A palavra convergência

Por José Otero | 17 de Fevereiro de 2017 às 16h14

O mundo das telecomunicações, como qualquer outra indústria, tem um grupo de palavras que são continuamente repetidas nos eventos setoriais. Algumas delas podem ser consideradas neutras, com um significado que flutua entre o positivo e o negativo dependendo do tema em discussão. Aqui, o principal expoente é o conceito de regulamentação, um mal necessário em todos os mercados, mas que facilmente pode ser transformado no vilão por meio da chamada upregulation.

Também existem palavras que parecem ser apresentadas como justificativa para qualquer ação de mercado. Por exemplo, o conceito mal-entendido da convergência é usado comumente na América Latina para justificar qualquer motivo por parte do setor privado, como também qualquer decisão das autoridades de regulamentação local.

Assim como ocorre com a palavra convergência, também temos visto na região, e também em alguns mercados, a redefinição do papel das operadoras já estabelecidas para, ao considerar novos entrantes, atribuir vantagens que lhes permitam expandir os seus serviços (ou atualizar a tecnologia utilizada), e desta maneira visualizar sua existência em um desejo, ainda por cumprir, de impulsionar novas operadoras que em pouco tempo estabeleçam-se como players nacionais que tendem a capturar uma importante participação de mercado.

Outro momento em que a palavra convergência é comumente utilizada é quando se hiperboliza o impacto existente com o empacotamento das ofertas de vídeo, telefonia fixa, serviço móvel e banda larga fixa (conhecidas como quadriplay) no mercado. Aqui a principal falha é não entender as diferenças existentes entre mercados desenvolvidos que se observam na região como nos Estados Unidos.

Sendo assim, é preciso entender que a migração do triple play para o quadriplay (ou quad play em inglês) traz consigo um choque de paradigmas: o serviço é destinado à um local específico que em sua grande maioria é composto por indivíduos que são predominantemente usuários de um serviço pré-pago. Resolver este pequeno detalhe não é fácil, por isso é que os níveis de adoção do quadriplay são baixos em mercados onde os serviços móveis são predominantemente pré-pagos.

Outro erro comum no discurso da convergência é equiparar a possibilidade de oferecer uma grande quantidade de serviços por meio de diferentes plataformas tecnológicas com uma imediata massificação da oferta em nível nacional. Talvez o mundo da televisão paga por meio de IPTV seja o segmento que melhor retrata a desconexão entre as realidades do mercado e os desejos regulatórios na região, uma desconexão fundada primordialmente em querer tornar obvias as diferenças na estrutura de custos que possui cada tecnologia para oferecer diferentes serviços.

Pensar que todas as linhas contratadas de DSL na região possam oferecer serviços de IPTV de forma imediata em todos os quintis socioeconômicos de um país é uma ilusão. É por esta realidade que as ofertas de IPTV encontradas na América Latina se concentrem em áreas de alto poder aquisitivo e que a massificação da televisão paga tem sido feita através dos serviços satelitais. Este último acontece sempre e quando o ofertante tem pontos de venda em áreas onde existe demanda apropriada para o serviço.

E, finalmente, o termo convergência é dito por muitos reguladores como se falasse em uma entidade salvadora dos consumidores que chegará de forma imediata com tão somente a atribuição de novas concessões para novos e velhos players do mercado. O grande erro é equiparar os planos de negócios e expansão de cada empresa interessada em converter-se em provedor de serviços de telecomunicações, confundindo o processo para os consumidores ao exagerar no impacto que as novas licenças terão no mercado.

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