O fator humano em telecom

Por José Otero | 19 de Fevereiro de 2016 às 12h15

As inversões centradas em modernizar a infraestrutura de telecomunicações para oferecer comercialmente altas velocidades de transmissão de dados têm como objetivo principal melhorar a oferta de serviços para clientes corporativos e indivíduos com alto poder aquisitivo. Por exemplo, na América Latina, as redes LTE não prestarão serviço para uma grande porcentagem da população nos próximos anos.

Para reverter a situação, é preciso que os governos da região adotem algum tipo de subsídio que justifique a inversão, para levar infraestrutura para localidades que de outra maneira não seriam rentáveis.

Não obstante, há temas pouco discutidos que devem ser considerados antes de começar a confundir mil com milhão de dólares no desenvolvimento de infraestrutura em zonas de baixa densidade populacional, e com um poder aquisitivo limitado. Em outras palavras, não estamos nos referindo, em muitas partes da América Latina, às zonas habitadas por nações indígenas que contam com suas próprias tradições culturais e idiomas.

Estamos falando de comunidades que veem benefícios maiores a curto prazo na construção de uma ponte que lhes permita atravessar um rio e, assim, poupar cerca de oito horas de distância. Poder contar com a visita de um médico pelo menos uma vez ao mês (se o levar medicamentos, melhor ainda) para atender os doentes da região.

Chegar nestes locais prometendo acesso à uma Internet cheia de idiomas estrangeiros, sem conteúdo na língua materna ou textos que tenham consideração com as tradições da área são problemas que não se fixam com o simples desenvolvimento da fibra óptica ou com a colocação de uma torre capaz de oferecer a melhor conexão LTE do país.

O problema que menciono é menor, pois na América Latina, a importância da conectividade para o desenvolvimento tem um tamanho desproporcional. É tão grande que a ênfase dos governos na maioria dos casos define os planos de desenvolvimento de telecomunicações que deixam de lado temas nevrálgicos, como o desenvolvimento de conteúdo, a capacitação das pessoas no uso das novas tecnologias ou uma logística que preveja o mantimento da infraestrutura em desenvolvimento.

Outro ponto a ser considerado pelas autoridades pertinentes ao momento de inverter a infraestrutura de telecomunicações para levar conectividade para zonas em que atualmente não contam com cobertura de nenhuma rede de telecomunicações é determinar quais são as prioridades imediatas de cada comunidade. Os estados possuem uma quantidade finita de fundos para investir em diversos projetos: se para uma comunidade é oferecido escolher entre ter acesso à água potável ou poder conectar-se à Internet, obvio que na maioria dos casos a água seria a escolhida. Se substituirmos água com eletricidade, serviços sanitários e hospitais com médicos, a resposta ainda seria em detrimento da Internet.

Esta grande diversidade de realidades e necessidade na região serve como oportunidade para comunicar as pessoas como é a Internet, junto à obtenção de serviços básicos, pode chegar a ser um elemento de suma importância em suas vidas.

Assim mesmo, devido às limitações pressupostas existentes, é necessário explicar os benefícios que podem ter os chamados consórcios público-privado para o desenvolvimento, dedicando grande parte da explicação a destacar as diferenças destas iniciativas com algumas das más experiências, como as vividas na chamada “guerra del agua”, em Cochabamba, na Bolívia.

Promover o desenvolvimento de infraestrutura de telecomunicações é uma obrigação dos diferentes governos. Mas sim, o êxito dependerá do poder de capacitar a população sobre os benefícios de acessar à Internet sem esquecer de atender outras necessidades básicas da população.

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