Cobertura geográfica de 100%? Sim, soa bonito

Por José Otero | 02 de Julho de 2019 às 07h26
Telegestão

As tecnologias da informação e da comunicação (TIC) são elementos sumamente importantes para o desenvolvimento econômico e social de um país. A capacidade que tem as TIC para melhorar a produtividade e aumentar a eficiência de forma transparente faz com que sua adoção seja inevitável. A única variante é a data em que estas começam a incentivar a chamada transformação digital de todos os segmentos produtivos da economia.

Uma transformação que não acontecerá magicamente, mas que precisa ser incentivada por planos bem definidos de implementação, investimento e sobretudo um marco regulatório atualizado que não freie a digitalização de processos produtivos. É de se esperar que grande parte deste planejamento e investimento se dê por parte do setor privado, não obstante o governo deve estar preparado para estabelecer programas de reeducação e ou treinamento em novas habilidades para que as pessoas possam continuar a fazer parte da força de trabalho do país.

Talvez sejam as possibilidades que oferecem as TIC tanto no setor público como no privado, o que leva erroneamente a equiparar seu impacto com as coberturas territoriais de redes de telecomunicações no mercado. A transformação digital de um país afetará de forma direta ou indireta todos os seus habitantes, mesmo aqueles que residem em áreas sem acesso devido aos serviços de telecomunicações. O principal erro que alguns podem cometer é pensar que quanto maior a cobertura geográfica das redes de telecomunicações, maior o impacto da digitalização e mais rápido o país mergulha na transformação digital.

É inevitável questionar a lógica dessa abordagem, principalmente porque denota grande desconhecimento sobre a dinâmica operacional do setor de telecomunicações e o uso das TIC como ferramenta de desenvolvimento. Em vez de oferecer respostas, é uma abordagem que levanta mais questões: quais são as tecnologias consideradas ao determinar a cobertura? Como o governo ajudará adaptando a infraestrutura necessária, como estradas ou eletricidade, para a implantação de tecnologias sem fio em desertos ou selvas? Essa meta de cobertura geográfica de 100% inclui as águas territoriais do país onde não há pessoas vivendo?

A resposta óbvia é um ressonante não. Ao medir a cobertura, faz-se pensar nas áreas povoadas do país para estimar a porcentagem da população que teoricamente pode ter acesso ao serviço oferecido. Isso é extremamente importante porque, dependendo do serviço que está sendo medido, a porcentagem da população que tem acesso a ele varia, especialmente se você pensar em plataformas que não sejam de satélite. Por exemplo, o número de pessoas que podem acessar os serviços básicos de telefonia é maior do que aqueles que podem acessar serviços audiovisuais em 4K.

No entanto, a cobertura não é tudo, uma vez que tem que ser acompanhada por um plano de logística que permita que os usuários tenham a capacidade de se conectar à rede que está presente em sua área. Em outras palavras, você deve estabelecer uma estratégia plausível de como tornar cada pessoa capaz de acessar o dispositivo que permitirá que você use a rede de telecomunicações presente em sua área. Implantar cobertura sem oferecer a ferramenta de conectividade que o usuário precisa, um dispositivo, é um desperdício de dinheiro e, portanto, um investimento ruim.

Se a abordagem for simplesmente alcançar a cobertura de 100% do território nacional, há vários anos a grande maioria dos países das Américas conseguiu isso através dos satélites que têm pegadas na região. As chamadas aves de telecomunicações com seus transponders em Bandas Ku, Banda C e Ka Band, entre outras, além de cobrir todo o território nacional (incluindo águas territoriais, serras, geleiras, selvas e desertos) têm a capacidade de oferecer ao usuário final serviços de telefonia, televisão restrita e Internet.

Uma vez que se sabe que 100% de cobertura geográfica nacional já está disponível, a pergunta inevitável é por que não é usada para conectar os desconectados? Por que tanta ênfase nas agendas nacionais de desenvolvimento que ignoram a infraestrutura que já está presente? A resposta é bastante simples: é uma questão de custos e desempenho de dispositivos que podem ser conectados via satélite. Infelizmente, até agora eles não são uma alternativa para oferecer conectividade a um mercado de massa com baixo poder aquisitivo.

Também não se pode esquecer que, além da cobertura de satélite, os países da região instalaram milhares de quilômetros de pares de cobre, fibra ótica e antes para a transmissão de comunicações sem fio. Se estimássemos todos os lugares onde uma rede de telecomunicações não cobre a população atualmente, provavelmente seria correto dizer que cerca de 5-6% da população da região (~ 32-39 milhões de pessoas) não tem acesso a uma rede de serviços de telecomunicações que não é satélite. Esse número é reduzido para menos de 5% em países como o México (~ 6 milhões de pessoas) e o Brasil (~ 10 milhões de pessoas).

Obviamente, na presença dessa cobertura nacional, se a cobertura é o elemento essencial na implantação de novas infraestruturas de telecomunicações, tornaria obsoleta e mal concebida a ideia de usar fundos públicos para a criação de um elefante branco que transmite sinais digitais. Fundos que poderiam ser usados para programas de treinamento digital para pessoas de todas as idades, para estabelecer alianças com centros de educação superior para disponibilizá-lo remotamente em lugares onde o acesso a estudos universitários é quase impossível ou para criar conteúdo educacional que possa ser usado nas escolas.

O problema subjacente da presença de redes de telecomunicações é mais profundo e mais complicado do que a instalação de antenas ou a implantação de fibra. O problema real deriva da capacidade dos latino-americanos que vivem em áreas rurais ou isolados de poderem contratar serviços de telecomunicações porque não há pontos de venda próximos e, se o fazem, não têm o poder aquisitivo necessário para pagar por um telefone celular.

Não está falando sobre a necessidade de mais redes, mas falando sobre como implementar políticas de inclusão que permitam aos cidadãos acessar dispositivos modernos que ofereçam a possibilidade de usar a tecnologia como uma ferramenta para o crescimento pessoal. Embora não exista uma consciência da importância da tecnologia na melhoria da produtividade e do papel das pessoas nesta transformação digital continuará driblando o verdadeiro problema da adoção da nova tecnologia: o imenso trabalho feito para melhorar o poder de compra das pessoas que vivem em localidades rurais, geograficamente de difícil acesso, com baixo poder aquisitivo e / ou baixa densidade populacional.

Pensar em construir novas redes em vez de pensar em como aproveitar, ampliar e aprimorar as já existentes é simplesmente evitar um problema que, mais cedo ou mais tarde, terá que ser resolvido. Só posso dizer que as palavras que ouvi de um professor em meus anos universitários soam proféticas para mim: para um funcionário público prometer construir coisas, embora desnecessárias, sempre soa bonito.

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