Operadoras dos EUA já defendem que é hora de "abraçar" OTTs como Netflix

Por Rafael Romer | 14.04.2016 às 18:35
photo_camera Rafael Romer/Canaltech

*De Orlando, Flórida

Desde o ano passado, empresas e executivos de telecomunicações no Brasil têm frequentemente dado declarações em defesa da regulação e taxação de serviços over-the-top (OTTs), sob o argumento de que, apesar de entregarem serviços sobre a rede de dados brasileiras, os OTTs não recolhem ICMS sobre o valor da mensalidade e nem pagam Imposto de Renda sobre remessas de royalties ao exterior.

Há também quem afirme que até mesmo o recente movimento das teles pela criação dos pacotes de franquia de internet para banda larga fixa tenha como objetivo não só desacelerar o alto consumo de dados de usuários domésticos, mas também impactar diretamente o negócio de OTTs como Netflix e YouTube, que dependem da banda larga para a entrega de seus conteúdo.

Nos Estados Unidos, o cenário não é tão diferente: prestadores de serviços de telecomunicações ainda temem os OTTs e a popularidade destes serviços entre usuários domésticos. A tônica do debate, no entanto, parece ser outra: ao invés de enfrentá-los, representantes do setor já parecem adotar o discurso de que os OTTs não são inimigos e o momento é de "abraçá-los".

"A sugestão é: comecem a conversar, conheçam quem são as pessoas do lado 'Netflix' do balcão. Entendam o que eles estão fazendo, porque operadores tem um poder enorme: acesso, banda larga, usuários", afirmou o analista e consultor Rick Howe em um debate com representantes do setor de telecomunicações durante o Amdocs Americas Summit, em Orlando.

Um dos exemplos dessa tentativa de aproximação é da alemã T-Mobile, que desde o ano passado passou a oferecer acesso a serviços de streaming de música como Spotify, Apple Music e Google Play Music sem consumo de pacote de dados nos EUA. Mais recentemente a empresa estendeu a oferta também para conteúdo em vídeo, por meio do programa "Binge On", que não conta o consumo de dados móveis para o streaming de serviços como YouTube, Netflix, HBO Now e Hulu.

"Esse é um reconhecimento de que menos atrito gera um uso maior, e um uso maior gera uma afiliação mais longa com o consumidor", afirmou o Gary King, que deixou em março a posição de CIO da T-Mobile e agora atua no setor de TI dentro da empresa de telecomunicações Amdocs. "Seja com livros, música ou vídeo, no ciclo de vida do consumidor há valor".

A companhia não é a única que está tentando novas possibilidades de parceria e monetização por meio de OTTs. No final de março, a Sprint anunciou que passaria a oferecer uma modalidade mensal de assinatura do serviço Amazon Prime — a Amazon, dona do serviço, só oferece a assinatura anual.

Na ponta do lápis, a assinatura da Sprint ficaria um pouco mais cara, já que parte do valor vai diretamente para a operadora, mas a modalidade mensal pode interessar uma série de consumidores de olho na oferta de entregas gratuitas de produtos da Amazon por meio do serviço, além, é claro, do streaming de conteúdo de vídeo e áudio que a empresa também oferece.

Outra oportunidade enxergada pelo setor é a possibilidade dos operadores se tornarem "super-agregadores" de conteúdo, alavancando ativos de dados, usuários e infraestrutura que já possuem. O argumento faz sentido: ao invés de um usuário doméstico precisar visualizar diversos catálogos de conteúdo de OTTs como Netflix, Hulu e HBO Now antes de escolher um programa, um operador poderia assumir o lugar de plataforma central de distribuição, na qual qualquer assinante poderia buscar um conteúdo de outro serviço.

Esse formato também teria potencial para facilitar a vida do usuário na hora de pagar pelos serviços OTTs: ao invés de múltiplas contas no final do mês, uma operadora pode entregar uma única mensalidade contendo a assinatura de todas as plataformas assinadas pelo usuário — também criando uma nova fonte de monetização no processo.

"Ninguém ainda desvendou o modelo atual. Nós precisamos colocar um dólar em cada uma dessas coisas e ver o que acontece", disse Anthony Goonetilleke, gerente de publicidade e mídia da operadora AT&T. "Nós devemos ver um mix desses modelos no próximos meses. A pergunta é: qual deles dará certo — ou se vários darão certo".

OTTs

*O repórter viajou para Orlando a convite da Amdocs