se quem puder.

A coisa já está deixando tanta gente inquieta lá nos Estados Unidos que a turma do Wall Street Journal chegou a um consenso e elaborou seu guia de 'etiqueta', destinado aos futuros usuários do gadget. Afinal, como saber se você está tendo sua privacidade invadida por um feliz usuário do Glass? Uma solução encontrada pela equipe do jornal foi a emissão de alguma luz enquanto o gadget estiver em modo de captura de imagens ou mesmo filmando, só para sinalizar. Se isso for pedir demais aos desenvolvedores do Google, outra saída sensata seria convidar, educadamente, as pessoas para que não utilizassem o gadget em certos estabelecimentos, locais públicos e banheiros. Estupendo, se o lugar não tiver iluminação baixa, como uma boate ou cinema. Quem calcula a chance desse pedido ser obedecido por quem pagou uma fortuna no aparelho?

Um ponto que merece toda a atenção: se o próprio Eric Schmidt, chairman do Google, falou que usar o Glass pode ser esquisito, o que será que as pessoas ao redor, desprovidas do gadget, achariam? Simplesmente sairiam de perto, sentiriam-se desrespeitadas. Causariam discussões, ou até brigas. Isso se reconhecessem o gadget à primeira vista.

O Wall Street Journal ainda aconselha os futuros usuários a não saírem por aí falando sozinhos, gesticulando. Já não é convencional vermos uma pessoa com um headset Bluetooth ou um fone de ouvido falando ao celular na rua. Com as mãos abanando, então... seria o centro de todas as atenções, principalmente se estivesse utilizando as funções de comando de voz do dispositivo. Talvez demoraria um pouco para 'a ficha cair' e para que o primeiro mais atento do bando identificasse que o indivíduo estaria, de fato, usando o Google Glass.

E a 'viagem' da equipe do jornal não para por aí: eles já imaginam que os primeiros usuários terão um estranho fascínio pelos óculos, a ponto de nunca mais quererem tirá-los. Nem para dormir. Exageros à parte, o conselho é tirar o Glass de vez em quando e parecer mais interativo com os demais humanos. E, para completar a sessão de interatividade, deixar que amigos e parentes também curtam um pouquinho do Glass e o experimentem. Assim, dá para quebrar um pouco aquele clima estranho que fica no ar e dar uma aliviada na curiosidade de quem estiver por perto.

As dicas do Wall Street Journal fazem todo sentido, afinal, já pudemos perceber um pouco do desconforto causado por quem insiste em filmar e fotografar tudo ao redor com o smartphone. O que a turma ainda não previu foi o uso do gadget nas escolas e universidades. Com apenas alguns movimentos oculares, um aluno escreveria uma tese de doutorado ilustrada e referenciada. E ainda comemoraria o resultado espiando e filmando pela janela do banheiro das meninas.

Quando os primeiros Google Glasses chegarem ao Brasil, muita gente nem vai perceber que se trata de um dispositivo polivalente e multifuncional que dispensa o uso das mãos. Aí é bom que as empresas, instituições educacionais, locais públicos, órgãos federais, autarquias e praias de nudismo prestem mais atenção: o cara de óculos (escuros ou de grau) com toda a 'banca' de boa pinta pode estar registrando tudo e todos. Seja por bem ou por mal. E depois, vão rezar a velha ladainha da privacidade em locais públicos... vai adiantar?

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