Será que a Nextel sobreviverá sem a tecnologia “aperte e fale”?

Por Colaborador externo | 19 de Fevereiro de 2014 às 15h28

Por Adriano Fachini*

A convergência digital, nome dado ao fenômeno da fusão de plataformas de telecomunicações, acaba de nocautear mais uma tecnologia: a PTT, do inglês push to talk ou no bom português, aperte e fale. Esse tem sido o principal diferencial da Nextel desde o início de suas operações no Brasil, em 1997.

A falta de sinal sempre foi um dos pontos criticados pelos usuários da Nextel, que antes de partir para a plataforma 3G possuía rede baseada exclusivamente nessa tecnologia, idealizada para ser uma rede de radiocomunicação e não de telefonia móvel. Tal fato, ao mesmo tempo que lhe garantia lucratividade – pois não precisava pagar roaming a concorrentes – também lhe limitava em razão da incompatibilidade da tecnologia PPT com outras, como TDMA e CDMA.

Forçada a se posicionar no mercado como uma operadora de telefonia celular, embora sua grande base de clientes tenha sido atraída pelo baixo custo e praticidade da radiocomunicação PTT, a Nextel vive hoje um tempo de travessia. Com o intuito de ampliar sua abrangência, no início de 2014 a empresa fechou parceria com a Vivo, permitindo ao seu cliente que entre por meio de roaming nas redes de dados e voz da maior operadora do Brasil quando seu aparelho ficar sem o sinal da Nextel.

Detalhes sobre como isso funcionará e quanto custará deverão ser anunciados em breve. Mesmo com o acordo, a Nextel não deve parar de investir para melhorar as suas próprias redes, especialmente de 3G, que está restrita apenas ao Rio de Janeiro e São Paulo.

Para se adequar aos novos tempos sem perder a grande base de clientes acostumada a utilizar o serviço de radiocomunicação com taxa fixa mensal, a Nextel aposta ainda no Prip, aplicativo que tentará transformar smartphones em rádios. Digo “tentará” porque o dispositivo construído para ser um rádio é um rádio – diferentemente do dispositivo construído para ser um celular, que por meio do aplicativo emulará um rádio na camada de software. A empresa responsável pelo aplicativo confirmou que atualmente funciona apenas nos EUA e no México, mas que chegará ao Brasil ainda no primeiro trimestre de 2014. Entretanto, somente os clientes da própria Nextel terão acesso ao software.

Teoricamente, o Prip tem como função virtualizar o botão físico do PTT, inexistente em muitos equipamentos das principais marcas líderes de mercado, como Samsung, Apple e LG. A pergunta que não quer calar é: como será o funcionamento nas degradadas redes de 2G e 3G Brasil afora? Qual o delay (atraso entre o tempo de acionar o PTT e transmissão da chamada) terá o novo sistema?

Além do desafio de adaptação do usuário ao botão virtualizado, suscetível a falhas da rede 3G, há inúmeros aplicativos capazes de suportar comunicações de voz sobre IP, comumente chamados de VoIP, sem cobrar um centavo de tarifa. Muitos já consagrados mundialmente, como Skype e WhatsApp, têm roubado uma fatia significativa da teles móveis e fixas.

Em face de todas essas incertezas, resta aos usuários da Nextel aguardarem qual será o futuro da operadora, cujo único diferencial em relação aos concorrentes era a tecnologia PPT, aposentada nos EUA no ano passado e agora no Brasil. É esperar para ver.

*Adriano Fachini é empresário do setor de telecomunicações e presidente da Aerbras - Associação das Empresas de Radiocomunicação do Brasil.

Instagram do Canaltech

Acompanhe nossos bastidores e fique por dentro das novidades que estão por vir no CT.