Desafios da banda larga móvel na América Latina

Por José Otero

As primeiras redes comerciais de LTE surgiram na América Latina e no Caribe no final de 2011. Diferentemente das tecnologias móveis anteriores, que levavam uns 5 a 6 anos para chegar na região, o aparecimento do LTE aconteceu quase simultaneamente com mercados desenvolvidos como o Reino Unido, Espanha, França e Itália. Além de ter por fim uma rede inteiramente IP, o LTE marca o começo do fenômeno da simultaneidade: redes novas são implantadas ao mesmo tempo, tanto em mercados desenvolvidos como em outros em desenvolvimento. Os números da 4G Americas até março de 2015 mostram que existem 58 redes comerciais de LTE distribuídas em 22 mercados na região da América Latina e do Caribe.

Entretanto, ainda há obstáculos que têm de ser superados para acelerar a expansão de tecnologias móveis de banda larga como o LTE em áreas suburbanas e rurais. Três desses desafios precisam ser considerados pelos órgãos de regulação do setor: a alocação de espectro de radiofrequência (RF) para oferta de serviços móveis, o desenvolvimento de infraestrutura de cabeamento para expansão de redes sem fio de banda larga e a necessidade de facilitar a entrada de equipamento para adoção destas tecnologias.

Espectro RF

O espectro de RF é o aspecto mais básico de uma rede móvel. Apesar disso, em termos práticos, todo o espectro não é igual. Por exemplo, todas as faixas de espectro não têm as mesmas características de propagação ou as mesmas economias de escala. Hoje há, por exemplo, mais aparelhos LTE que funcionam na faixa de 2,6 GHz ou de AWS (1,7 GHz / 2,1 GHz) do que na faixa de 700 MHz.

Apesar da importância da alocação de espectro de RF para o bom desenvolvimento do setor de serviços móveis, muitos órgãos reguladores da América Latina estão atrasados com o volume de espectro RF alocado para prestação de serviços móveis em seus respectivos mercados. Enquanto que em mercados desenvolvidos mais de 600 MHz e 700 MHz de espectro já foi disponibilizado, os números da Signals Telecom Consulting revelam que na região existem mercados com somente 400 MHz e vários com menos dos 200 MHz alocados, como Honduras ou Panamá.

No caso de haver disponível um volume limitado do espectro RF que foi alocado, é altamente provável que as operadoras usem a largura de banda que já têm para oferecer serviços em diferentes plataformas tecnológicas. Isso dificulta muito a introdução de uma nova tecnologia como o LTE, que precisa de uma rede própria. Dentre as possíveis soluções para a falta de espectro de RF em mercados com concessionárias que o subutilizam, existe a possibilidade de criar um mercado secundário para a sua comercialização, prática comum nos Estados Unidos e na Europa.

Importância dos cabos

Embora um componente importante das redes sem fio seja a interface aérea — o segmento da rede que vai do aparelho móvel (celular, tablet, entre outros) à rádio base ou antena—, a infraestrutura de cabeamento exerce um papel cada vez mais importante nas redes. Cada antena tem uma ligação com o backbone de fibra óptica em seu mercado, o que permite que o tráfego bidirecional chegue ao destinatário final. A maioria dessas conexões – conhecidas como backhaul – é feita por redes de cabos de cobre ou fibra óptica. O aparecimento de tecnologias de banda larga móvel com velocidades de mais de 20 Mbps leva à evolução das conexões de backhaul das redes sem fio. Para serviços 2G uma conexão E1/T1 era suficiente, hoje usamos conexões de fibra ou VDSL2.

Por isso, é muito importante que os governos da região viabilizem a autorização para instalação de redes móveis, com vistas à colocação de antenas e implantação de tecnologias de cabos necessárias para operação da rede móvel. Como na grande maioria dos mercados da região a outorga da autorização depende do município, corre-se o perigo de um atraso artificial na implantação da banda larga móvel por motivos burocráticos ou falta de informação, principalmente em áreas afastadas ou rurais, que ironicamente são as que mais precisam da chegada de tecnologias como o LTE.

Importância dos aparelhos

O espectro de RF e a autorização no âmbito municipal são necessários para implantação e expansão de novas tecnologias móveis e é essencial disponibilizar de aparelhos que tenham acesso a essas redes. Uma rede móvel para a qual não existem aparelhos com conexão à rede não faz sentido, ou seja, é um elefante branco. Portanto, é fundamental que os governos da região adotem medidas para facilitar a chegada de aparelhos compatíveis com as novas tecnologias. O aumento do número de aparelhos de baixo custo leva a uma adoção mais rápida de tecnologias de banda larga móvel como o LTE. A chegada de serviços de banda larga sem fio com mais de 10 Mbps ou 20 Mbps obriga os fornecedores de banda larga fixa (isto é, cabo, DSL, entre outras) a melhorar a sua oferta para serem competitivos.

No que tange à disponibilidade de novos aparelhos, lamentavelmente a realidade na América Latina e no Caribe não é animadora, com a Venezuela como caso mais paradigmático na região. Os problemas de compra de divisas em moeda forte impedem as operadoras de atualizar suas redes com velocidades superiores. Por exemplo, declarações da Digitel à imprensa assinalam que a operadora levou três anos para fazer atualizações em sua rede, o que em condições normais teria levado entre seis e nove meses.

Conclusões

Diversos estudos acadêmicos encontraram uma correlação entre a adoção de tecnologias de banda larga e o crescimento econômico de um país. Também a arquitetura das redes sem fio as torna mais propícias para uma implantação mais rápida em áreas sem cobertura de redes alternativas de cabeamento. Esses dois aspectos deveriam ser suficientes para que os governos da América Latina e do Caribe busquem alternativas para agilizar a instalação de redes de banda larga móvel em todo o país e para começar a promover iniciativas de tele-educação, tele-saúde e governança eletrônica durante a expansão do mercado local de desenvolvimento de aplicações para as novas tecnologias.